Blogger Template by Blogcrowds.

Confesso, com algum constrangimento, que li este livro na sua primeira edição (passou da vigésima). Sinal de que já estou há um bom tempo nesta estrada. O livro andou comemorando 60 anos este ano. Levei um susto, porque eu era apenas um menino quando o li, e parece que foi outro dia. O autor Mário Palmério, cujo centenário de nascimento foi comemorado em março de 2016, enviou um exemplar de presente para meu irmão mais velho, e eu rapidamente tratei de devorar o livro antes de todo mundo. Nunca me esqueci do personagem Xixi Piriá.

Mário Palmério, que nasceu em Monte Carmelo e morreu em Uberaba, no Triângulo Mineiro, me parece ter sido uma pessoa extraordinária. Como escritor, de apenas dois livros publicados, foi sucesso absoluto já na estréia. Entrou para a Academia Brasileira de Letras exatamente para ocupar a cadeira de Guimarães Rosa, outro mineiro regionalista. Mas o que me chama mais atenção em sua trajetória de vida foi a criação de escolas. Em Uberaba lá está a universidade que deve a ele o seu início, além de hospital e colégios. Foi nosso embaixador junto ao Paraguai, no governo João Goulart. Foi deputado federal por três legislaturas. E, curiosamente, morou vários anos em um barco na Amazônia. Uma vida muito diferente das pessoas comuns.
Leia mais

Li uma notícia apavorante. Em Huntington, cidade da West Virginia, Estados Unidos, bebês estão nascendo viciados em drogas. Fruto do uso desenfreado feito pelas mães durante o período de gestação. Aliás, este estado americano é o campeão nacional das mortes por overdose. Pensei que nem chegamos ao ano 600 Depois de Ford, e estamos cada vez mais longe da utopia do Admirável Mundo Novo.

Este livro, do inglês Aldous Huxley, foi publicado pela primeira vez no Brasil há 75 anos. É daqueles livros que todo mundo cita e poucos leram. Foi escrito ao início da década de 30 e representa uma profunda reflexão sobre as sociedades do futuro. Por influência do sistema de produção industrial iniciado por Henry Ford, e imortalizado no modelo T, a sociedade do futuro seria toda regulada e previsível, baseada em castas, e seus membros nasceriam não de mães e pais, mas de incubadoras. E a felicidade seria a regra geral, porque todos tomariam doses diárias de soma, uma espécie de pílula de encantamento. As castas seriam produzidas segundo formatos apropriados para as funções que elas desempenhariam na sociedade. Por exemplo, aqueles destinados a serem trabalhadores nas fábricas seriam condicionados já nos berçários a sentirem horror de flores e do campo, e portanto seriam felizes desempenhando o seu papel. Sindicatos, contribuições sindicais compulsórias, nem pensar. Pelo menos isso. O sexo seria livre, mas não para reprodução. E então aparece um personagem chamado de Selvagem, nascido por acaso numa reserva indígena primitiva no Novo México, Estados Unidos, de pais oriundos do mundo exterior. E ele decide ir para Londres e interagir com as pessoas daquele mundo tão estranho. No final há o choque previsível de civilizações, e ele acaba se refugiando em local isolado, onde tem tempo para pensar e observar a natureza. Mais ou menos isso.

Aldous Husley disse mais tarde que se fosse reescrever a história teria criado uma terceira alternativa para o Selvagem, além da vida utópica e a primitiva. Este e outros da sociedade utópica que o desejassem poderiam viver numa espécie de reserva onde a tecnologia estaria a serviço do homem e não este escravizado por aquela. Ele chamaria esta alternativa de sanidade possível. Uma tremenda reflexão para os dias de hoje, onde pokemons passam o tempo todo nos atropelando pelas ruas.
(18 de setembro de 2016)

Ninguém, absolutamente ninguém, poderá dizer jamais que foi à cidade do Porto se não passou, entrou e apreciou o Majestic Café, na rua de Santa Catarina. Contam que uma vez perguntaram, em plena Confeitaria Colombo na rua Gonçalves Dias (Rio de Janeiro), a Juscelino Kubitschek o que mais havia gostado em uma visita recente a Portugal, e ele ele respondeu: "o Majestic... afinal também sou filho de Deus."
Fundado da década de 20 do século passado, o café inicialmente recebeu o nome de Elite, como aquele que existiu na rua da Bahia, em Belo Horizonte. No ano seguinte mudaram para Majestic, mais ao estilo francês. A minha admiração pelo Majestic vem de longa data. Uma vez amiga minha, retornando de viagem a Portugal, fez questão de me trazer saquinhos de açúcar do Majestic, para provar que lá estivera, como eu havia lhe recomendado. Estão aqui até hoje, intocáveis.
Leia mais

Quando apareceu o primeiro número da icônica (para usar um termo das Olímpiadas Rio 2016) revista Senhor, em 1959, eu que ainda era um menino de uns quatorze ou quinze anos li um artigo de Carlos Lacerda com este mesmo título, e não me esqueci mais. O artigo falava apenas das rosas, ele que as cultivava em seu sítio de Petrópolis, e nada de política, como se sabe a matéria prima de sua personalidade. Não sabia eu naquela época que ele usara emprestado uma frase famosa de Gertrud Stein, repetida muitas vezes daí para frente, e que fez parte do poema Sacred Emily (1913). Dizem que originalmente a frase referia-se a uma certa Rose, mas depois se popularizou como uma expressão que quer dizer que as coisas são como elas são, e pronto. Minha mãe usava um outro ditado, talvez menos poético e mais mineiro, revelando a mesma sabedoria: "tudo é quanto pode ser". Na casa onde nasci, o jardim em formato trapezoide era ornado de roseiras, acompanhando a escadaria. Brotavam rosas rubras como esta aí em cima, brancas, amarelas e rosas rosas. Minha mãe as tratava como filhas.
Leia mais

Quem pode escrever um livro? Na realidade, todo mundo pode, desde que se disponha a tanto. Antigamente os iniciantes mendigavam uma aprovação das editoras, e muitos talentos suaram para conseguir ter seu primeiro livro exposto em alguma livraria. Um exemplo disso é Miguel Torga, cujo primeiro livro foi publicado com recursos próprios. Outro é o do aclamado Ulysses, de James Joyce, publicado a duras penas com recursos de Sylvia Beach. Outro é o da mais famosa escritora de livros infantis, Beatrix Potter, rejeitada por uma editora e publicada pela primeira vez graças ao apoio financeiro de seu pai. E por aí vai.
Hoje mudou tudo. Os autores independentes escrevem e publicam seus livros para satisfazer a um impulso incontrolável de colocar suas idéias em papel ou eBook, ou fazer um registro para a posteridade, mais do que para atender puramente a uma vaidade pessoal, como achava o senhor Garamond do livro de Umberto Eco.
O escritor Washington Conceição, engenheiro formado pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, publicou seu primeiro livro, Histórias do Terceiro Tempo, aos 76 anos e não parou mais.
Leia mais

Postagens mais antigas