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Começa assim o livro de Manuel Antônio de Almeida, o único que teve tempo de escrever em seus trinta anos de vida. Memórias de um sargento de milícias. Livro que escreveu aos 20 anos. O rei em questão era o nosso D. João VI, portanto a história se passa entre 1816 e 1821, tempo em que D. João exerceu de facto as funções de rei. Antes era apenas o príncipe regente, no impedimento de D. Maria I.
O prefácio da edição que tenho em mãos foi escrito com muita graça por Ruy Castro. E ele diz, comentando a idade do autor, "como se podia ser tão absurdamente jovem?"
O livro mostra, com rara felicidade, como viviam, e se viravam, os habitantes desta cidade do Rio de Janeiro, cheia de percalços. A linguagem do livro é direta, simples, bem humorada. Poderíamos dizer que é a voz do povo. E lá está o personagem Major Vidigal, uma espécie de chefe de polícia implacável naqueles tempos, que acabou dando nome ao Morro do Vidigal, aqui perto de onde moro.
Segundo nos conta Ruy Castro, o Maneco era um jornalista convicto, talvez o primeiro a dedicar-se em tempo integral à profissão. Havia estudado medicina, mas nunca praticou. Escreveu o seu livro no formato de folhetim, publicado como uma novela em capítulos semanais no jornal carioca Correio Mercantil.
O livro é daqueles que muitos falam, todos já ouviram falar, e poucos realmente leram o texto integral. Vale a pena ler.

(19 de junho de 2017, em homenagem a Lucílio Oscar Dias Vieira, no seu primeiro ano de falecimento)

O poema tem em seu início Abril é o mais cruel dos meses, sob o título de "O Enterro dos Mortos". Não, houve um engano. O mais cruel dos meses é mesmo maio.
Thomas Stearns Eliot, chamado simplesmente de Tom pelos amigos, Prêmio Nobel de Literatura de 1948, escreveu The Waste Land ("A Terra Desolada 1922", na tradução de Ivan Junqueira) quando tinha 34 anos. Nasceu nos Estados Unidos, em Saint Louis - MO, de uma família da Nova Inglaterra, mas viveu a maior parte de sua vida em Londres, para onde partiu ao início da Primeira Grande Guerra.
Teve uma vida pessoal muito conturbada. Quando foi para a Inglaterra deixou em Boston uma namorada, Hale, que se tornaria a eterna namorada até o final da vida dela. Mas, surpreendentemente, ele depois de algum tempo anunciou que se casara com uma inglesa chamada Vivienne. Esta, com sérios problemas de saúde, tornaria sua vida um inferno. Recusou-se a dar a ele o divórcio quando foi solicitada, e ele passou a viver solitariamente, escondendo o endereço onde morava. Depois que ela foi internada com problemas mentais, e passou assim alguns anos, ele nunca a visitou. Ainda fez algumas tentativas de reatar com sua antiga namorada americana, com quem trocou vasta correspondência, mas a proibiu em testamento de publicar qualquer das cartas praticamente enquanto fosse viva. Casou-se novamente aos 68 anos com outra inglesa, Valerie, e com ela viveu os últimos anos de sua vida.
Todos estes problemas pessoais, e mais uma profunda reflexão filosófica e religiosa, resultaram em alguns dos melhores poemas da língua inglesa.
(27 de maio de 2017)

No início do livro Armazém Colombo (em nossa livraria virtual), há esta citação:
"Abril é o mais cruel dos meses, germinando
Lilases da terra morta, misturando
Memória e desejo, avivando
Agônicas raízes com a chuva da primavera."
(T.S. Eliot, The Waste Land, 1922 - tradução de Ivan Junqueira)

Uma vez em Montevidéu apanhamos um táxi aleatoriamente e logo o motorista percebeu que éramos brasileiros. E disse que conhecia pouco do Brasil, mas acrescentou: "Hay una ciudad que me encanta, San Juan de Buena Vista." Eu respondi, surpreso: "Tá brincando? Vou para lá mês que vem."
Qual a probabilidade de um taxista, em Montevidéu, conhecer a cidade do interior do Estado de São Paulo chamada São João da Boa Vista? Todos concordarão que deveria ser zero. E de encontrar um brasileiro que não apenas conhecia, mas iria para SJBV no mês seguinte? Esta possibilidade, matematicamente, não existe.
Agora leio aqui no O Globo que SJBV encabeça as 50 melhores pequenas cidades brasileiras para se envelhecer. Concordo. Por lá passei diversas vezes, a primeira delas quando tinha seis ou sete anos de idade. Está relatado no livro  Armazém Colombo (em nossa Livraria Virtual). Depois tive o prazer de ser ciceroneado por Lourdes e Rogério, várias vezes, e de me hospedar na chácara paradisíaca que eles tinham nos arredores da cidade. Tive oportunidade de conhecer por dentro o fantástico Teatro Municipal, inaugurado em 1914, e agora totalmente restaurado, depois de uma fase de quase abandono. Já é uma tradição a "Semana Guiomar Novaes", em homenagem à grande pianista nascida em São João. Quando se espantam aqui onde moro com meu entusiasmo por SJBV respondo sempre que "lá sou amigo do rei".


(7 de maio de 2017)

Uma coisa deliciosa, para os que conhecem a cidade do Rio de Janeiro, é roubar ao smartphone, digamos, uma meia hora e ler algumas das Antiqualhas, escritas pelo Dr. Vieira Fazenda, lá por volta dos 1900. Já comentei aqui sobre a Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, e agora quero dizer alguma coisa sobre a nossa Rua da Carioca.
Tive acesso aos volumes digitalizados e disponibilizados por Halley Pacheco de Oliveira e Ana Cristina Güttler.
A Rua da Carioca antes chamou-se Rua do Piolho. Segundo Vieira Fazenda, ainda que o nome pudesse advir dos criadouros que existiam por ali no século XVIII, na realidade o nome provinha de um cidadão, morador da rua, e ativo batalhador de causas advocatícias. Por esta rua passou Tiradentes, no cortejo que o levou da Cadeia (onde hoje fica o prédio da Assembléia, na Rua Primeiro de Março) até o cadafalso, penso que foi colocado onde hoje é a Avenida Presidente Vargas, altura da Rua da Conceição mais ou menos.
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