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AS NOTÍCIAS QUE NOS CHEGAM PELO
 RÁDIO, vindas de Montevidéu, deixaram-nos muito preocupados. O Admiral Graf Spee atracou para reparos, e os navios ingleses ficaram ao largo, de tocaia, esperando a sua saída. Agora o encouraçado de bolso alemão, como o chamam os jornais, terá que romper seu caminho em nítida desvantagem. Nós todos passamos uma boa parte da noite ouvindo as rádios alemãs, mas parece que é isso mesmo. Eu considero o comandante Langsdorff um herói. Aqui, na Rua Azevedo Lima, não posso comentar com ninguém, meu pai proibiu. Somos e não somos alemães. Eu nasci no Brasil, mas sempre me considerei alemão. Não é assim mesmo que os meninos me chamavam na escola e na rua?

Nasci no bairro do Rio Comprido, perto da Rua Dona Cecília, no Frauenheim. Parteiras alemãs de mãos enormes, poucos sorrisos, mas eficientíssimas. Talvez por isso mesmo eu tenha nascido tão rápido, e tenha querido voltar subitamente para o útero materno, ao perceber o novo e hostil mundo que me esperava. Contaram-me, depois, que berrei como louco, e as alemãs sorriram em aprovação. Minha mãe, que fazia parte da Deutscher Frauenverein, sentia-se como que em casa. Eu não. 

Lucas Borges é o jovem autor do livro As aventuras de Lucas e o robô dragão, lançado em plena quarentena e disponível na Amazon. Lucas, que mora na cidade de Cedar Park, Texas (Estados Unidos), é um menino de sorte. Tem um avô talentoso, criativo, morando perto, nos arredores de Austin, também em Cedar Park. Os dois fizeram uma parceria para produzir essa história intrigante. Um certo senhor Akira, de origem japonesa, morando no Canadá, construiu um robozinho muito esperto, chamado Fiery. Esse robozinho, premido pelas circunstâncias, acompanha um grupo de aves migratórias e acaba se envolvendo em uma série de eventos em Austin, justamente na casa do personagem Lucas. Uma história envolvente, cheia de ação e lances criativos, que faz com que o leitor - jovem ou adulto - se mantenha ligado no enredo, e passe algumas horas longe das mensagens loucas e notícias decepcionantes do smartphone. Portanto, o livro, além de divertido, é um tônico para a saúde mental. Recomendo.
(Livro As aventuras de Lucas e o robô dragão, Álvaro Esteves & Lucas Borges, 2020)
(8 de setembro de 2020)


 Esse era o nome de um bar temático na Belo Horizonte do início dos anos 70. Ficava na Avenida do Contorno, em frente mais ou menos onde hoje fica o Life Center. Em terreno vazio, colocaram, não sei como, um vagão de trem destes tipo maria fumaça, espalharam mesas e cadeiras, e tome de cerveja. Essa era a época do início dos barzinhos, se não me engano. Na mesma Avenida do Contorno, só que agora no bairro de Santo Antônio, perto da Igreja, ficava o Maria Joana. Mais abaixo, ficava o Veia Poética, com livros que os frequentadores podiam ler deitados no chão e a caipirinha era servida numa arena de teatro. Lá perto da Praça da Liberdade, onde morou Afonso Arinos, ficava o Tom Chopim. A gente entrava por um violão pintado no muroNa Savassi havia o Garden, onde, nos fins de semana, uma turma de adolescentes enchia uma mesa, movidos a refrigerante, e de violão em punho, cantavam velhas músicas de seresta. E não posso me esquecer de citar o Largo do Baeta, onde meus convidados cariocas se espantaram ao ver um comensal levantar-se de sua mesa e dar um recital ao vivo. Eu fingi que aquilo era o normal em BH. Nessa mesma época havia em Porto Alegre o João Sebastião Bar, outro nome muito bem bolado. Eu, morador de Ipanema, acostumado, naquela época, com o Jangadeiro e tais, ficava encantado com essa criatividade. E ainda em Belo Horizonte, foi no Cá Luigi, na Avenida Cristóvão Colombo, que o Lu me levou um dia para tomar umas batidas na varanda do casarão antigo, oferta da casa, disse ele. E foi lá também que JM, no auge de seus vinte anos, espantou-se ao me ver pedir um vinho francês para acompanhar a massa do dia: Chateau Duvalier. Bons tempos.

(9 de agosto de 2020, em homenagem ao Professor Vieira, meu pai.)

Histórias, sem pé nem cabeça, de um menino que viveu em
uma cidade de sonhos nas décadas de 40 e 50, ao sopé da
Serra do Curral, ouvindo rádio, andando de bonde, e brincando na rua. Igual a todo mundo.


ARMAZÉM COLOMBO

A gente ia de bonde. Começava no abrigo Ceará, ali na praça Doze (era assim que se chamava naquela época a Praça Benjamin Guimarães ou Praça ABC), corria mole pela Paraúna (hoje Avenida Getúlio Vargas), subia Rio Grande do Norte e entrava na Cristóvão Colombo, em direção à praça da Liberdade. Fiz muitas vezes esse percurso, pés balançando, olhando as casas e as ruas, que se sucediam como em um filme. Este foi o meu primeiro passeio na vida, o primeiro encontro com o mundo. Está lá registrado no Livro do Bebê: “Foi passear com sua irmã Verinha até o Armazém Colombo”.

 O dito armazém era um ícone daquela época, nos arredores da Savassi, de caderneta e tudo. Consta que os donos eram portugueses da Beira Litoral, e ele ficava ali mesmo na esquina da Avenida Cristóvão Colombo com Rua Paraíba. As entregas a domicílio eram feitas com um furgão verde, daqueles tipo Dick Tracy. Os caixeiros, como se dizia, usavam na cabeça aquele saco de açúcar pérola azul, enrolado, como se fosse um boné. E aventais, naturalmente. Minha avó, senhorial, mandava entregar em casa. Nós, mais modestos, íamos de bonde fazer as compras. Isto foi antes de aparecer o Entreposto, ali na avenida do Contorno.

A primeira edição desse livro data de 1946. Com prefácio de Monteiro Lobato. A autora, dona Maria Paes de Barros, fala de uma São Paulo nada parecida com a megalópole de hoje. Uma urbe com cerca de 20.000 habitantes. Monteiro Lobato, na Breve Explicação que antecede o texto, nos diz que o livro foi escrito por uma alta dama paulista de noventa e quatro anos de idade. Uau. Para muitos de nós, essa seria a idade do esquecimento. Como minha prima Mary, que aos poucos vai chegando lá, ela tinha uma mente privilegiada. Retratou uma época, ainda no Império e início da República, com os barões do café e a destinação de São Paulo como locomotiva do Brasil. Nomes de logradouros públicos na cidade de São Paulo fazem parte dessa história, como a Avenida Paes de Barros, Brigadeiro Luís Antônio de Souza Queiroz, Comendador Luís Antônio Souza Barros e dona Veridiana da Silva Prado.

Gostei, particularmente, da descrição que ela faz da viagem anual da família para as fazendas na região de Campinas e ao longo, hoje, da Via Anhanguera. O livro é amplamente ilustrado.
( No Tempo de Dantes, Maria Paes de Barros, Editora Paz e Terra, 1998)

31 de julho de 2020, em homenagem ao menino de Dores do Indaiá, Inácio de Loiola, que faz aniversário hoje.

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