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Nestes tempos tão esquisitos, em que somos obrigados a permanecer em casa procurando o que fazer, e ouvir o que não queremos escutar, volto-me para livros antigos. De roupagem nova, mas antigos. Que falam de coisas e pessoas que conheci, de lugares familiares, de uma Belo Horizonte que está no meu coração. Refiro-me ao primeiro livro das memórias de Afonso Arinos de Melo Franco, que ele começou a escrever aos 54 anos, e já se julgando no limiar da velhice. Fiquei fascinado com a narrativa. Ele, que foi batizado apenas como Afonso, e ganhou o Arinos depois da morte do tio famoso, a pedido de sua avó.

Mas quero começar pela dedicatória no primeiro exemplar da segunda edição, por ele oferecido à sua esposa.
"A Anah
Meu tempo, como minha alma, se resumem em você. Afonso"

O livro inicia mostrando o menino inquieto, interessado por história e literatura, convivendo com os pais e os avós em Belo Horizonte, do início do século. Quando ele descreve a casa do avô, Rua Goiás com Praça Afonso Arinos, eu pensei: "conheço essa casa, já estive lá". Foi onde fiz meu curso de inglês, no saudoso Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos. Ele fala de suas conversas com Dona Marieta Machado, que dá nome à rua em Sabará onde moraram, por certo tempo, meus tios Ivan e Eugênia. O pai, Afrânio (que dá nome à avenida no Rio de Janeiro, citada no livro A volta do Abominável), já era uma personalidade do mundo político, tão bem descrito pelo próprio Afonso Arinos em seu livro Um Estadista da República.
Depois, ele conta seus estudos no Colégio Pedro II, onde já se destacou como escritor e orador. Conta de sua enfermidade, que o levou a passar uns tempos na Suiça em tratamento, e depois sob os cuidados na clínica do Dr. Hugo Werneck, em Belo Horizonte. Conta como conheceu Anah em Petrópolis, onde hoje mora a nossa Fernanda. Conta que, depois de casado, foi morar em Belo Horizonte, na Rua Sergipe com Gonçalves Dias, uma região que conheço bem e tenho frequentado nos últimos tempos. Corri a procurar no Google Maps para ver se a casa ainda existia. Não mais. Conta das dificuldades de Anah em amamentar Afonsinho, nascido no Rio, e depois salvo pela atuação de uma mãe mineira, vizinha, que passou a fornecer o leite materno de que ele tanto precisava.

Fala de muitos amigos e alguns desafetos. Fala de Getúlio, a personalidade marcante que passou a dominar a cena nacional, fala da preterição de seu irmão Virgílio para interventor em Minas, em favor do desconhecido Benedito Valadares. Fala que foi diretor do jornal Estado de Minas, e fala que foi demitido do emprego de advogado no Banco do Brasil, por determinação de Vargas, porque havia contribuído e assinado o Manifesto dos Mineiros de 1943. Fala de nomes tão meus conhecidos, da minha infância e adolescência. Milton Campos, Pedro Aleixo, Carlos Lacerda, Antônio Carlos de Andrada, Pedro Nava, João Teixeira, Brigadeiro Eduardo Gomes. Foram 520 páginas lidas com muita saudade. Gostei e recomendo. Agora parto para ler a segunda parte, A Escalada.

(A Alma do Tempo, Afonso Arinos de Melo Franco, Topbooks, ed. 2018)

(23 de maio de 2020)

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