Pois agora eu encontro um livro, com dedicatória, de Martha Medeiros, e mais uma vez me surpreendi. Pelo visto, entrei numa nova fase de descobertas, como aconteceu com o livo de Ana Cecília Carvalho, descrito aqui no blog.
O livro A Graça da Coisa reúne várias crônicas da autora, escritas há uns dez anos mais ou menos. O conjunto permite que o leitor possa apreciar, com clareza, a sua maneira de escrever. É muito boa. A gente quer ler, e ler, sem parar. Ainda bem que o livro tem muitas crônicas, e todas elas são curtas, porque passam de um tema a outro e o leitor não sente. Quer mais. Eu gostei, particularmente, de "O poder terapêutico da estrada", "Coragem" e "Frustração". Já até imagino, no estilo da autora, algum leitor ou leitora deste blog dizendo: "Engraçado, eu nunca escolheria estas crônicas como as melhores". Tudo bem, todas as crônicas são muito boas. É só conferir.
Carlos G. Vieira (12 de junho de 2026)
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Último dia do ano, abro um espaço para a nostalgia. De um passado que eu conheci só de ouvir falar. Primeiro a fazenda se chamava da Laje, e havia sido uma herança de Pio Souza Dias para o filho Umbelino. Ficava em terras de Alfenas, e não em Machado, Sul de Minas. Meu avô mudou o nome para Fazenda da Capoeirinha e foi lá que meus pais se casaram em 1925. E também foi lá que nasceu meu irmão mais velho, em 1926. Quando eu, um morador da cidade do Rio de Janeiro, dizia que queria ter uma fazenda, minha mãe tratava de tirar logo da minha cabeça. Era compreensível. A família dela morava em Machado, uma cidade do Sul de Minas, e os meus avós decidiram deixar o Largo, como se dizia, para irem todos morar na fazenda, por motivos políticos. Minha mãe detestava aquela vida meio reclusa. O irmão mais velho estudava medicina no Rio de Janeiro e só voltava nas férias. Ela, estudava no Colégio do Bom Conselho, em Taubaté, e também só voltava para casa em tempo de férias. Mas chegou uma época em que toda a família ficou meio reclusa na fazenda e ela achou detestável. Tudo muito longe, sem televisão e celular naquela época. Hoje meus netos abominariam passar uma semana sem o celular.
Quando a família decidiu se mudar para Belo Horizonte e foram todos morar na Rua da Bahia, ninguém mais pensava em voltar. Deus me livre. Só o meu tio Ivan, engenheiro e solteiro, ficou encarregado da fazenda, meio a contragosto, segundo consta na tradição familiar. Passou quatro anos tocando em frente, como na música de Almir Sater. E depois de outras experiências, a fazenda foi vendida, penso que para alívio geral. Eu tenho aqui em casa alguns objetos que adornavam a casa da fazenda. Considero que sou uma espécie de guardião, depois de minha prima Mary.
Agora a fazenda faz parte de uma imensa plantação de café. Em tempos recentes Laura e Leandro, caçadores de relíquias, foram até até lá em busca de um pacote de café em grão, com o sabor da velha Capoeirinha, e com alguma conversa conseguiram e me deram uma amostra.
Feliz 2026 a todos os leitores deste blog.
(Carlos G. Vieira, em 31 de dezembro de 2025)
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Se até o mês de dezembro as jacas dominaram o meu caminho, agora chegou a vez das mangueiras. Enormes, com pencas de mangas ficando amarelinhas bem lá no alto e muitas já caídas pelo chão na Rua Sambaíba, aqui no Leblon.
Isto me fez lembrar das mangueiras da minha infância, aquelas em frente ao Colégio Arnaldo, em Belo Horizonte, e aquelas do quintal da casa do meu avô em plena Avenida Afonso Pena. Eu também plantei uma mangueira no quintal lá da minha casa (sim, naquele tempo as casas tinham quintal com muitas frutas), manga carlotinha, e quando voltava à casa materna minha mãe sempre me mostrava a mangueira repleta de mangas.
Meu amigo Antônio Luiz, já falecido, também plantou uma mangueira aqui na Timóteo da Costa, em frente ao prédio em que morou por muitos anos, e ela também é pródiga em frutos, que despencam lá de cima na calçada. Passo quase todos os dias por ela e me lembro dele.
Embora alguns urbanistas possam ser contra, eu acho que esta ideia de ter frutas caindo lá do céu, nas caminhadas, humanizam os bairros e nos fazem lembrar como eram, antigamente, nossas cidades.
Carlos G. Vieira
(6 de janeiro de 2025, Dia de Reis e outras efemérides na cidade mineira de Sabará)
Veja também: As jacas do meu caminho
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As jacas são frutas típicas da India, Bangladesh e Vietnã. Acho que também já fazem parte da nossa Floresta da Tijuca, e se multiplicam na medida em que as sementes estão espalhadas pelo chão, e os animais tratam de levá-las para bem longe. Mas há um mistério nesta história. Quando chega fins de dezembro ou janeiro, não resta mais nenhuma destas frutas para se ver. Somem todas. O que me levou, anos atrás, a encomendar uma delas no edifício Meia Lua, do meu amigo Washington e de Joaquim e Cecília. Lá existem várias jaqueiras. Fui apanhar de carro e com muito sacrifício coloquei a dita cuja na nossa cozinha. Imediatamente acionei todas as mãos disponíveis e começamos a preparar um delicioso doce de jaca. E tem gente que ainda diz que não gosta.
Carlos G. Vieira (24 de outubro de 2024)
Veja também: As amendoeiras do Leblon
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Leio que os moradores do Leblon reclamam, dizem que não entendem por que plantaram árvores tão grandes, umas se juntando às outras, copas enormes que tiram o sol dos apartamentos. Drummond, com sua perspicácia de poeta, e mineiro, exaltou as amendoeiras (de Copacabana, suponho), com a famosa crônica Fala, amendoeira. Da minha parte, contento-me em admirá-las. Muitas delas com lindas orquídias atreladas ao tronco, que os porteiros tratam de manter vivas eternamente. E se, por acaso, fenecem, são trocadas por outras. Acho que o bairro assim fica mais humanizado, as ruas menos agressivas e as buzinas menos irritantes. Não acho que os urbanistas tenham escolhido mal. Façam uma caminhada, ao acaso, pela Rua Almirante Guilhem e vejam a beleza destas árvores. Vão concordar comigo.
Carlos G. Vieira (22 de junho de 2024)
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Queria registrar que Amadeu Marques, um conhecido autor de livros e preciosos dicionários, nasceu em Lisboa e morou até os treze anos na Rua das Flores, perambulou pelo Chiado, certamente fazia pequenas compras no famoso Armazém, além de aprontar alguma no Cais de Sodré.
Suas lembranças mais recentes nos levam à Rua da Betesga, no Rossio, onde ele relata uma experiência surpreendente relacionada com os queijinhos d'amêndoa. Nesse mesmo Rossio, onde ele nos fala do Nicola e de Eça de Queiroz, e levanta uma suspeita de que a estátua equestre de D. Pedro IV, na realidade, seria de Maximiliano do México. Certamente uma aleivosia, diriam os mais tradicionalistas. Ainda em Portugal, o autor revela uma indicação do Comendador Rocha Diniz que merece ser anotada: o vinho Quinta de São Sebastião.
Mas é na cidade do Rio de Janeiro, e em Copacabana em particular, onde transcorrem situações inusitadas. Como estar em um conhecido restaurante das redondezas e ouvir, sem querer querendo, a conversa da mesa ao lado, onde seu nome, de repente, é citado. Em resumo, Amadeu Marques reflete sobre a vida, em deliciosas crônicas, com alegria e otimismo. Tudo isso, com citações em inglês.
(Cem Crônicas Agudas, Amadeu Marques, Chiado Books, 2021)
(6 de janeiro de 2022)
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(29 de junho de 2021, dia de São Pedro)
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(9 de agosto de 2020, em homenagem ao Professor Vieira, meu pai.)
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Mas sumiu como, se ele não gostava nem de passear para se aliviar de suas necessidades? Não saía de casa para nada, e nunca ficava sozinho. É verdade que, algumas poucas vezes, era obrigado a ficar solitário, por algumas horas apenas, enquanto alguém descia a rua, quase correndo, para ir à padaria. Nestas horas, ele adotava um ar de resignação, postava-se no corredor, de olhar fixo na porta, e lá ficaria por toda a eternidade, se necessário.
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Acho que o cavalo deu umas três passadas, ou quem sabe quatro se tanto, e ele pediu para descer. Deu vontade de fazer cocô. Desce do cavalo, vai para a beirada do caminho, agacha-se e nada. Volta para o cavalo, agarra-se como pode, mais umas quatro passadas, ou foram cinco não sei, e pede para descer. Quero fazer cocô. Vai para a beira da estradinha, agacha-se, faz uma cara contemplativa, e nada. Então, o jeito é voltar ao cavalo. Sobe novamente, segura no Santo Antônio, parece apreciar o panorama lá de cima. Pergunto se podemos tocar em frente, sacode um pouco a cabeça, e eu entendo que é uma autorização para prosseguir o passeio. Pego as rédeas, cavalinho ensaia um trote, mas só ensaia, sabe que estava finalmente na hora de sair dali, dá umas cinco passadas, e ele pede para descer. Quero fazer cocô. Aí eu vi que aquele menino corajoso, audaz, de dois anos apenas, não estava se dando muito bem na sela, e com o movimento do cavalo. Achei melhor desistir. Mas ele não.
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De repente, sentiu um movimento diferente no mar. Um torvelinho, um espirro, gotas de água salgada jogadas ao vento. Seria tubarão? Recolheu os pés por pura precaução. Nunca um tubarão chegaria tão perto da praia. Nunca? E aqueles filmes loucos em que os tubarões só faltam correr atrás das pessoas pela rua? Fixou o olhar, virou para um lado e para o outro, nada. "Acho que é o sol, tá me queimando a mufa," murmurou. Olhou para trás, para os lados da prainha, para o mato, e não viu nada. Ajeitou o chapelão, e voltou a dormitar esperando um peixe que pudesse pescar. Não um tubarão ou coisa que o valha.
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Meu amigo Clóvis me diz que vai em breve visitar o Serro. Aproveitei para repassar uma postagem deste blog que fala da Chácara do Barão do Serro. E hoje li no jornal que o novo presidente da Academia Mineira de Letras quer abrir ao grande público o acervo enorme da Academia e cita Eduardo Frieiro, também objeto de uma postagem nossa (Feijão, Angu e Couve).
Mas o que dizer dos desastres recentes, como Brumadinho, e a permanente ameaça a Barão de Cocais e, claro, à nossa Santa Bárbara (que deu nome a um delicioso pudim) de Carmélia Pereira? Foi a extraordinária genealogista Silvia Buttrós, em seu livro Os Prados de Carmo da Escaramuça, quem nos revelou que lá nasceu nosso antepassado comum da família Prado, personagem que um dia cheguei a acreditar que era mesmo paulista, talvez nascido em Itu, cidade onde eu já quis morar. A querida Adriana Schwartz diz que eu sou a pessoa que ela conhece que mais quis morar em outros lugares. Poços de Caldas continua na lista.
Carlos Drummond de Andrade, o poeta de Itabira, que morava aqui no Rio na Rua Conselheiro Lafayette (O Conselheiro é bisavô de nossa amiga Corina), escreveu em seu famoso poema E agora, José?
"Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?"

Anotações genealógicas sobre dois troncos mineiros.
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