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Eu me emocionei muito com este livro, que recebi de presente. Um diário íntimo de Carlos Drummond de Andrade sobre acontecimentos familiares que o faziam se deslocar constantemente do Rio de Janeiro para Minas. Ora era a mãe, ora um irmão ou irmã. A narrativa, sem intuito aparente de ser publicada algum dia, e recolhida pelo neto Pedro Augusto, mostra o poeta extremamente preocupado com a família. Eu que também fiz este caminho entre o Rio e Minas muitas vezes, por razões semelhantes às dele, senti profundamente a leitura. O Aeroporto da Pampulha, a Avenida Afonso Pena, o Cemitério do Bonfim, o bairro da Serra. O livro também trata dos amigos, como Manuel Bandeira e Rodrigo Melo Franco de Andrade. Os últimos dias do poeta Manuel Bandeira, internado ora no Leblon, ora no Samaritano, é de dar pena.
A palavra que melhor retrata este livro tão delicado é saudade. Recomendo a leitura.
Transcrevo parte de um poema (Irmão, irmãos) constante do livro.

Ser irmão é ser o quê? Uma presença
a decifrar mais tarde, com saudade?
Com saudade de quê? De uma pueril
vontade de ser irmão futuro, antigo e sempre?
(Carlos Drummond de Andrade)

(Livro Uma forma de saudade, Carlos Drummond de Andrade, Companhia das Letras)

(9 de abril de 2018)

Esta linda canção La Paloma, conhecida no mundo todo, foi escrita por um espanhol chamado Sebastián de Yradier y Salaverri, por volta de 1860. Ele a compôs após uma visita a Cuba e dizem que foi a partir desta canção que a ilha se tornou um destino turístico no século XIX.
No México, sob o reinado de Maximiliano e Carlota, a música se tornou parte da cultura mexicana. O imperador e sua mulher adoravam ouvi-la, na voz de Concha Méndez. Antes da queda do breve  regime imperial, os republicanos haviam escrito uma outra letra para zombar da imperatriz Carlota. No lugar de "se à sua janela chegar uma pombinha...", diziam "se à sua janela chegar um burro fraco, trata-o com desprezo porque é um austríaco". Como se sabe Maximiliano era austríaco, e colocado no trono do México por imposição de Napoleão III. Há também, com forte ênfase nacionalista, a canção Paloma Juarista (com a mesma música), que começa lembrando a Guerra de Intervenção, a segunda invasão francesa do México, em meados do século XIX.
Por incrível que pareça existem hoje mais de mil versões da canção original de Yradier, inclusive uma em português do Brasil, gravada por Tonico e Tinoco. E também interpretações de cantores famosos como Julio Iglesias, Elvis Presley, Sarita Montiel, Billy Vaughn, Freddy Quinn, Nana Mouskouri, Mireille Mathieu, Plácido Domingo e muitos outros.
Uma possível leitura para o tema de La Paloma vem da época da antiga Grécia. Costumava-se usar pombas para enviar mensagens de amor e de carinho aos familiares, quando os marinheiros estavam no mar. Transcrevo aqui o refrão, que me parece ser a parte mais sentimental da letra.

"Si a tu ventana llega una paloma
Trátala con cariño que es mi persona
Cuéntale tus amores bien de mi vida
Corónala de flores que es cosa mía
Ay chinita que si, ay que dame tu amor
Ay que vente conmigo chinita
A donde vivo yo"

Canção La Paloma , Sebastián Yradier, 1860
(13 de março de 2018)

Outro dia, em Petrópolis, deixaram este livro no chalé que estávamos ocupando, com uma linda mensagem. Foi uma surpresa da Fernanda. A primeira vez que recebi de presente um livro de Vinicius de Moraes foi no meu aniversário de 18 anos (Antologia Poética) e me foi dado pela menina da casa ao lado. Muito tempo depois fui morar na Rua Lopes Quintas, rua em que ele nasceu. E fico sabendo pelo livro Todo Amor que sua primeira esposa, casamento por procuração, era neta do Almirante Custódio de Mello, que deu o nome ao navio que me levou pela primeira vez ao Canadá. Vinicius escreveu uma carta aos pais (morava em Oxford nesta época) comunicando o casamento e pedindo que recebessem a esposa em família.
Vinicius é o poeta da minha predileção. Não foi por outra razão que Fernanda garimpou na Livraria Timbre este livro para nos dar de presente, em uma data tão significativa. Então, peço licença para transcrever estes versos que foram escritos há exatamente 80 anos:

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

(Soneto da Separação, Vinicius de Moraes, 1938)

(13 de fevereiro de 2018)

Estava eu outro dia placidamente tomando um chope em companhia de meu amigo Cuíca (sim, autores independentes ainda fazem isso) quando começamos a nos lembrar das leiterias do centro da cidade do Rio de Janeiro. A velha Leiteria Mineira, fundada no início do século XX, e que já passou por vários endereços, todos próximos. Começou na antiga Galeria Cruzeiro, que deu lugar ao enorme edifício Avenida Central, depois esteve na Rua São José, e desde a década de 70 está lá na Rua da Ajuda. É, por assim dizer, a heroína da resistência.
Falamos também da Leiteria Silvestre, que eu já conheci numa loja do Avenida Central (no lado da Rua São José) e o Cuíca se lembra de quando ainda era no Largo da Carioca. Dizem que fechou, depois de mais de 100 anos de existência, por causa da violência que tomou conta desta santa cidade de São Sebastião.
Depois, nos lembramos da Leiteria Bol, que ficava na Rua Gonçalves Dias. Lá almocei muitas vezes, porque era muito conveniente, perto do escritório. E sempre encerrava a refeição ligeira com uma coalhada com mel. Talvez venha daí esta minha luta contra os índices glicêmicos. Dizem que a coalhada era uma marca registrada destas leiterias.
Há um livro antigo, só encontrado hoje em dia em sebos e de autoria de Luiz Edmundo, que fala muito bem destas leiterias (e de como era aqui no começo do século XX). O Rio de Janeiro do Meu Tempo, em vários volumes e edição da velha Editora Conquista (a gente tinha que abrir as páginas com uma lâmina).
Viva Rio! Você tem tanta história, tanta tradição, uma cidade tão linda que já resistiu à invasão francesa, à febre amarela, às revoltas da Armada, ao Estado Novo, aos maus governantes, que não pode agora sucumbir à incompetência e à corrupção.
(9 de fevereiro de 2018, às vésperas do Carnaval)

Fui agraciado, por estes dias, com generosos presentes vindos de Lisboa. Trata-se da correspondência completa (pelo menos toda a conhecida até agora)  de Eça de Queiroz a seus amigos e parentes, em dois volumes, e outro que trata exclusivamente das cartas pessoais que trocaram Eça e sua mulher Emília ao longo de pouco mais de quinze anos de convivência. Organização e notas de A. Campos Matos. Meu amigo José Manuel Vieira de Sá não poderia ter me agradado mais.
A correspondência de Eça começou a ser publicada, aos poucos, desde 1916. São vários livros, ao longo do tempo, sempre a incluir cartas inéditas. É de se ressaltar o trabalho da professora Beatriz Berrini, da PUC de São Paulo, uma queiroziana de mão cheia, que participou ativamente da Fundação Eça de Queiroz, em Tormes (Santa Cruz do Douro), Portugal. Autora de muitos livros sobre Eça, a Profª. Beatriz também participou da elaboração de uma das mais completas edições das cartas conhecidas do escritor português, publicada no ano 2000 pela Editora Nova Aguilar, do Rio de Janeiro.
Meu primeiro contato com Eça foi pela estante de meu pai. Lá eu li, ainda no início da adolescência, as Cartas de Inglaterra, uma coleção de ensaios que revela outra faceta da atividade intelectual e profissional do escritor, aquela de analista político.
JM comentou, e eu não sabia, de um pormenor da vida de Eça. A mãe só se casou com o pai dele, este nascido no Brasil, quando Eça de Queiroz tinha cinco anos. E ele teve como mãe de leite uma senhora pernambucana, dona Ana Joaquina Leal de Barros. São, portanto, muitas as ligações dos brasileiros com o grande escritor português.
Aproveito para recomendar a leitura de outra postagem deste blog - Era Lisboa, e Chovia, título do livro do Embaixador Dário Moreira de Castro Alves, que é uma viagem sentimental pela Lisboa dos personagens de Eça de Queiroz.
(6 de fevereiro de 2018)

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