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Uma vez em Montevidéu apanhamos um táxi aleatoriamente e logo o motorista percebeu que éramos brasileiros. E disse que conhecia pouco do Brasil, mas acrescentou: "Hay una ciudad que me encanta, San Juan de Buena Vista." Eu respondi, surpreso: "Tá brincando? Vou para lá mês que vem."
Qual a probabilidade de um taxista, em Montevidéu, conhecer a cidade do interior do Estado de São Paulo chamada São João da Boa Vista? Todos concordarão que deveria ser zero. E de encontrar um brasileiro que não apenas conhecia, mas iria para SJBV no mês seguinte? Esta possibilidade, matematicamente, não existe.
Agora leio aqui no O Globo que SJBV encabeça as 50 melhores pequenas cidades brasileiras para se envelhecer. Concordo. Por lá passei diversas vezes, a primeira delas quando tinha seis ou sete anos de idade. Está relatado no livro  Armazém Colombo (em nossa Livraria Virtual). Depois tive o prazer de ser ciceroneado por Lourdes e Rogério, várias vezes, e de me hospedar na chácara paradisíaca que eles tinham nos arredores da cidade. Tive oportunidade de conhecer por dentro o fantástico Teatro Municipal, inaugurado em 1914, e agora totalmente restaurado, depois de uma fase de quase abandono. Já é uma tradição a "Semana Guiomar Novaes", em homenagem à grande pianista nascida em São João. Quando se espantam aqui onde moro com meu entusiasmo por SJBV respondo sempre que "lá sou amigo do rei".


(7 de maio de 2017)

Uma coisa deliciosa, para os que conhecem a cidade do Rio de Janeiro, é roubar ao smartphone, digamos, uma meia hora e ler algumas das Antiqualhas, escritas pelo Dr. Vieira Fazenda, lá por volta dos 1900. Já comentei aqui sobre a Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, e agora quero dizer alguma coisa sobre a nossa Rua da Carioca.
Tive acesso aos volumes digitalizados e disponibilizados por Halley Pacheco de Oliveira e Ana Cristina Güttler.
A Rua da Carioca antes chamou-se Rua do Piolho. Segundo Vieira Fazenda, ainda que o nome pudesse advir dos criadouros que existiam por ali no século XVIII, na realidade o nome provinha de um cidadão, morador da rua, e ativo batalhador de causas advocatícias. Por esta rua passou Tiradentes, no cortejo que o levou da Cadeia (onde hoje fica o prédio da Assembléia, na Rua Primeiro de Março) até o cadafalso, penso que foi colocado onde hoje é a Avenida Presidente Vargas, altura da Rua da Conceição mais ou menos.
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Poucos viajantes vão a Roma e têm tempo, ou disposição, para conhecerem no Trastevere o palácio (atual Palácio Corsini) onde viveu os últimos anos de sua vida a Rainha Cristina da Suécia. Isso no século XVII. Agora, pergunto: qual rainha da Suécia você consegue dizer o nome assim de pronto (tirando a Rainha Sílvia, que viveu alguns anos no Brasil)? A Rainha Cristina consegue ser motivo de discussão até hoje. Precursora do feminismo e da liberdade da mulher, para espanto de seus contemporâneos.

Cristina, uma figura intrigante, feita rainha aos seis anos de idade pela morte do pai, coroada aos 18, pupila de Descartes, que nunca quis se casar, e que abdicou do trono aos 28 anos (em 1654). Já começa que chocou a sociedade da época porque insistia em usar roupas masculinizadas. Quiseram que ela se casasse com um primo, e ela preferiu transferir-lhe o título de rei, para não ter que passar pelo dissabor de casar-se. Escreveu cartas apaixonadas para uma certa Duquesa Ebba Sparre, sua amiga inseparável.

Uma das razões alegadas para a abdicação foi que decidiu converter-se ao catolicismo, num país rigidamente luterano. O Papa Alexandre VII, em Roma, aplaudiu intensamente e considerou esta uma vitória sua contra o movimento da Reforma Protestante. Depois disso nunca mais uma mulher pode ser sucessora do rei na Suécia.
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Nascido em uma família cujos antepassados haviam sido donos de escravos, no Brasil dos séculos 18 e 19, felizmente as duas gerações que me antecederam eram francamente abolicionistas. Meu avô materno foi expulso da escola em Ouro Preto porque, quando fazia um virulento discurso abolicionista, deu um tapa na cara do bedel. Está lá descrito no Esta Brava e Estoica Gente das Gerais, em nossa Livraria Virtual.
E foi assim que quando eu era ainda um menino me foi dado de presente o livro de Harriet Beecher Stowe, A Cabana do Pai Tomás. A minha família era assim. Naquele tempo dava-se de presente às crianças livros que as marcassem para a vida toda, e ajudassem na formação de suas personalidades. Foi desta forma que recebi A Cidade e as Serras, de Eça, para que nunca me esquecesse das serras de Minas, uma dedicatória altamente premonitória. E também O Crime do Padre Amaro, porque meu pai era reconhecidamente anticlerical.

O livro de Harriet Stowe, uma habitante da Nova Inglaterra, vendeu algo como 300 mil exemplares apenas no ano em que foi publicado, isto em 1852. Disseram para a autora que o livro dela havia desencadeado a Guerra de Secessão americana. Um exagero. Depois de haver sido festejado em vários países, o movimento dos direitos civis nos Estados Unidos da década de 60 colocou-o sob suspeição. Pai Tomás seria um santo e não exatamente um herói, como seria Martin Luther King. Pai Tomás aceitava o seu destino de escravo e isto deveria ser esquecido.
O fato é que o livro de Harriet Stowe, que chegou a ser a escritora mais famosa do mundo no meio do século 19, despertou as consciências para a situação desumana em que viviam os escravos, sobretudo no sul dos Estados Unidos, e tornou-se um clássico.
(12 de fevereiro de 2017)

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