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O CÃO ERA TRÊMULO, ARREDIO, cauteloso, pouco sociável, mas havia se tornado imprescindível. As meninas da casa contavam com ele em suas brincadeiras. Não existe babá eletrônica? Ele era uma babá canina. Todo mundo que tem um cão sabe disso. Eles tornam-se parte da família. Outro dia, vi um senhor chorar ao ser entrevistado na TV sobre o desaparecimento de seu cão. E este foi exatamente o problema, que intrigou o pessoal da casa aqui nesta história, o porteiro do edifício, o síndico, e quem mais da vizinhança se interessou pelo caso. O cão sumiu.
     Mas sumiu como, se ele não gostava nem de passear para se aliviar de suas necessidades? Não saía de casa para nada, e nunca ficava sozinho. É verdade que, algumas poucas vezes, era obrigado a ficar solitário, por algumas horas apenas, enquanto alguém descia a rua, quase correndo, para ir à padaria. Nestas horas, ele adotava um ar de resignação, postava-se no corredor, de olhar fixo na porta, e lá ficaria por toda a eternidade, se necessário.
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ALBERTO JÁ ACORDOU DE MAU HUMOR. Acordar às 5:30 da manhã, para apanhar um táxi às 6:00 e embarcar no Santos Dumont às 7:30 não é para qualquer um. Conforme seus pensamentos sombrios, neste amanhecer no bairro da Gávea, ninguém merece. Já começa que a última coisa que desejaria, em sã consciência, para seu pior inimigo, seria embarcá-lo num avião. Ainda mais um daqueles pequenos, barulhentos, asa por cima da fuselagem, bimotor, piloto iniciante e copiloto estagiário. Ele foi obrigado a aceitar esta viagem de última hora. Se dependesse dele, a resposta seria não. O escritório de arquitetura do qual é sócio tem importante projeto em andamento em Belo Horizonte e o cliente marcou uma reunião de manhã. Só não era preciso a secretária reservar um voo para o Aeroporto da Pampulha. Ele teria preferido ir de ônibus, mas argumentaram que seriam muitas horas, teria despesa de hotel, cansaço, refeições, tudo isso para uma reunião de no máximo duas horas e um monte de outras considerações absolutamente irrelevantes para ele. Pampulha, segundo foi apurar na internet, só recebe avião pequeno. Precisava chegar a este ponto?
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   "QUANDO PROJETARAM A CIDADE DE Belo Horizonte, ainda no final do século XIX, o córrego nascia na Serra do Curral, descia a encosta, chegava perto do que hoje é a Igreja da Boa Viagem, atravessava em direção ao Parque Municipal e desaguava no Ribeirão Arrudas.

Mas os engenheiros acharam que aquele córrego chato atrapalhava o traçado tão bonito que fizeram na prancheta, ruas e largas avenidas entrecortando-se geometricamente, tudo dentro do melhor figurino da arquitetura de primeiro mundo. Não havia lugar para um córrego preguiçoso, sinuoso, que abria grandes valas onde tudo deveria ser simétrico e plano. Então fizeram a primeira intervenção urbana com o objetivo de endireitar a natureza. Mudaram o curso do córrego. Ao invés de ir para os lados da Boa Viagem, pensaram, vamos retificar. Vamos fazê-lo descer pelo bairro do Sion e sair na Rua Professor Morais, logo após a Avenida do Contorno. Daí continuar descendo pela Avenida Afonso Pena, e desviar na altura do Parque para desaguar, finalmente, no Ribeirão Arrudas. Isto permitiu expandir-se o bairro dos Funcionários, com muitas novas moradias, ruas e praças.

Depois, com o crescimento da cidade, parece que começaram a reclamar daquele córrego correndo a céu-aberto, trazendo tudo que despejavam pelo caminho, desde lá de cima, da Favela do Acaba Mundo, e fizeram o que talvez nunca devessem ter feito. Canalizaram o novo leito do córrego e fecharam por cima. Agora, aqueles canais simpáticos, com muretas de cimento de proteção deram lugar a pistas de rolamento, e os carros tomaram conta de tudo.

Ele, que se chamava Adolfo Correia da Rocha, falecido em Coimbra, no mês de janeiro, há 25 anos. Um dos maiores escritores da Língua Portuguesa.

"Atravessou a sala cabisbaixo, longe da majestade trágica das outras vezes. Deixava atrás de si a vida, e a vida não lhe dava grandeza."
( Do conto "O Alma-Grande, livro "Novos Contos da Montanha", 1944)

30 de janeiro de 2020


   "A PRIMEIRA VEZ FOI EM MONTE VERDE, perto de Camanducaia, Minas Gerais. Montou com a minha ajuda, cautelosamente como era de seu estilo, segurou com todas as mãos possíveis no arreio, mas ficou encantado com o cavalinho sonolento que destinavam para a diversão das crianças. Peguei as rédeas, sempre perguntando se estava tudo bem, e comecei a puxar vagarosamente.
   Acho que o cavalo deu umas três passadas, ou quem sabe quatro se tanto, e ele pediu para descer. Deu vontade de fazer cocô. Desce do cavalo, vai para a beirada do caminho, agacha-se e nada. Volta para o cavalo, agarra-se como pode, mais umas quatro passadas, ou foram cinco não sei, e pede para descer. Quero fazer cocô. Vai para a beira da estradinha, agacha-se, faz uma cara contemplativa, e nada. Então, o jeito é voltar ao cavalo. Sobe novamente, segura no Santo Antônio, parece apreciar o panorama lá de cima. Pergunto se podemos tocar em frente, sacode um pouco a cabeça, e eu entendo que é uma autorização para prosseguir o passeio. Pego as rédeas, cavalinho ensaia um trote, mas só ensaia, sabe que estava finalmente na hora de sair dali, dá umas cinco passadas, e ele pede para descer. Quero fazer cocô. Aí eu vi que aquele menino corajoso, audaz, de dois anos apenas, não estava se dando muito bem na sela, e com o movimento do cavalo. Achei melhor desistir. Mas ele não.
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