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   "A PRIMEIRA VEZ FOI EM MONTE VERDE, perto de Camanducaia, Minas Gerais. Montou com a minha ajuda, cautelosamente como era de seu estilo, segurou com todas as mãos possíveis no arreio, mas ficou encantado com o cavalinho sonolento que destinavam para a diversão das crianças. Peguei as rédeas, sempre perguntando se estava tudo bem, e comecei a puxar vagarosamente.
   Acho que o cavalo deu umas três passadas, ou quem sabe quatro se tanto, e ele pediu para descer. Deu vontade de fazer cocô. Desce do cavalo, vai para a beirada do caminho, agacha-se e nada. Volta para o cavalo, agarra-se como pode, mais umas quatro passadas, ou foram cinco não sei, e pede para descer. Quero fazer cocô. Vai para a beira da estradinha, agacha-se, faz uma cara contemplativa, e nada. Então, o jeito é voltar ao cavalo. Sobe novamente, segura no Santo Antônio, parece apreciar o panorama lá de cima. Pergunto se podemos tocar em frente, sacode um pouco a cabeça, e eu entendo que é uma autorização para prosseguir o passeio. Pego as rédeas, cavalinho ensaia um trote, mas só ensaia, sabe que estava finalmente na hora de sair dali, dá umas cinco passadas, e ele pede para descer. Quero fazer cocô. Aí eu vi que aquele menino corajoso, audaz, de dois anos apenas, não estava se dando muito bem na sela, e com o movimento do cavalo. Achei melhor desistir. Mas ele não.
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   Continuaria para o resto de sua curta existência como um amante dos cavalos.
   Depois fomos convidados, ele principalmente e eu, para assistirmos a um desfile na Vila Militar comemorativo do dia da Cavalaria. Era no Regimento Andrade Neves, em Deodoro. Confesso que foi um pouco de covardia. Ele, no meu colo, ficou extasiado com aquela cavalhada bem tratada, nervosa, os cavaleiros portando lanças com bandeirolas multicoloridas. Nem quis sair correndo pela grama, só queria apreciar aquele espetáculo, que deve lhe ter parecido uma visão de outro mundo. Nunca havíamos visto tantos cavalos juntos. Perguntado, ao final do desfile, se queria algum para ele, imediatamente apontou para o cavalo do comandante. Era certamente o mais bonito e mais bem tratado animal, eu diria do estado do Rio de Janeiro inteiro. Foi uma dificuldade convencê-lo de que aquele não estava disponível.
   Ele cresceu um pouco, e fomos novamente convidados para passar uns dias na Fazenda Santa Elisabeth, no interior do estado de São Paulo. Logo pela manhã, vários cavalos eram trazidos já devidamente arreados, fazia-se uma inspeção dos arreios, e toca de correr a fazenda imensa. Mas antes era necessário que o garoto fosse colocado no arreio de um dos cavalos para pequeno passeio. Agora mais seguro, já com umas botinhas de borracha, apreciando o trote macio, cavalo escolhido a dedo, para que a empreitada fosse bem-sucedida. Ele voltaria muitas vezes a esta fazenda depois disso, e já crescido tinha o seu cavalo preferido, o Baralho.
   Uma vez, teria coisa de uns quatro ou cinco anos, foi convidado para assistir a um jogo de polo no Itanhangá Golf Club. Qualquer pai que se preze gostaria de levar o seu filho ao Maracanã. Ele não. Foi levado a um jogo de polo, com talvez uns trinta espectadores, todos parentes dos jogadores. A responsabilidade de levá-lo ao Maracanã ficou com tio Ziza. Ele achou aquilo fantástico. Cada cavalo lindo, uma correria danada, um espetáculo digno de ser assistido. Acho que ali, no íntimo, ele começou a pensar que um dia se tornaria um grande jogador de polo. Cavalos não seria problema, era só mandar trazer lá de São Paulo. E além dos cavalos ele fez logo amizade com um bando de garotos que ficavam encarapitados nos montes, talvez filhos dos funcionários do clube. Estava se sentindo absolutamente em casa.
   Agora, era preciso providenciar uma indumentária adequada. Providenciamos a compra de umas botas texanas em loja nos Estados Unidos, alguém se ofereceu para trazer. Estas botas andaram por muitos lugares, do Jardim Botânico ao Jardim Zoológico. E chapéu, e calça jeans. Parecia realmente um cowboy em plena Zona Sul do Rio de Janeiro. Mas faltava alguma coisa para carregar nas mãos e tocar um gado, quando em atividade de peão boiadeiro. Foi com o tio a Vassouras e voltou de lá com uma bengalinha que trazia um cavalinho prateado no punho. Pronto, estava preparado para cavalgar. Sem problemas. E então era preciso adquirir mais confiança no manejo do animal. Providenciais idas de fim de semana a Nogueira, na serra de Petrópolis, deram o traquejo que ele precisava. Não eram assim propriamente uns cavalos de respeito, mas serviram para o adestramento do novo cavaleiro. E daí foi Teresópolis, Friburgo, e onde mais tivesse algum cavalinho para alugar.
   Não sei de quem foi esta ideia maravilhosa, mas lá foi ele com o vovô Zequinha visitar o regimento de cavalaria da PM em Belo Horizonte, e aí a coisa ficou feia. Porque ele queria comprar um cavalo de qualquer maneira. Foi um custo demovê-lo daquele intento. Ele dizia para o avô, pergunta quanto é e liga que meu pai manda o dinheiro. Coitado do pai. Então, o avô ponderou que não havia um lugar adequado na rua onde ele morava, no Rio de Janeiro, para deixar o cavalo. Ele não arredava pé, disse que amarraria o cavalo no poste em frente de casa. Foi um custo para convencê-lo a, pelo menos, adiar a compra.
   Era dezembro, próximo ao Natal, havia sido convidado para uma ida rápida até a fazenda em São Paulo. Nem pensou duas vezes. Arrumou a malinha, colocou as botas e demais apetrechos, e já estava pronto para ser apanhado na porta. Lá foi ele sozinho, e os pais a abanarem as mãos. Aí arrumaram uma pegadinha para ele. Lá pelas horas tantas aparece, lá longe, uma charrete com um Papai Noel e sacos de presentes para serem distribuídos entre as crianças da fazenda. Atrás da charrete, sendo puxado, um cavalo. Disseram para ele, vai lá, quem sabe sobra alguma coisa para você. Ele foi. Papai Noel distribui presente daqui, presente dali, e ele curioso só olhando. Daí o Papai Noel olha para ele diz: “Este cavalo é para você.” Já imaginaram o espanto? Colocou a mão na rédea e foi embora puxando o cavalo, exultante. Aí disseram para ele, como sempre fazem os donos de fazenda há muitas gerações, que o cavalo iria ficar ali sendo bem tratado, para ser a sua montaria quantas vezes ele quisesse voltar. O problema agora é que, retornado ao lar paterno, queria que fosse enviado um dinheiro para pagar o aluguel do pasto. E o pai, certamente pensando que ele próprio havia começado tudo aquilo, dizia pode deixar, vamos mandar.
   Mais tarde teve uma experiência emocionante. Cavalgando com os amigos, todos talvez na faixa dos dez anos, invadiu uma propriedade para apanhar algumas frutas apetitosas e o mal-humorado dono do sítio sai enfurecido com uma espingarda e deu um “tiro de sal” no lombo do cavalo dele, que quase o mata de susto. Aquilo, contado depois aos pais, era como se tivesse vivido um ataque de índios no velho oeste americano.
   Cismou de assistir a uma competição de salto na Sociedade Hípica Brasileira. Lá foi a família toda e ele escolheu ficar justamente ao lado de um obstáculo, onde poderia observar toda a beleza de um cavalo saltando. O pai mesmo ficou com medo de que um cavalo daqueles escorregasse e caísse em cima da família. Ele, não. Já se via praticando hipismo. Dizia que fazia questão de lavar ele próprio a sua montaria, não iria deixar nenhum tratador botar a mão. Os pais chegaram até a pensar em colocá-lo na escolinha da Hípica, mas não deu tempo.
   Quis o destino que todo este encantamento com cavalos acabasse, num dia 27, aos treze anos de idade, numa estrada de Minas."
(Extraído do livro Maria Pia et cetera)
27 de janeiro de 2020

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