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De vez em quando acontece de eu sacar um livro da estante e descobrir que nunca havia lido antes, ou que simplesmente me esqueci do enredo totalmente. Assim foi com Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, que passou uns trinta anos esquecido. Fiquei tão entusiasmado com a leitura tardia que, em seguida, encomendei Sobrados e Mucambos. Assim foi também com as memórias de Afonso Arinos de Melo Franco e com Adolfo Bioy Casares, o Adolfito como a ele se referia Jorge Luis Borges. Só falta coragem mesmo é para enfrentar Ulysses, de James Joyce, que espera há anos aqui na fila. 

Pois agora eu encontro um livro, com dedicatória, de Martha Medeiros, e mais uma vez me surpreendi. Pelo visto, entrei numa nova fase de descobertas, como aconteceu com o livo de Ana Cecília Carvalho, descrito aqui no blog.

O livro A Graça da Coisa reúne várias crônicas da autora, escritas há uns dez anos mais ou menos. O conjunto permite que o leitor possa apreciar, com clareza, a sua maneira de escrever. É muito boa. A gente quer ler, e ler, sem parar. Ainda bem que o livro tem muitas crônicas, e todas elas são curtas, porque passam de um tema a outro e o leitor não sente. Quer mais. Eu gostei, particularmente, de "O poder terapêutico da estrada", "Coragem" e "Frustração". Já até imagino, no estilo da autora, algum leitor ou leitora deste blog dizendo: "Engraçado, eu nunca escolheria estas crônicas como as melhores". Tudo bem, todas as crônicas são muito boas. É só conferir.

Carlos G. Vieira (12 de junho de 2026)
  

 

Último dia do ano, abro um espaço para a nostalgia. De um passado que eu conheci só de ouvir falar. Primeiro a fazenda se chamava da Laje, e havia sido uma herança de Pio Souza Dias para o filho Umbelino. Ficava em terras de Alfenas, e não em Machado, Sul de Minas. Meu avô mudou o nome para Fazenda da Capoeirinha e foi lá que meus pais se casaram em 1925. E também foi lá que nasceu meu irmão mais velho, em 1926. Quando eu, um morador da cidade do Rio de Janeiro, dizia que queria ter uma fazenda, minha mãe tratava de tirar logo da minha cabeça. Era compreensível. A família dela morava em Machado, uma cidade do Sul de Minas, e os meus avós decidiram deixar o Largo, como se dizia, para irem todos morar na fazenda, por motivos políticos. Minha mãe detestava aquela vida meio reclusa. O irmão mais velho estudava medicina no Rio de Janeiro e só voltava nas férias. Ela, estudava no Colégio do Bom Conselho, em Taubaté, e também só voltava para casa em tempo de férias. Mas chegou uma época em que toda a família ficou meio reclusa na fazenda e ela achou detestável. Tudo muito longe, sem televisão e celular naquela época. Hoje meus netos abominariam passar uma semana sem o celular. 

Quando a família decidiu se mudar para Belo Horizonte e foram todos morar na Rua da Bahia, ninguém mais pensava em voltar. Deus me livre. Só o meu tio Ivan, engenheiro e solteiro, ficou encarregado da fazenda, meio a contragosto, segundo consta na tradição familiar. Passou quatro anos tocando em frente, como na música de Almir Sater. E depois de outras experiências, a fazenda foi vendida, penso que para alívio geral. Eu tenho aqui em casa alguns objetos que adornavam a casa da fazenda. Considero que sou uma espécie de guardião, depois de minha prima Mary.

Agora a fazenda faz parte de uma imensa plantação de café. Em tempos recentes Laura e Leandro, caçadores de relíquias, foram até até lá em busca de um pacote de café em grão, com o sabor da velha Capoeirinha, e com alguma conversa conseguiram e me deram uma amostra.

Feliz 2026 a todos os leitores deste blog.

(Carlos G. Vieira, em 31 de dezembro de 2025)


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Se até o mês de dezembro as jacas dominaram o meu caminho, agora chegou a vez das mangueiras. Enormes, com pencas de mangas ficando amarelinhas bem lá no alto e muitas já caídas pelo chão na Rua Sambaíba, aqui no Leblon.

Isto me fez lembrar das mangueiras da minha infância, aquelas em frente ao Colégio Arnaldo, em Belo Horizonte, e aquelas do quintal da casa do meu avô em plena Avenida Afonso Pena. Eu também plantei uma mangueira no quintal lá da minha casa (sim, naquele tempo as casas tinham quintal com muitas frutas), manga carlotinha, e quando voltava à casa materna minha mãe sempre me mostrava a mangueira repleta de mangas.

Meu amigo Antônio Luiz, já falecido, também plantou uma mangueira aqui na Timóteo da Costa, em frente ao prédio em que morou por muitos anos, e ela também é pródiga em frutos, que despencam lá de cima na calçada. Passo quase todos os dias por ela e me lembro dele.

Embora alguns urbanistas possam ser contra, eu acho que esta ideia de ter frutas caindo lá do céu, nas caminhadas, humanizam os bairros e nos fazem lembrar como eram, antigamente, nossas cidades.

Carlos G. Vieira

(6 de janeiro de 2025, Dia de Reis e outras efemérides na cidade mineira de Sabará)

Veja também: As jacas do meu caminho

Quase todos os dias passo por estas jacas, cada dia maiores, que nascem de uma jaqueira portentosa, no passeio da rua por onde caminho, e que crescem na altura da minha cintura. São minhas companheiras silenciosas, até que alguém venha colhê-las. Todos os anos é assim. O perigo é alguma destas frutas, que chega a pesar até 50 quilos, despencar lá de cima justo quando alguém está passando embaixo. Não é o caso destas da foto, porque os frutos estão muito próximos ao chão. Mas é o caso da maioria, cujos galhos muito altos se projetam sobre as calçadas. Eu mesmo tive um carro danificado, porque estacionei embaixo de uma delas e não notei os frutos abundantes. Uma jaca estava prestes a cair, caiu e afundou o teto do carro. 

As jacas são frutas típicas da India, Bangladesh e Vietnã. Acho que também já fazem parte da nossa Floresta da Tijuca, e se multiplicam na medida em que as sementes estão espalhadas pelo chão, e os animais tratam de levá-las para bem longe. Mas há um mistério nesta história. Quando chega fins de dezembro ou janeiro, não resta mais nenhuma destas frutas para se ver. Somem todas. O que me levou, anos atrás, a encomendar uma delas no edifício Meia Lua, do meu amigo Washington e de Joaquim e Cecília. Lá existem várias jaqueiras. Fui apanhar de carro e com muito sacrifício coloquei a dita cuja na nossa cozinha. Imediatamente acionei todas as mãos disponíveis e começamos a preparar um delicioso doce de jaca. E tem gente que ainda diz que não gosta.

Carlos G. Vieira  (24 de outubro de 2024)

Veja também: As amendoeiras do Leblon


Passo por elas, quase todos os dias, nas minhas caminhadas pelas ruas do bairro. Praticando o mindfulness, para acalmar a mente. E me ponho a observá-las, enormes, portentosas, algumas ultrapassando a cota dos edifícios. Com múltiplos galhos, parecendo novos troncos já envelhecidos, avançando sem pudores pelas janelas e sacadas. Aqui em casa me alertam para ter cuidado com os frutos, que teimam em cair sobre as cabeças dos transeuntes, e costumam fazer estragos.

Leio que os moradores do Leblon reclamam, dizem que não entendem por que plantaram árvores tão grandes, umas se juntando às outras, copas enormes que tiram o sol dos apartamentos. Drummond, com sua perspicácia de poeta, e mineiro, exaltou as amendoeiras (de Copacabana, suponho), com a famosa crônica Fala, amendoeira. Da minha parte, contento-me em admirá-las. Muitas delas com lindas orquídias atreladas ao tronco, que os porteiros tratam de manter vivas eternamente. E se, por acaso, fenecem, são trocadas por outras. Acho que o bairro assim fica mais humanizado, as ruas menos agressivas e as buzinas menos irritantes. Não acho que os urbanistas tenham escolhido mal. Façam uma caminhada, ao acaso, pela Rua Almirante Guilhem e vejam a beleza destas árvores. Vão concordar comigo.

Carlos G. Vieira   (22 de junho de 2024)

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Amadeu Marques rides again. Com noite de autógrafos programada para amanhã (dia 7/1/2022) em Botafogo, aqui no Rio, o estimado Amadeu lança mais um delicioso livro. Começo pela capa, com simpáticos desenhos de Helena e João. E adianto que são cem crônicas mesmo, muitas delas curtas, como é o caso do livro de Hemingway, em resposta a desafio para escrever um romance com apenas seis palavras!

Queria registrar que Amadeu Marques, um conhecido autor de livros e preciosos dicionários, nasceu em Lisboa e morou até os treze anos na Rua das Flores, perambulou pelo Chiado, certamente fazia pequenas compras no famoso Armazém, além de aprontar alguma no Cais de Sodré.

Suas lembranças mais recentes nos levam à Rua da Betesga, no Rossio, onde ele relata uma experiência surpreendente relacionada com os queijinhos d'amêndoa. Nesse mesmo Rossio, onde ele nos fala do Nicola e de Eça de Queiroz, e levanta uma suspeita de que a estátua equestre de D. Pedro IV, na realidade, seria de Maximiliano do México. Certamente uma aleivosia, diriam os mais tradicionalistas. Ainda em Portugal, o autor revela uma indicação do Comendador Rocha Diniz que merece ser anotada: o vinho Quinta de São Sebastião.

Mas é na cidade do Rio de Janeiro, e em Copacabana em particular, onde transcorrem situações inusitadas. Como estar em um conhecido restaurante das redondezas e ouvir, sem querer querendo, a conversa da mesa ao lado, onde seu nome, de repente, é citado. Em resumo, Amadeu Marques reflete sobre a vida, em deliciosas crônicas, com alegria e otimismo. Tudo isso, com citações em inglês.

(Cem Crônicas Agudas, Amadeu Marques, Chiado Books, 2021)

(6 de janeiro de 2022)

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O que será que diz o menino falador para a menina, contemplando o mar infinito? Possivelmente fala das mudanças climáticas, que fazem subir o nível dos oceanos, e que colocam em risco as construções à beira-mar, como aquele prédio que desabou, outro dia, em Miami Beach. Ou conta para a menina sobre os monstros marinhos, que o assustam nas noites barulhentas da Timóteo. Ou repassa todos aqueles habitantes das profundezas do mar, ou discorre sobre os tubarões brancos, ou as baleias que se perdem e acabam encalhando nas praias. E a menina, o que falará? Ela fala das aves marinhas, que fazem ninho naquela ilha próxima e voos circulares por sobre as cabeças dos pescadores em seus barcos, na expectativa permanente de que reste alguma coisa para elas, ao final do recolhimento das redes. Ela fala também de seus sonhos de criança, daquela casa de bonecas que espera ganhar no aniversário do ano que vem e do sorvete na casa da avó. Eles mal sabem que sinto vontade de acrescentar um "da" a este título, ao refletir sobre o que estamos passando em terra firme.

(29 de junho de 2021, dia de São Pedro)

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 Esse era o nome de um bar temático na Belo Horizonte do início dos anos 70. Ficava na Avenida do Contorno, em frente mais ou menos onde hoje fica o Life Center. Em terreno vazio, colocaram, não sei como, um vagão de trem destes tipo maria fumaça, espalharam mesas e cadeiras, e tome de cerveja. Essa era a época do início dos barzinhos, se não me engano. Na mesma Avenida do Contorno, só que agora no bairro de Santo Antônio, perto da Igreja, ficava o Maria Joana. Mais abaixo, ficava o Veia Poética, com livros que os frequentadores podiam ler deitados no chão e a caipirinha era servida numa arena de teatro. Lá perto da Praça da Liberdade, onde morou Afonso Arinos, ficava o Tom Chopim. A gente entrava por um violão pintado no muroNa Savassi havia o Garden, onde, nos fins de semana, uma turma de adolescentes enchia uma mesa, movidos a refrigerante, e de violão em punho, cantavam velhas músicas de seresta. E não posso me esquecer de citar o Largo do Baeta, onde meus convidados cariocas se espantaram ao ver um comensal levantar-se de sua mesa e dar um recital ao vivo. Eu fingi que aquilo era o normal em BH. Nessa mesma época havia em Porto Alegre o João Sebastião Bar, outro nome muito bem bolado. Eu, morador de Ipanema, acostumado, naquela época, com o Jangadeiro e tais, ficava encantado com essa criatividade. E ainda em Belo Horizonte, foi no Cá Luigi, na Avenida Cristóvão Colombo, que o Lu me levou um dia para tomar umas batidas na varanda do casarão antigo, oferta da casa, disse ele. E foi lá também que JM, no auge de seus vinte anos, espantou-se ao me ver pedir um vinho francês para acompanhar a massa do dia: Chateau Duvalier. Bons tempos.

(9 de agosto de 2020, em homenagem ao Professor Vieira, meu pai.)

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La vida es difícil. Para estar en paz con uno mismo hay que decir la verdad. Para estar en paz con el prójimo hay que mentir.” (Adolfo Bioy Casares)

O DELEGADO PASSOU APRESSADO pela sala de depoimentos, como sempre fazia ao chegar, deu uma rápida olhada nos depoentes que aguardavam o escrivão, e já estava indo em direção ao corredor, quando parou de repente e voltou-se. Na cadeira do canto estava uma moça jovem, descalça, vestido todo sujo, com o olhar perdido. Poderia ser mais uma destas moradoras de rua que entram na delegacia para pedir proteção contra o mundo inteiro. Acontecia todo dia. Mas não aquela. Ele a conhecia de algum lugar. Fixou o olhar no semblante apático e sujo da moça e se lembrou. Ela tinha sido sua colega no Colégio Santo Agostinho da Barra.
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O CÃO ERA TRÊMULO, ARREDIO, cauteloso, pouco sociável, mas havia se tornado imprescindível. As meninas da casa contavam com ele em suas brincadeiras. Não existe babá eletrônica? Ele era uma babá canina. Todo mundo que tem um cão sabe disso. Eles tornam-se parte da família. Outro dia, vi um senhor chorar ao ser entrevistado na TV sobre o desaparecimento de seu cão. E este foi exatamente o problema, que intrigou o pessoal da casa aqui nesta história, o porteiro do edifício, o síndico, e quem mais da vizinhança se interessou pelo caso. O cão sumiu.
     Mas sumiu como, se ele não gostava nem de passear para se aliviar de suas necessidades? Não saía de casa para nada, e nunca ficava sozinho. É verdade que, algumas poucas vezes, era obrigado a ficar solitário, por algumas horas apenas, enquanto alguém descia a rua, quase correndo, para ir à padaria. Nestas horas, ele adotava um ar de resignação, postava-se no corredor, de olhar fixo na porta, e lá ficaria por toda a eternidade, se necessário.
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ALBERTO JÁ ACORDOU DE MAU HUMOR. Acordar às 5:30 da manhã, para apanhar um táxi às 6:00 e embarcar no Santos Dumont às 7:30 não é para qualquer um. Conforme seus pensamentos sombrios, neste amanhecer no bairro da Gávea, ninguém merece. Já começa que a última coisa que desejaria, em sã consciência, para seu pior inimigo, seria embarcá-lo num avião. Ainda mais um daqueles pequenos, barulhentos, asa por cima da fuselagem, bimotor, piloto iniciante e copiloto estagiário. Ele foi obrigado a aceitar esta viagem de última hora. Se dependesse dele, a resposta seria não. O escritório de arquitetura do qual é sócio tem importante projeto em andamento em Belo Horizonte e o cliente marcou uma reunião de manhã. Só não era preciso a secretária reservar um voo para o Aeroporto da Pampulha. Ele teria preferido ir de ônibus, mas argumentaram que seriam muitas horas, teria despesa de hotel, cansaço, refeições, tudo isso para uma reunião de no máximo duas horas e um monte de outras considerações absolutamente irrelevantes para ele. Pampulha, segundo foi apurar na internet, só recebe avião pequeno. Precisava chegar a este ponto?
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   "A PRIMEIRA VEZ FOI EM MONTE VERDE, perto de Camanducaia, Minas Gerais. Montou com a minha ajuda, cautelosamente como era de seu estilo, segurou com todas as mãos possíveis no arreio, mas ficou encantado com o cavalinho sonolento que destinavam para a diversão das crianças. Peguei as rédeas, sempre perguntando se estava tudo bem, e comecei a puxar vagarosamente.
   Acho que o cavalo deu umas três passadas, ou quem sabe quatro se tanto, e ele pediu para descer. Deu vontade de fazer cocô. Desce do cavalo, vai para a beirada do caminho, agacha-se e nada. Volta para o cavalo, agarra-se como pode, mais umas quatro passadas, ou foram cinco não sei, e pede para descer. Quero fazer cocô. Vai para a beira da estradinha, agacha-se, faz uma cara contemplativa, e nada. Então, o jeito é voltar ao cavalo. Sobe novamente, segura no Santo Antônio, parece apreciar o panorama lá de cima. Pergunto se podemos tocar em frente, sacode um pouco a cabeça, e eu entendo que é uma autorização para prosseguir o passeio. Pego as rédeas, cavalinho ensaia um trote, mas só ensaia, sabe que estava finalmente na hora de sair dali, dá umas cinco passadas, e ele pede para descer. Quero fazer cocô. Aí eu vi que aquele menino corajoso, audaz, de dois anos apenas, não estava se dando muito bem na sela, e com o movimento do cavalo. Achei melhor desistir. Mas ele não.

  "OS PÉS FICAVAM A MANHÃ INTEIRA roçando a água, o mar indo e vindo ao sabor da maré. Quem olhasse, de longe, veria um velho sentado em uma cadeirinha tosca de madeira, chapelão de palha e a vara de pescar sempre pronta. Ele quase imóvel. Abria o olho de vez em quando para apreciar o voo de uma gaivota e adivinhar se havia algum cardume chegando. Era uma praia quase deserta, entre Angra e Paraty. O velho pensava. Não será esta a atividade mais importante dos velhos? Mais do que se preocupar com o amanhã, com os filhos todos criados, com os netos barulhentos, com a mulher implicante. "Fala mais baixo," dizia ela. E com a crise. A eterna crise brasileira desde que nasceu.

  De repente, sentiu um movimento diferente no mar. Um torvelinho, um espirro, gotas de água salgada jogadas ao vento. Seria tubarão? Recolheu os pés por pura precaução. Nunca um tubarão chegaria tão perto da praia. Nunca? E aqueles filmes loucos em que os tubarões só faltam correr atrás das pessoas pela rua? Fixou o olhar, virou para um lado e para o outro, nada. "Acho que é o sol, tá me queimando a mufa," murmurou. Olhou para trás, para os lados da prainha, para o mato, e não viu nada. Ajeitou o chapelão, e voltou a dormitar esperando um peixe que pudesse pescar. Não um tubarão ou coisa que o valha.
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"ERA UMA ÉPOCA EM QUE as mulheres levavam cestas enormes, cheias de roupas, para lavar na beira do rio. Ninguém falava que aquilo poderia poluir as águas rio abaixo, e penso que nenhum peixe deixou de existir por causa daquele sabão feito em casa, em grandes tachos de cobre, com sebo recolhido no matadouro. 
Havia entre elas uma que era considerada de segunda categoria, porque a cesta que levava era sempre abarrotada de roupas e ela passava horas ajoelhada nas pedras até muito tempo depois que as outras se retiravam, as mãos enrugadas pela água fria, não cantava, não falava mal da vizinhança, nem do marido. Quase não falava. Monossilábica, se me entendem. Atividade diária incessante. Era preciso faturar algum para a comida, porque além da roupa da casa, lavava para fora, como se dizia antigamente. Dizem que a clientela era enorme. Tinha até lista de espera. Além de lavar muito bem lavado, ainda passava a roupa com grande esmero. 

Enquanto as lavadeiras atendiam por nomes comuns, como Maria, Conceição e Tereza, talvez até alguns prosaicos como Albertina, Mirinda e Ordália, ela chamava-se simplesmente Fernanda. "Fernanda de quê?" Costumavam indagar, e ela respondia apenas “Fernanda de Jesus.” 

Pois estava, um dia, nossa Fernanda enxaguando as suas roupas nas águas do Rio das Velhas, como sempre fez desde os treze anos de idade, quando percebeu que alguma coisa brilhava por entre as pedrinhas da margem. Catou com jeito e era uma pedra dourada. Calculou pelo peso na mão que fosse coisa de umas 200 gramas. Guardou no bolso do casaco para olhar melhor depois, com calma, e antes de chamar a atenção daquele povo. 

Enxaguou mais umas roupas e viu outra pedra brilhando. Meu Deus, o que será isso? Não havia ninguém por aquelas paragens que não sonhasse em encontrar ouro no Rio das Velhas. Talvez nem a resignada Fernanda. Esta pedra agora era maiorzinha, talvez umas 300 gramas.

  Os mineiros dirão que sim. Minas é eterna. Quem vai a Tiradentes, mesmo sendo turista estrangeiro, fica maravilhado. Outro dia me disseram que Tiradentes foi escolhida como a melhor opção turística do Brasil. Acho um pouco de exagero, mas vá lá. Minha amiga portuguesa Maria Fernanda, quando lá esteve, me disse "Isso aqui é o Alentejo".

  Meu amigo Clóvis me diz que vai em breve visitar o Serro. Aproveitei para repassar uma postagem deste blog que fala da Chácara do Barão do Serro. E hoje li no jornal que o novo presidente da Academia Mineira de Letras quer abrir ao grande público o acervo enorme da Academia e cita Eduardo Frieiro, também objeto de uma postagem nossa (Feijão, Angu e Couve).

  Mas o que dizer dos desastres recentes, como Brumadinho, e a permanente ameaça a Barão de Cocais e, claro, à nossa Santa Bárbara (que deu nome a um delicioso pudim) de Carmélia Pereira? Foi a extraordinária genealogista Silvia Buttrós, em seu livro Os Prados de Carmo da Escaramuça,  quem nos revelou que lá nasceu nosso antepassado comum da família Prado, personagem que um dia cheguei a acreditar que era mesmo paulista, talvez nascido em Itu, cidade onde eu já quis morar. A querida Adriana Schwartz diz que eu sou a pessoa que ela conhece que mais quis morar em outros lugares. Poços de Caldas continua na lista.

Carlos Drummond de Andrade, o poeta de Itabira, que morava aqui no Rio na Rua Conselheiro Lafayette (O Conselheiro é bisavô de nossa amiga Corina), escreveu em seu famoso poema  E agora, José?

"Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?"

(6 de julho de 2019)





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