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O CÃO ERA TRÊMULO, ARREDIO, cauteloso, pouco sociável, mas havia se tornado imprescindível. As meninas da casa contavam com ele em suas brincadeiras. Não existe babá eletrônica? Ele era uma babá canina. Todo mundo que tem um cão sabe disso. Eles tornam-se parte da família. Outro dia, vi um senhor chorar ao ser entrevistado na TV sobre o desaparecimento de seu cão. E este foi exatamente o problema, que intrigou o pessoal da casa aqui nesta história, o porteiro do edifício, o síndico, e quem mais da vizinhança se interessou pelo caso. O cão sumiu.
     Mas sumiu como, se ele não gostava nem de passear para se aliviar de suas necessidades? Não saía de casa para nada, e nunca ficava sozinho. É verdade que, algumas poucas vezes, era obrigado a ficar solitário, por algumas horas apenas, enquanto alguém descia a rua, quase correndo, para ir à padaria. Nestas horas, ele adotava um ar de resignação, postava-se no corredor, de olhar fixo na porta, e lá ficaria por toda a eternidade, se necessário.
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     Então, como teria sumido? Quem deu por sua falta foi a menina mais nova, voltando da escola, por volta do meio-dia. Entrou em casa e foi logo chamando o bicho. Aliás, isto nem seria preciso, porque, como todos os cães, ele adivinhava de longe a chegada de um ente querido. E só deixava seu posto de observação, caso verificasse que todos os membros da família estivessem presentes. Todos do sexo feminino, bem entendido. Ao pai, ele reservava um solene desprezo, ou apenas uma rosnada, quando era surpreendido por debaixo das cobertas de uma das camas.
     Primeiro, a menina pensou que ele estivesse dormindo em algum canto, e não deu importância. Depois, chegaram outras duas, largaram suas mochilas pelos cantos (jamais em cima de uma mesa ou cadeira), e o cão não deu o ar da sua graça. Mas o canino já fazia parte dos móveis e utensílios, deveria estar dependurado no varal, ou dormindo debaixo do banco da varanda. Mas como a sua ausência se prolongasse, alguém perguntou casualmente por ele. Estaria doente?
     Aí saíram todas a procurar pelo dito-cujo. Não estava em lugar nenhum. Começou um certo pânico. Correram a verificar se não havia caído da varanda e estava estatelado no playground. Se não havia ficado preso nos banheiros, se não estava dentro de um armário, se não havia sido emprestado ao vizinho. Nada. Liga para o porteiro. Ninguém o viu passar pela portaria, nem sozinho, nem acompanhado.
     A menina mais velha, que acompanhava religiosamente todos os episódios do Arquivo X, arriscou um palpite: foi abduzido. De fato, em face do inusitado da situação, para um cão que não saía de casa por motivo algum, que quando precisava ir ao Dr. Rubinho tinha que ser arrastado e sob promessa que esta seria a última vez, que não estava no banheiro, nem na lixeira, nem dentro de armário, que aparentemente não se suicidara (não havia deixado nenhum bilhete), só poderia ter sido levado, de dentro de casa, por alienígenas. Alguém telefone para Scully, ela como mulher há de entender. Será que o confundiram com um terráqueo da raça humana? Pensando bem, eles não estariam totalmente errados. Primeiro, porque o cão, criado desde pequeno como parte desta família, com direito a ocupar uma poltrona na sala quando chegavam as visitas, dormir cada dia em uma das camas macias, escovar os dentes, ter o banheiro de serviço só para ele, tinha certeza – bem lá no íntimo canino – que ele era humano. Segundo, porque ele já se olhara no espelho e rosnara ameaçadoramente para aquele bicho refletido, certamente de uma espécie quase desconhecida, daqueles que desciam a rua puxados pelos donos amestrados, parando aqui e ali para deixarem uma  marca de sua passagem, ou uma sujeirinha para o próximo pedestre.
     Então, o pai arriscou um palpite, meio sem ter o que dizer, que ele poderia ter sido esquecido no elevador. No elevador? Exclamaram, em uníssono, todas as mulheres da casa. Mas quem teria deixado ele entrar no elevador sozinho? O pai, com um meio sorriso, aventou a hipótese de que ele mesmo tivesse se colocado em pé sobre as patas traseiras e apertado o botão de chamada do elevador. Não, isto é demais, além de qualquer realismo fantástico. Então, vamos procurar em todos os andares. Se este edifício fosse aquele azul, ele certamente teria sido capturado pela dona Leocádia.
     Saíram novamente a procurar o cão, cada uma em andar diferente, toca campainha, perguntam se alguém não encontrou um cão perdido no elevador, ou nas escadas do prédio, não, ninguém viu. Percorridos todos os andares, garagem, playground e portaria, sem sucesso, a coisa ficou séria. O cão foi realmente abduzido como a irmã do Mulder, lembrou a mais velha.
     O pai e a mãe, embora levando tudo na brincadeira, começaram a ficar realmente intrigados. Como pode um cão sumir sem deixar pista? Se fosse o gato Ubaldo, ainda bem, estaria vadiando pelas redondezas e voltaria alguma hora destas. Mas um cão? Coitado, e nem tinha uma plaquinha identificadora, destas com nome e um telefone de contato. Se alguém o tivesse encontrado perdido pela rua, a esta hora já o estaria chamando de Totó. Um minutinho. Será que alguém ainda chama um cachorro de Totó?
     As meninas já choravam sem parar. Agora ele era reconhecido como um membro efetivo da família, daqueles cuja presença todo dia, do café da manhã até o desligar da televisão à noite, nem  é particularmente notada, como se fosse um avozinho ali sentado na ponta do sofá, encolhido, sem falar nada, só observando. E atento ao menor ruído estranho, um sistema de alarme ligado 24 horas, e só carinho para todo mundo. Meu Deus, que saudade.
     Seria preciso fazer alguma coisa. Ligar para a polícia? Como a gente comunica o desaparecimento de uma pessoa do gênero canino? Ninguém sabia. Nunca havia acontecido antes. Colocar avisos com o retrato dele no poste? Será que foi roubado pelo entregador de jornais? O pai respondeu mentalmente que ninguém roubaria um cão mal acostumado como aquele, seria insuportável a convivência. Avisaram os avós, as tias, os primos, toda a família foi mobilizada. Ele foi abduzido. O pior é que ninguém acreditava. Só tia Sandra.
     O som de uma campainha trouxe uma nova esperança para aquela família destroçada. Era o faxineiro que trazia nos braços o nosso cão, com  olhar assustado. Fora encontrado escondido em um canto, atrás de um muro que existe no andar térreo de garagem. O abduzido havia voltado, sabe-se lá de qual galáxia. Todos gritaram de alegria e a vida, rapidamente, voltou ao que sempre foi.

(do livro Maria Pia et cetera, Carlos G. Vieira, 2016)
21 de março de 2020, o primeiro ano da era do Covid-19, em homenagem a Pietro D'Alba Lunga.

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