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Uma coisa deliciosa, para os que conhecem a cidade do Rio de Janeiro, é roubar ao smartphone, digamos, uma meia hora e ler algumas das Antiqualhas, escritas pelo Dr. Vieira Fazenda, lá por volta dos 1900. Já comentei aqui sobre a Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, e agora quero dizer alguma coisa sobre a nossa Rua da Carioca.
Tive acesso aos volumes digitalizados e disponibilizados por Halley Pacheco de Oliveira e Ana Cristina Güttler.
A Rua da Carioca antes chamou-se Rua do Piolho. Segundo Vieira Fazenda, ainda que o nome pudesse advir dos criadouros que existiam por ali no século XVIII, na realidade o nome provinha de um cidadão, morador da rua, e ativo batalhador de causas advocatícias. Por esta rua passou Tiradentes, no cortejo que o levou da Cadeia (onde hoje fica o prédio da Assembléia, na Rua Primeiro de Março) até o cadafalso, penso que foi colocado onde hoje é a Avenida Presidente Vargas, altura da Rua da Conceição mais ou menos.
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Poucos viajantes vão a Roma e têm tempo, ou disposição, para conhecerem no Trastevere o palácio (atual Palácio Corsini) onde viveu os últimos anos de sua vida a Rainha Cristina da Suécia. Isso no século XVII. Agora, pergunto: qual rainha da Suécia você consegue dizer o nome assim de pronto (tirando a Rainha Sílvia, que viveu alguns anos no Brasil)? A Rainha Cristina consegue ser motivo de discussão até hoje. Precursora do feminismo e da liberdade da mulher, para espanto de seus contemporâneos.

Cristina, uma figura intrigante, feita rainha aos seis anos de idade pela morte do pai, coroada aos 18, pupila de Descartes, que nunca quis se casar, e que abdicou do trono aos 28 anos (em 1654). Já começa que chocou a sociedade da época porque insistia em usar roupas masculinizadas. Quiseram que ela se casasse com um primo, e ela preferiu transferir-lhe o título de rei, para não ter que passar pelo dissabor de casar-se. Escreveu cartas apaixonadas para uma certa Duquesa Ebba Sparre, sua amiga inseparável.

Uma das razões alegadas para a abdicação foi que decidiu converter-se ao catolicismo, num país rigidamente luterano. O Papa Alexandre VII, em Roma, aplaudiu intensamente e considerou esta uma vitória sua contra o movimento da Reforma Protestante. Depois disso nunca mais uma mulher pode ser sucessora do rei na Suécia.
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Nascido em uma família cujos antepassados haviam sido donos de escravos, no Brasil dos séculos 18 e 19, felizmente as duas gerações que me antecederam eram francamente abolicionistas. Meu avô materno foi expulso da escola em Ouro Preto porque, quando fazia um virulento discurso abolicionista, deu um tapa na cara do bedel. Está lá descrito no Esta Brava e Estoica Gente das Gerais, em nossa Livraria Virtual.
E foi assim que quando eu era ainda um menino me foi dado de presente o livro de Harriet Beecher Stowe, A Cabana do Pai Tomás. A minha família era assim. Naquele tempo dava-se de presente às crianças livros que as marcassem para a vida toda, e ajudassem na formação de suas personalidades. Foi desta forma que recebi A Cidade e as Serras, de Eça, para que nunca me esquecesse das serras de Minas, uma dedicatória altamente premonitória. E também O Crime do Padre Amaro, porque meu pai era reconhecidamente anticlerical.

O livro de Harriet Stowe, uma habitante da Nova Inglaterra, vendeu algo como 300 mil exemplares apenas no ano em que foi publicado, isto em 1852. Disseram para a autora que o livro dela havia desencadeado a Guerra de Secessão americana. Um exagero. Depois de haver sido festejado em vários países, o movimento dos direitos civis nos Estados Unidos da década de 60 colocou-o sob suspeição. Pai Tomás seria um santo e não exatamente um herói, como seria Martin Luther King. Pai Tomás aceitava o seu destino de escravo e isto deveria ser esquecido.
O fato é que o livro de Harriet Stowe, que chegou a ser a escritora mais famosa do mundo no meio do século 19, despertou as consciências para a situação desumana em que viviam os escravos, sobretudo no sul dos Estados Unidos, e tornou-se um clássico.
(12 de fevereiro de 2017)

Em primeiro lugar quero prestar minhas homenagens ao avô do autor deste livro, professor Walter Mors, que empresta seu nome ao Instituto de Pesquisas de Produtos Naturais da UFRJ. Que avô dedicado. Mesmo depois de aposentado continuava frequentando a universidade, assistia palestras e orientava colegas. Um avô que conseguiu transferir ao neto o amor pelo ensino e a pesquisa, num país que infelizmente assiste ao desmonte de várias universidades, como é o caso atual da UERJ aqui no Rio de Janeiro.
O professor Luiz Mors (atualmente na UFF) escreveu um livro fascinante, em linguagem acessível aos leigos e ignorantes como eu. Já começa que tive que pesquisar o que é etnobotânica. Me lembrei logo de Clarissa, cujas fotos ilustram quase todos os meus livros, e que tem uma jabuticabeira plantada em vaso, dando frutos duas vezes por ano. Eu nunca acreditei, mas ela insiste que é verdade.
Luiz passou algum tempo na Universidade de Gent (UGent), na Bélgica, e relatou várias descobertas que fez a partir de depoimentos de colegas. Como o caso prosaico de um mexicano com dor nas costas porque se propôs a ensinar aos europeus um jogo típico dos olmecas, o futebol mesoamericano. E o que fez dos olmecas um povo muito bem sucedido? Provavelmente a cultura do milho. E por que os espanhóis cismaram de entrar pela mata e descobriram aquele rio imenso, depois chamado das Amazonas? Estavam em busca da canela, que na realidade nunca existiu no Brasil antes do descobrimento. E existe alguma outra forma de se combater o veneno das cobras além do soro antiofídico? Luiz nos introduz ao chá da erva-botão. E conta que a triaga brasílica (antecessora da garrafada nordestina) foi uma adaptação dos jesuítas na Bahia a uma fórmula usada por eles na Europa. Indicada para todo tipo de envenenamento por animais.
E, para encerrar e falar um pouco de maçãs, o que dizer de Eduardo, o colega português que o autor conheceu em Zurique, que ao invés de torcer para o Benfica como o tio Ernesto e Ricardo Caldeira, torcia para um pequeno time na região de Lisboa chamado Cova da Piedade? Eduardo se meteu a colher maçãs, para descobrir depois que os frutos eram bem azedos. A maçã selvagem. Muito apreciada na época da colonização americana porque com ela podia-se fazer sidra. E por isso mesmo combatida pelos puritanos, contra o consumo do álcool pelas famílias. Eu mesmo já usei aqui para dar início ao fermento Severino, usado nos pães que teimo em assar.
E tem muito mais: mangueira, galhas, carvalho, seringueira, centeio, cinchona, cardamomo.

(Livro Plantas e Civilização, Luiz Mors Cabral, Edições de Janeiro, 2016)

(3 de fevereiro de 2017)

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