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   "QUANDO PROJETARAM A CIDADE DE Belo Horizonte, ainda no final do século XIX, o córrego nascia na Serra do Curral, descia a encosta, chegava perto do que hoje é a Igreja da Boa Viagem, atravessava em direção ao Parque Municipal e desaguava no Ribeirão Arrudas.

Mas os engenheiros acharam que aquele córrego chato atrapalhava o traçado tão bonito que fizeram na prancheta, ruas e largas avenidas entrecortando-se geometricamente, tudo dentro do melhor figurino da arquitetura de primeiro mundo. Não havia lugar para um córrego preguiçoso, sinuoso, que abria grandes valas onde tudo deveria ser simétrico e plano. Então fizeram a primeira intervenção urbana com o objetivo de endireitar a natureza. Mudaram o curso do córrego. Ao invés de ir para os lados da Boa Viagem, pensaram, vamos retificar. Vamos fazê-lo descer pelo bairro do Sion e sair na Rua Professor Morais, logo após a Avenida do Contorno. Daí continuar descendo pela Avenida Afonso Pena, e desviar na altura do Parque para desaguar, finalmente, no Ribeirão Arrudas. Isto permitiu expandir-se o bairro dos Funcionários, com muitas novas moradias, ruas e praças.

Depois, com o crescimento da cidade, parece que começaram a reclamar daquele córrego correndo a céu-aberto, trazendo tudo que despejavam pelo caminho, desde lá de cima, da Favela do Acaba Mundo, e fizeram o que talvez nunca devessem ter feito. Canalizaram o novo leito do córrego e fecharam por cima. Agora, aqueles canais simpáticos, com muretas de cimento de proteção deram lugar a pistas de rolamento, e os carros tomaram conta de tudo.

Ele, que se chamava Adolfo Correia da Rocha, falecido em Coimbra, no mês de janeiro, há 25 anos. Um dos maiores escritores da Língua Portuguesa.

"Atravessou a sala cabisbaixo, longe da majestade trágica das outras vezes. Deixava atrás de si a vida, e a vida não lhe dava grandeza."
( Do conto "O Alma-Grande, livro "Novos Contos da Montanha", 1944)

30 de janeiro de 2020


   "A PRIMEIRA VEZ FOI EM MONTE VERDE, perto de Camanducaia, Minas Gerais. Montou com a minha ajuda, cautelosamente como era de seu estilo, segurou com todas as mãos possíveis no arreio, mas ficou encantado com o cavalinho sonolento que destinavam para a diversão das crianças. Peguei as rédeas, sempre perguntando se estava tudo bem, e comecei a puxar vagarosamente.
   Acho que o cavalo deu umas três passadas, ou quem sabe quatro se tanto, e ele pediu para descer. Deu vontade de fazer cocô. Desce do cavalo, vai para a beirada do caminho, agacha-se e nada. Volta para o cavalo, agarra-se como pode, mais umas quatro passadas, ou foram cinco não sei, e pede para descer. Quero fazer cocô. Vai para a beira da estradinha, agacha-se, faz uma cara contemplativa, e nada. Então, o jeito é voltar ao cavalo. Sobe novamente, segura no Santo Antônio, parece apreciar o panorama lá de cima. Pergunto se podemos tocar em frente, sacode um pouco a cabeça, e eu entendo que é uma autorização para prosseguir o passeio. Pego as rédeas, cavalinho ensaia um trote, mas só ensaia, sabe que estava finalmente na hora de sair dali, dá umas cinco passadas, e ele pede para descer. Quero fazer cocô. Aí eu vi que aquele menino corajoso, audaz, de dois anos apenas, não estava se dando muito bem na sela, e com o movimento do cavalo. Achei melhor desistir. Mas ele não.
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  "OS PÉS FICAVAM A MANHÃ INTEIRA roçando a água, o mar indo e vindo ao sabor da maré. Quem olhasse, de longe, veria um velho sentado em uma cadeirinha tosca de madeira, chapelão de palha e a vara de pescar sempre pronta. Ele quase imóvel. Abria o olho de vez em quando para apreciar o voo de uma gaivota e adivinhar se havia algum cardume chegando. Era uma praia quase deserta, entre Angra e Paraty. O velho pensava. Não será esta a atividade mais importante dos velhos? Mais do que se preocupar com o amanhã, com os filhos todos criados, com os netos barulhentos, com a mulher implicante. "Fala mais baixo," dizia ela. E com a crise. A eterna crise brasileira desde que nasceu.

  De repente, sentiu um movimento diferente no mar. Um torvelinho, um espirro, gotas de água salgada jogadas ao vento. Seria tubarão? Recolheu os pés por pura precaução. Nunca um tubarão chegaria tão perto da praia. Nunca? E aqueles filmes loucos em que os tubarões só faltam correr atrás das pessoas pela rua? Fixou o olhar, virou para um lado e para o outro, nada. "Acho que é o sol, tá me queimando a mufa," murmurou. Olhou para trás, para os lados da prainha, para o mato, e não viu nada. Ajeitou o chapelão, e voltou a dormitar esperando um peixe que pudesse pescar. Não um tubarão ou coisa que o valha.
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"ERA UMA ÉPOCA EM QUE as mulheres levavam cestas enormes, cheias de roupas, para lavar na beira do rio. Ninguém falava que aquilo poderia poluir as águas rio abaixo, e penso que nenhum peixe deixou de existir por causa daquele sabão feito em casa, em grandes tachos de cobre, com sebo recolhido no matadouro. 
Havia entre elas uma que era considerada de segunda categoria, porque a cesta que levava era sempre abarrotada de roupas e ela passava horas ajoelhada nas pedras até muito tempo depois que as outras se retiravam, as mãos enrugadas pela água fria, não cantava, não falava mal da vizinhança, nem do marido. Quase não falava. Monossilábica, se me entendem. Atividade diária incessante. Era preciso faturar algum para a comida, porque além da roupa da casa, lavava para fora, como se dizia antigamente. Dizem que a clientela era enorme. Tinha até lista de espera. Além de lavar muito bem lavado, ainda passava a roupa com grande esmero. 

Enquanto as lavadeiras atendiam por nomes comuns, como Maria, Conceição e Tereza, talvez até alguns prosaicos como Albertina, Mirinda e Ordália, ela chamava-se simplesmente Fernanda. "Fernanda de quê?" Costumavam indagar, e ela respondia apenas “Fernanda de Jesus.” 

Pois estava, um dia, nossa Fernanda enxaguando as suas roupas nas águas do Rio das Velhas, como sempre fez desde os treze anos de idade, quando percebeu que alguma coisa brilhava por entre as pedrinhas da margem. Catou com jeito e era uma pedra dourada. Calculou pelo peso na mão que fosse coisa de umas 200 gramas. Guardou no bolso do casaco para olhar melhor depois, com calma, e antes de chamar a atenção daquele povo. 

Enxaguou mais umas roupas e viu outra pedra brilhando. Meu Deus, o que será isso? Não havia ninguém por aquelas paragens que não sonhasse em encontrar ouro no Rio das Velhas. Talvez nem a resignada Fernanda. Esta pedra agora era maiorzinha, talvez umas 300 gramas.

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