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  O autor deste livro, que recomendo a todos os autores independentes, faz uma indagação muito pertinente. Quem foi que determinou todas as regras, normas, classificações e subclassificações que regem a nossa escrita? Terá sido um ser privilegiado, tal como Moisés, que as recebeu do próprio Deus no Monte Sinai? A resposta é difícil de ser dada, perde-se no tempo, mas uma coisa é certa. Não fomos nós, usuários, que numa ampla pesquisa opinamos. E o Acordo Ortográfico, que alguns escritores portugueses como Miguel Sousa Tavares recusam-se a seguir e nós aqui no Brasil somos obrigados? Este, então, é surpreendente. Uns sábios, daqui e de Portugal, se reúnem e decidem como devemos escrever as palavras comuns. Mas, mesmo assim, permitem duas formas de se escrever para algumas destas, de maneira a respeitar o uso corrente aqui ou em Portugal. Resultado, continuamos todos querendo escrever da mesma forma como aprendemos há muito tempo no ensino fundamental.
  Uma coisa que particularmente me deixa enlouquecido, como autor, é a história do "porque", "por que" e "por quê". Outra é não se poder, numa sequência, colocar vírgula antes do "e".
  O autor acha que existe uma corporação de linguistas e professores, cuja especialidade é dizer o que não pode. Segundo ele, esta insere-se na tradição judaico-cristã do pecado, da culpa, do remorso. Cita alguns exemplos de gramáticas e opiniões de especialistas em Língua Portuguesa, que mais complicam do que facilitam. E ninguém responde a uma pergunta muito simples: em que consiste o escrever bem? Resposta que interessaria, de pronto, a todos nós autores. Ele acha que grande parte das normas do que não pode no uso da Língua assemelha-se às regras de etiqueta, da mesma maneira como os cerimonialistas determinam arrumação de pratos e talheres em mesas de banquete. São, na verdade, o que os americanos chamam de bullshit. Com uma diferença. Ai do autor, jornalista, ou candidato em concurso público que se aventurar a contestá-las. Os revisores são implacáveis. Não interessa o conteúdo, só a forma. Aparecem logo os que adoram fazer correções nos livros dos outros. Eu mesmo fiz isso outro dia (mas a título de colaboração, óbvio). Meu amigo Sarmento, também ele um autor independente, já fez muitas.
  O livro é escrito com forte dose de bom humor. O autor chega, inclusive, a redigir uma crítica ao próprio livro e a suas afirmações, com o pseudônimo de D. Parvo. Só ao final ficamos sabendo disso.

(Livro Os mistérios da Língua Portuguesa, Eduardo Kanan Marques, ed. Thesaurus, 2016)

(5 de agosto de 2019)

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