Blogger Template by Blogcrowds.

Mês de julho é mês de muita festa em Campos do Jordão. Pois foi em um destes julhos, com direito a Festival de Inverno (este ano já na 46ª edição) e longas tardes no Baden Baden, que ficamos hospedados no hotel Leão da Montanha, na boa companhia de Lin e Ísis.  E foi lá que comprei o livro do senhor Arie Yaari, falecido em agosto de 2010, em Taubaté. Este livro faz parte da literatura do holocausto. Conta a saga de um jovem, nascido na Polônia em 1922, que passou por onze campos de trabalho forçado durante a Segunda Guerra Mundial, e acabou imigrando para o Brasil, depois de lutar nas guerras da Palestina. É o depoimento impressionante da luta pela vida, assim como também li, emocionado, o livro de Aharon Applefeld, um menino de nove anos que vagou sozinho por dois anos nas florestas da Romênia fugindo dos nazistas.
Arie Yaari, que teve muitas atividades profissionais em São Paulo, acabou construindo o Hotel Leão da Montanha há trinta e cinco anos. Mais tarde foi morar em Taubaté.
Tudo isso me veio à memória, depois que acabei de ler ontem o livro de Amós Oz, "A caixa-preta". Uma coisa puxa a outra. O livro de Yaari foi impresso em 2005, e de Oz em 2007 (as edições que possuo).
(16 de julho de 2015)

Lendo o último e excelente livro de Washington Conceição, A Califórnia e Nós, em que o autor dá prosseguimento às suas memórias, lembrei-me com certa nostalgia do Norman Rockwell country, na Costa Leste dos Estados Unidos, que conheci de perto em certa época. Lembrei-me de que eu era ainda um menino e corria para ler na biblioteca Thomas Jefferson o último exemplar do Saturday Evening Post, cujas capas eram sempre produzidas por Norman Rockwell, para mim a quintessência do artista e ilustrador americano. Lá em Stockbridge, Massachusetts, numa concessão ao menino que fui um dia, fui visitar o Museu Norman Rockwell, ainda instalado na casa de esquina da Main Street onde penso que morou e trabalhou o artista. Hoje o museu mudou de lugar, para instalações modernas, permitindo que o acervo possa ser visto de forma mais amigável, digamos assim, pelo visitante. Ali perto, caminhando, passei pela The Red Lion Inn, uma das mais antigas pousadas em operação ininterrupta nos Estados Unidos (mais de 200 anos), retratada magistralmente por ele.
Norman Rockwell nasceu em New York, morou em New Rochelle, NY, mas um dia mudou-se para Stockbridge, e de lá produziu suas obras durante 25 anos.
Quem quiser poderá ver aqui alguns trabalhos do artista Norman Rockwell.
(30 de junho de 2015)

Foi paradoxalmente lendo um dos muitos livros do escritor americano com o improvável nome de Daniel Silva, que me interessei por ler as cartas que Vincent van Gogh escreveu a seu irmão Theo, e guardadas pela viúva deste, publicadas pela primeira vez em 1914. Eram mais de 1.000 páginas. Depois disso as cartas mais relevantes foram selecionadas e novamente publicadas cerca de 200 cartas. Vincent escrevia ao irmão mais novo que ele quatro anos quase todos os dias. As cartas revelam um Vincent angustiado, reflexivo, eternamente em busca de um caminho. Primeiro, tentou seguir os passos do pai, um pastor protestante. Mas não tinha o dom da oratória, não impressionava a congregação, e foi dispensado. Tentou ser missionário, servir aos mais carentes, e também não se deu bem. Propôs casamento, e foi rejeitado. Então, resolveu dedicar-se à pintura, estudou todos os pintores que conhecia, conviveu com muitos em Paris, e vendeu apenas um quadro durante a sua vida. Ele foi o retrato do fracasso. Sempre apoiado e ajudado incondicionalmente por seu irmão Theo. Viveu em muitos lugares, mas era na casa paterna a que retornava de tempos em tempos onde parece que encontrava a paz interior. Finalmente, tomado por um estado depressivo profundo, pôs fim à própria vida. Seu irmão, que o acompanhou de longe desde os quinze anos, morreu seis meses depois. Vincent tinha então 37 anos. Isto foi há 125 anos, em julho de 1890. Os dois irmãos estão sepultados, lado a lado, no cemitério de Auvers-sur-Oise, França. Depois de morto, um de seus quadros (Retrato do Dr. Gachet) alcançou o valor de 82 milhões de dólares em 1990.

“Se continuarmos a amar sinceramente o que na verdade é digno de amor, e não desperdiçarmos nosso amor em coisas insignificantes, nulas e insípidas, obteremos pouco a pouco mais luz e nos tornaremos mais fortes.”
(Carta datada de Amsterdam, 3 de abril de 1878)

Veja a história com fotos de Vincent e Theo no Van Gogh Museum, Amsterdam

Recomendo ler
Cartas a Théo, Vincent van Gogh, L&PM Pocket

(25 de junho, 2015)

Tem épocas em que a gente fica meio desanimado. Estou numa semana destas. Muita coisa acontecendo que me traz uma depressão difícil de segurar. Ontem fui a mais uma missa de sétimo dia. Sentida, amarga. Durante toda a semana pensei naqueles que se vão, e não dão tempo nem de despedir. E, para completar a semana, ontem mais um amigo de infância se foi em Belo Horizonte, Fernando Brant, orgulho da canção mineira (e brasileira). Em dias assim, que não dá vontade nem de sair de casa, costumo me refugiar numa abstração que criei, a Pensão Pereira. Onde todos os amigos são bem vindos, e nos reunimos em torno de uma mesa enorme atemporal, e comemos aquelas comidinhas que minha mãe fazia, e bebemos aquela cerveja com colarinho (o Otávio insiste em pedir sem colarinho, já falei para ele ler o livro do Houaiss onde lá se ensina o porquê do colarinho, mas ele não me ouve, a bem dizer nunca ouviu). Sem hora para acabar. Isto é ponto de honra. E ninguém atende celular. Se for chamada do Zé Roberto, eu já sei que não é para atender mesmo. O celular liga sozinho, diz ele. E lá vamos deixando passar as horas bem devagar, atrasando o relógio do Nelson Prado, se for possível, para que ninguém se levante, subitamente, e proclame "está na hora!". A Pensão Pereira não tem nada a ver com o Pereira Bar (e restaurante) de Salvador, nem com o Bar da Dona Onça em São Paulo, onde vai o Rogério, mas tem a ver. Mesmas conversas repetidas muitas vezes, e encerradas com aquele riso franco como se alguém nunca tivesse escutado. E tem um lugar cativo para o Credidio, sempre reclamando de alguma coisa. Abre aí um vinho só para ele, mas tem que ser na temperatura adequada. E quando começa a clarear o dia, a Pensão Pereira vai aquietando aos poucos, até alguém dar a ideia de encerrarmos os trabalhos comendo um cabrito no Nova Capela. Simples assim.
(14 de junho de 2015)

Quando Diana completou dez anos, recebeu de presente de seus pais uma edição especial do livro de Lewis Carroll, que este ano está comemorando 150 anos desde que foi impresso pela primeira vez, em 1865. Tempos estranhos aqueles, onde uma criança recebia de presente um livro, e não um smartphone. Como, naquela época, morava nos Estados Unidos, veio com uma dedicatória para que se lembrasse do "país das maravilhas". Agora, vejo na última edição da revista The New Yorker um longo artigo do escritor e jornalista inglês Anthony Lane, morador em Cambridge, sobre o livro e o autor. Ele começa se perguntando quem costumava ler Alice no País das Maravilhas antigamente? E ele mesmo responde que era todo mundo que lia, ou mesmo onde houvesse uma pessoa disposta a contar uma história, e outra a escutar. Atualmente Alice caiu naquela categoria de livros que todos conhecem, sem necessariamente terem lido o livro. Existem adaptações, filmes, peças de teatro e possivelmente até livros para pintar. É o que Lane chama de conhecer um livro, ou a história, por osmose cultural.
Talvez muita gente não saiba que Lewis Carroll era o pseudônimo do reverendo da Igreja Anglicana Charles Lutwidge Dodgson, um professor de matemática no Christ College, em Oxford. Que além de escritor, poeta e religioso, foi também um fotógrafo profícuo, numa época onde as fotos não eram tão simples de serem tiradas como hoje. E daí veio uma controvérsia sobre a sua vida íntima. São conhecidas cartas suas às mães de algumas meninas solicitando permissão para fotografá-las até mesmo nuas. Como diz Anthony Lane, se fosse hoje, isto seria motivo suficiente para uma ordem de prisão. Mas parece que o reverendo, naquela época vitoriana, inspirava mais admiração do que desconfiança. Algo assim como um Michael Jackson e as crianças. Depois, veio a psicanálise e mil outras releituras. Mas Alice, escrito para uma certa Alice Liddell, filha do deão do Christ College, sem maiores pretensões, tornou-se um daqueles clássicos da literatura universal que ninguém pode ignorar.
(2 de junho de 2015)

Postagens mais antigas