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  "OS PÉS FICAVAM A MANHÃ INTEIRA roçando a água, o mar indo e vindo ao sabor da maré. Quem olhasse, de longe, veria um velho sentado em uma cadeirinha tosca de madeira, chapelão de palha e a vara de pescar sempre pronta. Ele quase imóvel. Abria o olho de vez em quando para apreciar o voo de uma gaivota e adivinhar se havia algum cardume chegando. Era uma praia quase deserta, entre Angra e Paraty. O velho pensava. Não será esta a atividade mais importante dos velhos? Mais do que se preocupar com o amanhã, com os filhos todos criados, com os netos barulhentos, com a mulher implicante. "Fala mais baixo," dizia ela. E com a crise. A eterna crise brasileira desde que nasceu.

  De repente, sentiu um movimento diferente no mar. Um torvelinho, um espirro, gotas de água salgada jogadas ao vento. Seria tubarão? Recolheu os pés por pura precaução. Nunca um tubarão chegaria tão perto da praia. Nunca? E aqueles filmes loucos em que os tubarões só faltam correr atrás das pessoas pela rua? Fixou o olhar, virou para um lado e para o outro, nada. "Acho que é o sol, tá me queimando a mufa," murmurou. Olhou para trás, para os lados da prainha, para o mato, e não viu nada. Ajeitou o chapelão, e voltou a dormitar esperando um peixe que pudesse pescar. Não um tubarão ou coisa que o valha.
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  Passada uma meia hora, ouviu de novo, só que agora mais perto. Abriu os olhos assustado e tentou enxergar alguma coisa no mar. Coisa esquisita. Que peixe será esse, que vem se aproximando da areia, e faz um movimento grande na água capaz de despertar a atenção de um velho pescador? Procurou uma faca no samburá, também por pura precaução.
  “Meu Deus, estou ficando velho mesmo. Assustado com qualquer coisa, numa prainha inofensiva.” Pensou até que pudesse ser um cachorro, destes solitários que ficam perambulando por aí, e que tivesse entrado na arrebentação para se refrescar. Mas, cachorro não era. Se fosse, teria visto ele saindo do mar, sacudindo o corpo para secar. Olhou novamente para os lados e definitivamente estava sozinho na praia.
  “Que diabo de peixe será este? Cachalote? Não é para o meu anzol nem para esta praia.” Esperou um tempo, olhos bem abertos, e nada nas proximidades. Ficou imaginando se ele fosse um peixe, destes grandes, vindo à tona e vendo um velho idiota, com as pernas esticadas na água, chapelão de palha na cabeça, e uma varinha insignificante. Teria rido consigo mesmo, se os peixes conseguem rir. Acho que sim. E pensado: “Vou dar um susto neste velho.” E os peixes pensam? Devem pensar, porque são capazes de descer às profundezas, buscar presas dissimuladas, acompanhar cardumes, fazer migrações, sobreviver ao ataque dos japoneses. Se fosse este peixe, daria umas voltas longas, deixaria o velho encafifado, desceria ao fundo e viria como um submarino na cota máxima e daria uma chacoalhada na água de deixar o velho assustado.
  Pronto, foi pensar nisso, já com os olhos fechados, e recebeu uma água no rosto. “Meu Deus, agora a coisa tá ficando séria,” pensou. Seria Alzheimer? Não tinha ninguém à vista, nenhum peixe mordido a isca, a vara estava lá desconsolada, o mar estava tranquilo, sol resplandescente na Costa Verde, e ele percebendo alguma coisa invisível se aproximando. Tirou o chapéu. Devia estar atrapalhando a vista.
  “Será algum mergulhão e a minha vista não consegue enxergar? Preciso consultar um oculista.” Nada. Tudo calmo, calmaria demais, nem peixe para ser pescado havia. Pensou que talvez fosse hora de levantar acampamento, e começou a colocar umas poucas coisas dentro do samburá.
  “Vamos deixar a pescaria para amanhã, hoje isto aqui está muito estranho,” falou em voz baixa.
Nem bem havia dito isto e a vista lateral captou alguma coisa emergindo pelo lado direito. Virou-se rapidamente e deu de cara com uma moça linda, cabelos compridos, seios desnudos, e rabo de peixe. Ficou boquiaberto. Era uma sereia. Não, esta com cabelos cor de mel tinha que ser uma mermaid daquelas de filme da Disney. Sentou-se na cadeirinha, porque as pernas se recusavam a dar um passo. Tremia.
  Quando conseguiu sair daquela espécie de torpor, pensou: “Deve ser o Caio fazendo uma filmagem e querendo me dar um susto.” Não adiantou, porque o corpo continuou tremendo todo. Esfregou os olhos, olhou para os lados, esperando ver uma equipe inteira de filmagem rindo do espanto dele, e não tinha ninguém. Agora aquele ser estranho, aquela moça linda, estava sentada na areia, como que penteando os longos cabelos aloirados, ali do lado dele, e nem celular ele tinha levado para tirar uma foto. Ninguém iria acreditar na sua história. Nesta história, só a esposa acreditaria. Diria, com um meio sorriso: “Ele gosta...” Então uma moça linda, loura como uma escandinava, de topless, aparece do nada numa prainha mixuruca, deserta, da Costa Verde? Essa realmente era difícil de engolir, concordou mentalmente.
  Pensou no Otávio dizendo: “Na próxima vez, vou pescar com você,” e batendo nas costas dele, sacudindo a cabeça e acrescentando: “Está na hora de nos recolhermos a Teresópolis, meu amigo. A idade pesa.”
  E a mermaid? Estava sorrindo docemente para ele, meio recostada na areia. Será que haveria um, digamos, cardume desta espécie por ali? Rezou para que não houvesse, de medo de enfartar. Então aqueles filmes todos não eram mentira? O roteirista deve ter tido a mesma experiência que ele e vendeu o peixe, sem trocadilho, para um estúdio. Não é possível que fosse um delírio, uma insolação, um sonho acordado. Se fosse queria continuar sonhando. Nenhum dos dois falou uma palavra, um “ui”. Ficaram apenas se olhando mutuamente. Ele, encantado. Que moça distinta, pensou. Teria nome? Bianca, talvez. Nem parece uma sereia, um peixe, mamífero é verdade – e que seios lindos -, mas inserido na categoria de peixe. Será que eu poderia apresentá-la a alguns amigos sem que virasse motivo de chacota? Melhor não. Iriam logo querer botar a mão, com todo o respeito, mas apenas para atestar se não era um embuste, uma armação, uma pegadinha destas que a gente vê na televisão.
  Resolveu, naquela situação embaraçosa, dizer alguma coisa. Melhor perguntar em inglês, uma língua franca universal.
  “Do you speak Portuguese?” A sereia continuava com um sorriso de Mona Lisa, olhando para ele.
  “Sprechen Deutsch?” arriscou novamente. Loura, poderia ter nascido na Alemanha, quem sabe? Nenhuma resposta. Resolveu apelar. Só faltava aquela linda sereia adolescente ser argentina (parecia ter assim uns dezoito anos, ou talvez mais, os velhos sempre acham que são meninas todas as mulheres abaixo de quarenta anos). Uma argentina desgarrada.
  “Hablas castellano?” A sereia não dava sinal de entendimento. Como será que ela se comunicava? Por gestos, concluiu. Então olhou para as mãos. Lindas, com unhas bem feitas, só faltaria uma pintura que qualquer salão do Leblon resolveria num instante, pensou.
  E aquelas mãos começaram a se mover em sua direção, o olhar da sereia era de puro encantamento. O velho ficou desvanecido. "Até que enfim sou descoberto por uma menina tão linda," falou consigo mesmo. Ela arrastou-se um pouco para ficar mais perto do velho, e tocou os seus cabelos brancos. Sorriu angelicalmente. Era isto que a atraía. Aqueles cabelos brancos, tão diferentes e tão escassos. Ela ficou alguns minutos alisando a cabeça do velho, que agora, mais descontraído, querendo acreditar no que via, sorria embevecido e murmurava “Ô minha filha, hoje ganhei meu dia.”
  E de repente, da mesma maneira como apareceu, a sereia escorregou para dentro do mar e sumiu. Não deu tempo do velho nem dizer adeus. Este passou algum tempo ainda sentado na cadeirinha tosca, sem ação, olhando o mar infinito, com um leve sorriso nos lábios e pensando no que diria à mulher dele por não trazer nada, nadinha, no samburá. Só na cabeça, coberta dos abençoados cabelos brancos."
(do livro Maria Pia et cetera, em nossa Livraria Virtual)
25 de janeiro de 2020

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