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ALBERTO JÁ ACORDOU DE MAU HUMOR. Acordar às 5:30 da manhã, para apanhar um táxi às 6:00 e embarcar no Santos Dumont às 7:30 não é para qualquer um. Conforme seus pensamentos sombrios, neste amanhecer no bairro da Gávea, ninguém merece. Já começa que a última coisa que desejaria, em sã consciência, para seu pior inimigo, seria embarcá-lo num avião. Ainda mais um daqueles pequenos, barulhentos, asa por cima da fuselagem, bimotor, piloto iniciante e copiloto estagiário. Ele foi obrigado a aceitar esta viagem de última hora. Se dependesse dele, a resposta seria não. O escritório de arquitetura do qual é sócio tem importante projeto em andamento em Belo Horizonte e o cliente marcou uma reunião de manhã. Só não era preciso a secretária reservar um voo para o Aeroporto da Pampulha. Ele teria preferido ir de ônibus, mas argumentaram que seriam muitas horas, teria despesa de hotel, cansaço, refeições, tudo isso para uma reunião de no máximo duas horas e um monte de outras considerações absolutamente irrelevantes para ele. Pampulha, segundo foi apurar na internet, só recebe avião pequeno. Precisava chegar a este ponto?
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Arrumou a sua pasta com os documentos a serem apresentados na reunião, deu um beijo na mulher que só abriu um olho para se despedir, passou pelo quarto das meninas que dormiam como anjos, tomou um café feito de véspera correndo, abriu as quatrocentas seguranças da porta da cozinha e desceu correndo porque o táxi já estava na porta.

Pelo caminho agradeceu a Deus não ter apanhado um taxista conversador, daqueles que querem saber nossa opinião sobre o que se passa em Brasília, o quê o distinto faz, vai para São Paulo? E outras perguntas chatas que exigiriam longas respostas, logo às seis da manhã. Definitivamente não estava para conversa. Começou aquele friozinho na barriga que ele tanto detestava. Toda vez que era obrigado a viajar de avião era isso. Já havia consultado psicólogo, terapeuta oriental, até com o padre da paróquia havia trocado uma ideia, mas o padre disse que era o mesmo que acontecia com ele. Aconselhou levar um terço no bolso do paletó, porque nunca se sabe o dia de amanhã.

Alberto considerou um erro grave da parte dele ter comentado com o padre. Achou que os servos do Senhor, com toda aquela intimidade com o divino, não deveriam ter receio algum da morte. Foi uma surpresa constatar que os padres são mortais. Lembrou-se, para adquirir mais paz de espírito, da passagem contada no livro de Marcel Souto Maior em que Chico Xavier viajava de Uberaba para Belo Horizonte de avião, também um desses porcarias segundo o conceito de Alberto, e o avião começou a trepidar violentamente. O comandante explicou que não era nada, era só um tal de “vento de cauda”. Chico desandou a gritar em coro com os outros passageiros. Interpelado pelo guia Emmanuel, Chico respondeu: “Eu também tenho medo de morrer, uai.” Alberto pensava, se Chico Xavier, que tinha o maior conhecimento do outro lado, era íntimo das almas, tinha medo de andar de avião, porque não um arquiteto de coisas terrenas e bem firmes?

Chegando ao Santos Dumont foi logo ao quiosque tirar seu cartão de embarque, e já afrouxou um pouco a gravata. Começou a sentir um calor estranho. Será que a ANAC estava economizando no ar condicionado? Observou os outros passageiros, todos pareciam bem. Melhor tomar um café com pão de queijo. "O quê? Já aumentou de preço?" Praguejou, reclamou com a moça do caixa com aquele permanente olhar de paisagem, pagou, e foi se sentar bem longe daqueles conversadores ao celular, que escolhem os saguões dos aeroportos para tratarem de todos os negócios presentes e futuros, às sete da manhã. Com quem será que eles conversam? Quem serão estes loucos obstinados que já estão trabalhando às sete horas como se fosse meio do expediente? Estava de muito mau humor.

Deu uma olhada para o pátio do aeroporto. Cheio de aviões manobrando ou já recebendo os passageiros. Aviões grandes, com aspecto respeitável, nenhum parecia ter pegado fogo numa turbina, ou recebido um urubu pela proa, nem arranhão nas portas, sinal que poderia indicar desespero de passageiros tentando pular no mar. Tomara que seja um desses. Quem sabe, de repente mudaram o percurso? Foi conferir no cartão de embarque. Voo AK473, Santos Dumont - Pampulha. "Que saco!"

Lá para as sete e pouco, o formidável sistema de alto-falante do aeroporto, que não permite que se entenda nada claramente, anunciou a partida para BH-Pampulha. Teve que descer uma escada rolante. Iriam de ônibus até o desgraçado do avião, que deveria estar estacionado lá perto da Escola Naval no mínimo. Avião cheio, Alberto pode perceber. Seu nervosismo aumentou. Tentou cantarolar alguma coisa, só se lembrava de música fúnebre. Colocou um chicletes na boca, apesar das recomendações em contrário de seu dentista. Dentista? Este nunca precisava viajar como ele, nunca saberia o que era embarcar numa espécie de Demoiselle de Santos Dumont.

Finalmente, embarcou. Pelo menos haviam reservado para ele uma poltrona no corredor. Começou a suar, afrouxou mais ainda a gravata, tirou um lenço do bolso. Parecia que a refrigeração do avião (era daqueles mesmo, poltronas apertadinhas, asa por cima da fuselagem, um horror) ainda não estava funcionando. Chamou a aeromoça e perguntou se estava estragada a refrigeração e recebeu um olhar compadecido.

As aeromoças eram só duas, se prepararam para as demonstrações de praxe. Será preciso mesmo repetir este calvário? Não sabem que todos ali já apertaram os cintos e estão atentos aos avisos luminosos mesmo antes de embarcarem? A camisa de Alberto começou a colar no corpo. Que calor infernal. Aliás, pior que o inferno. Pelo menos este, pelo que sabemos, está em terra firme.

O comandante avisa que foi autorizado a decolar, portas já foram trancadas, aeromoças se sentam em seus respectivos lugares, o avião dá um ligeiro tranco (um mau sinal) e começa a ser rebocado, para em seguida se movimentar em direção à cabeceira da pista.

Alberto interrompe o Salve Rainha que estava rezando ininterruptamente e dá um grito. Surpresa geral dentro do avião. “Para, que eu quero descer!”

Uma das aeromoças corre em seu socorro e tenta acalmá-lo. “Para, para,” repete Alberto, inteiramente surtado. Os outros passageiros arregalam os olhos. Um retardatário, daqueles que falam ao celular até o último segundo, conta para a mulher que tem um passageiro passando mal, antes do avião decolar.

A aeromoça tenta convencê-lo que serão apenas 50 minutos, tudo se resolverá, o avião é seguro, o comandante é experiente, o lanche será especial, e mais uma série de perguntas e respostas constante do manual das atendentes de bordo em situação de stress.

Alberto repete o tempo todo: “Para, para esta joça, que eu quero descer.”

A aeromoça vai conferenciar com o comandante, volta e explica que não tem mais como descer, porque as escadas foram retiradas e o comandante se recusa a retornar a aeronave ao pátio por causa de um passageiro surtado.

“Abre a porta, que eu pulo”, diz Alberto transtornado. O comandante concorda.

Então, as duas aeromoças abrem a única porta de acesso, o comandante avisa à torre para vai descer um passageiro com sério distúrbio psicológico, a torre pergunta se deve acionar uma ambulância, o comandante, que também teve que acordar de madrugada, diz que não quer nem saber, Alberto junta seu paletó e pasta de documentos, nem olha para os colegas de infortúnio, vai até a porta, avalia a altura, e pula. Começa a caminhar, sem olhar para trás, e vai pensando: “Meu Deus, paguei o maior mico. Eu, um homem casado, pai de duas filhas, maior respeitabilidade, de terno e gravata, o que vão dizer de mim? Mas a pressão hoje foi insuportável. Tomei como um aviso de meus avós que já morreram. Alguma coisa estava para acontecer. E se fosse o dia do piloto? Comigo não. Para me pegar, dona morte, vai ter que me olhar de frente, olho no olho.”

Alberto estanhou não estar ouvindo o barulho da aeronave se afastando, e arriscou um rápido olhar para trás, sinceramente envergonhado. Quase caiu de costas. Um monte de gente estava pulando do avião, como ele. Depois ficou sabendo que uma senhora ficou de pé e berrou: “Ele teve uma visão. Eu aqui também não fico!”

Alberto está decidido. Só viaja agora de ônibus. Mesmo que seja para a América do Norte.

(Do livro Maria Pia et cetera, Carlos G. Vieira, 2016)
3 de março de 2020

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