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Primeiro, preciso explicar como cheguei a este livro. Estava, outro dia, assistindo a um programa na TV sobre empreendedorismo e fiquei conhecendo a editora e livraria ABarros. E a história de Arthur Barros, escritor e autista. Achei emocionante. Segundo o lema do site da editora, "a inclusão social importa para nós." A editora é uma empresa familiar. Mãe e pai desempenham funções importantes na gestão do empreendimento.

E foi daí que, olhando o catálogo da livraria, fui atraído por este título de um livro de poesias, de autoria da professora Maria Anete Santana. De fato, a leitura pode transformar o universo. Embora a concorrência do celular e da televisão sejam avassaladoras, o meio físico cada vez importa menos. O que importa é reservar algum tempo para mergulhar em um livro, e refletir um pouco. Acabei de ler dois enormes livros de Gilberto Freyre: Casa Grande & Senzala e Sobrados e Mocambos. Livros fundamentais, que ajudam a entender, um pouco, o nosso confuso Brasil de hoje.

Pois Anete me transportou a outros espaços. Fui até Sergipe, onde ela nasceu (e me lembrei de meu colega Murilo, de Cedro de São João), a Roma, a Jerusalém e a São Paulo, onde morei. Como diz um de seus poemas, "Nesta vida tudo é belo/ quando sabemos viver/ e em nosso dia a dia/ somos capazes de entender/ Que a solidariedade/ é um bem que vai vencer". Tomara.

(17 de setembro de 2021)


 

 

AGORA É A GUERRA NA EUROPA para valer. A Alemanha parece ser invencível, e nós todos sentimos uma ponta de orgulho. Lá em casa quando se reúnem os amigos do meu pai, todos nascidos lá no Vaterland, só se fala nisso. Holanda, Bélgica, França, tudo sob domínio alemão. Faltam os ingleses teimosos, mas a hora deles vai chegar, meu pai me disse. O Führer fez uma coisa incompreensível. Deixou que os ingleses da Força Expedicionária voltassem para casa em Dunquerque. Acho que é aquela história de que somos primos, o Kaiser é meio inglês, sei lá. Mas a coisa esquentou muito e aqui no Rio de Janeiro a Polícia Política vem apertando o cerco sobre a comunidade alemã, principalmente aqueles que fazem parte da sessão brasileira do Partido Nazista Alemão. Lá em casa fomos instruídos a não comentar nada sobre a guerra.

   Como eu já contei, nossa primeira casa ficava na Rua Azevedo Lima, perto daquela do meu amigo Alexandrino, que muitos anos depois me disse assim de repente, voltando de um almoço na Rua do Ouvidor e quase ao atravessar a Rua Primeiro de Março, “Eu morei ali,” disse-me ele apontando para o casario da Travessa do Paço com Rua São José. Este Alexandrino, funcionário dos Correios a vida toda, sempre foi um menino inteligente e estudioso. E naquele dia ainda acrescentou: “Não apenas eu, mas minha mulher também, antes de nos conhecermos,” para minha total surpresa. Convenhamos.

Eu desde menino subia e descia a ladeira da Rua Azevedo Lima, várias vezes por dia, um cansaço. Depois meus pais resolveram que deveríamos nos mudar para a Rua Campos da Paz, perto da Paulo de Frontin. Edifício novo. Estranhei muito, porque ninguém que eu conhecia morava em edifício. Muito menos alemão. Todo mundo morava em casa, em geral na Rua Guaicurus, onde havia uma comunidade de famílias alemãs. Quando o dirigível Hindenburg visitou o Rio de Janeiro em 1936, alguém hasteou lá uma bandeira nazista. Foi um escândalo na comunidade alemã do bairro, porque mesmo os simpatizantes tratavam de dissimular, para não serem identificados pela Polícia Política.

Depois disso, fui morar na Rua Santa Alexandrina, esta sim uma ladeira. Perto do Hospital Espírita Pedro de Alcântara, para o qual fiz doações mais tarde de mobílias que não me serviam mais. O que me dava mais prazer era que, embora morasse no quarto andar, conseguia apanhar cacho de banana pelo muro. O edifício foi construído respeitando a topografia, e os apartamentos pareciam casas. Antes assim.

Hoje, aqueles que nasceram no Rio Comprido estão na diáspora. Expulsos pelo progresso e pela deterioração urbana. O máximo que faço é enviar a minha pequena contribuição todos os meses para a Ressurgir, que dá apoio a crianças carentes do bairro. Eu fui embora, depois meus pais se mudaram para o bairro do Flamengo, os amigos sumiram. A construção do Elevado Paulo de Frontin decretou a morte do mundo que conheci na infância. A queda do elevado em construção em 1971 foi a tragédia que faltava para nos afastar definitivamente. O que vou contar a seguir aconteceu antes de tudo isso.

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 ERA UMA ÉPOCA EM QUE AS MULHERES levavam cestas enormes, cheias de roupas, para lavar na beira do rio. Ninguém falava que aquilo poderia poluir as águas rio abaixo, e penso que nenhum peixe deixou de existir por causa daquele sabão feito em casa, em grandes tachos de cobre, com sebo recolhido no matadouro.

Havia entre elas uma que era considerada de segunda categoria, porque a cesta que levava era sempre abarrotada de roupas e ela passava horas ajoelhada nas pedras até muito tempo depois que as outras se retiravam, as mãos enrugadas pela água fria, não cantava, não falava mal da vizinhança, nem do marido. Quase não falava. Monossilábica, se me entendem. Atividade diária incessante. Era preciso faturar algum para a comida, porque além da roupa da casa, lavava para fora, como se dizia antigamente. Dizem que a clientela era enorme. Tinha até lista de espera. Além de lavar muito bem lavado, ainda passava a roupa com grande esmero.

Enquanto as lavadeiras atendiam por nomes comuns, como Maria, Conceição e Tereza, talvez até alguns prosaicos como Albertina, Mirinda e Ordália, ela chamava-se simplesmente Fernanda. Fernanda de quê? Costumavam indagar, e ela respondia apenas “Fernanda de Jesus.”

Pois estava um dia nossa Fernanda enxaguando as suas roupas nas águas do Rio das Velhas, como sempre fez desde os treze anos de idade, quando percebeu que alguma coisa brilhava por entre as pedrinhas da margem. Catou com jeito e era uma pedra dourada. Calculou pelo peso na mão que fosse coisa de umas 200 gramas. Guardou no bolso do casaco para olhar melhor depois, com calma, e antes de chamar a atenção daquele povo.

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Outro dia, em junho deste ano, o autor independente Chu Shao Lin completou 80 anos de idade. Assim, de repente. Engenheiro eletrônico formado pelo ITA, com longa experiência em tecnologia da informação, vem escrevendo suas observações sobre vários assuntos desde a década de 90. Primeiro, como convidado do site vece.com (não existe mais, foi antepassado do vececom), depois, fazendo uso das chamadas redes sociais. Nascido na China continental, emigrou com a família para o Brasil, e tem muita história para contar. Uma equipe familiar foi, então, montada para reunir seus escritos em livro, como uma comemoração desta data significativa de sua vida. São oito capítulos que abordam temas, tais como: sociedade, espiritualidade, qualidade de vida, política, biologia, arte e literatura e mitologia. Filhos e netos participaram. A linda capa do livro, por exemplo, é reprodução de uma pintura de sua neta. Um bom exemplo a ser seguido.

A propósito, leiam aqui no blog sobre o livro de Washington Conceição Para você se animar a escrever seu livro e o artigo Como preservar a história das famílias?

O livro Para além do horizonte, nas versões impressa ou eBook, pode ser encontrado na  Amazon.

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O que será que diz o menino falador para a menina, contemplando o mar infinito? Possivelmente fala das mudanças climáticas, que fazem subir o nível dos oceanos, e que colocam em risco as construções à beira-mar, como aquele prédio que desabou, outro dia, em Miami Beach. Ou conta para a menina sobre os monstros marinhos, que o assustam nas noites barulhentas da Timóteo. Ou repassa todos aqueles habitantes das profundezas do mar, ou discorre sobre os tubarões brancos, ou as baleias que se perdem e acabam encalhando nas praias. E a menina, o que falará? Ela fala das aves marinhas, que fazem ninho naquela ilha próxima e voos circulares por sobre as cabeças dos pescadores em seus barcos, na expectativa permanente de que reste alguma coisa para elas, ao final do recolhimento das redes. Ela fala também de seus sonhos de criança, daquela casa de bonecas que espera ganhar no aniversário do ano que vem e do sorvete na casa da avó. Eles mal sabem que sinto vontade de acrescentar um "da" a este título, ao refletir sobre o que estamos passando em terra firme.

(29 de junho de 2021, dia de São Pedro)

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