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Cada um tem uma preferência. Eu prefiro a Bento Velho, de Conceição do Mato Dentro. Tio Alfredo prefere a Germana de Nova União, porque a cidade lembra de Joana. Antônio Augusto e Lucílio preferem a Seleta, de Salinas. E tem gente que ainda prefere a Canarinha, Vale Verde ou a famosa Havana. Mas o fato é que a cachaça, realmente, tem o espírito mineiro. Há muito tempo deixou de ser bebida de boteco, do Mercado Central, e se transformou em relíquia dos salões. E com isso, naturalmente, o preço foi lá para as alturas. Uma autêntica Havana, dos tempos de Anísio Santiago, vale uma fortuna. Pois foi a bibliófila Clarissa que foi encontrar este livro maravilhoso de José Lúcio Mendes e me deu de presente.  Diz o livro que as Terras Altas de Minas Gerais produzem, em seus quase nove mil alambiques, a mais apreciada cachaça do Brasil. Prestaram a atenção? Nove mil alambiques. Isto dá para abastecer todo o continente americano, e ninguém botar defeito. Tequila, rum, bourbon? Não dão nem para a saída. Eu e tio Alfredo só abrimos uma exceção para o Steinhager de Porto União - SC. Portanto, meus amigos, vamos beber cachaça, moderamente é certo, mas cachaça de Minas. Por favor. E logo no início do livro tem este texto de Alceu Amoroso Lima, que acho perfeito.
"Tudo em Minas se faz sem pressa. O tempo não conta. Fazem-se as coisas para permanecer, não para aparecer..."

(Livro "Cachaça o Espírito Mineiro", de José Lúcio Mendes Ferreira)
(21 de outubro de 2014)

Delacroix, 1844
Com esta frase forte, "o resto é silêncio", Hamlet, Príncipe da Dinamarca, encerra sua fala no texto dramático de William Shakespeare. Grabriela, que acaba de fazer dez anos, leu atentamente a peça Hamlet, destacou esta frase e afixou na parede do quarto. Como será que uma criança absorve e processa uma leitura tão complexa? Antes disso já acontecera uma discussão sobre o real significado do to be or not to be. Suponho que o mundo esteja ficando muito difícil para os avós, nascidos e criados no século XX, onde as coisas pareciam mais fáceis. Meu amigo Washington que o diga. Esta peça de William Shakespeare foi escrita por volta do ano 1600. Dizem os pesquisadores que ela se baseia em outra lenda do século XIII, e outras até mais antigas ainda. Quem quiser ler mais um pouco sobre as origens sugiro ir até a Wikipédia.
Mas Gabriela ficou sinceramente envolvida com a sorte de Ofélia (que ela pronuncia ofília no original), e acredita piamente na loucura de Hamlet. Muita coisa para a cabeça de uma menina de dez anos, penso eu. No meu tempo líamos apenas O Pato Donald.
(18 de outubro de 2014)

Passo pelo "Meia Lua", como é conhecido um edifício residencial na minha rua, todos os dias. É caminho obrigatório para que eu chegue até a minha casa. Agora mesmo em que escrevo, olho pela janela e o vejo, imponente. É um marco notável no bairro do Leblon. Nosso autor independente Washington Conceição, um verdadeiro talento de cronista descoberto na meia idade, volta a reunir crônicas de seu blog em livro, e adotou como título uma delas. Mas alerta logo. Em linha com a crescente onda de sustentabilidade, por enquanto só disponibilizou no formato eBook. Parabéns, Washington Luiz.
Segundo palavras do autor:
No ano passado, depois de quase dois anos de blog, resolvi fazer uma primeira seleção de crônicas e reuni-las em um livro, o “Crônicas Selecionadas 2012-2013”, publicado na versão impressa (distribuída pela Amazon.com) e na versão digital, disponível na Amazon.com.br e na Livraria Cultura.
Neste ano, resolvi repetir a dose, reunindo em outro livro as crônicas do blog publicadas de julho de 2013 a julho de 2014. 

Desta vez, consegui publicar as ilustrações das crônicas, em cores, como no blog. Para quem usa o Kindle Paperwhite, elas aparecem em preto e branco, em várias tonalidades de cinza.
Como não quero manter todas as crônicas na rede, indefinidamente, aquelas reunidas em livro são retiradas do blog. 
O Meia Lua pode ser encontrado na Amazon . E no Vale a pena ver, coluna da esquerda deste blog, você encontra a última crônica do Washington.
(7 de outubro de 2014)

Gallia est omnis divisa in partes tres, quarum unam incolunt Belgae, aliam Aquitani, tertiam qui ipsorum lingua Celtae, nostra Galli appellantur. Hi omnes lingua, institutis, legibus inter se differunt. Gallos ab Aquitanis Garumna flumen, a Belgis Matrona et Sequana dividit. Horum omnium fortissimi sunt Belgae, propterea quod a cultu atque humanitate provinciae longissime absunt, minimeque ad eos mercatores saepe commeant atque ea quae ad effeminandos animos pertinent important, proximique sunt Germanis, qui trans Rhenum incolunt, quibuscum continenter bellum gerunt. Qua de causa Helvetii quoque reliquos Gallos virtute praecedunt, quod fere cotidianis proeliis cum Germanis contendunt, cum aut suis finibus eos prohibent aut ipsi in eorum finibus bellum gerunt. Eorum una, pars, quam Gallos obtinere dictum est, initium capit a flumine Rhodano, continetur Garumna flumine, Oceano, finibus Belgarum, attingit etiam ab Sequanis et Helvetiis flumen Rhenum, vergit ad septentriones. Belgae ab extremis Galliae finibus oriuntur, pertinent ad inferiorem partem fluminis Rheni, spectant in septentrionem et orientem solem. Aquitania a Garumna flumine ad Pyrenaeos montes et eam partem Oceani quae est ad Hispaniam pertinent; spectat inter occasum solis et septentriones.

(Extraído do De Bello Gallico, Gaius Julius Caesar, 50 A.C.)
(14 de setembro de 2014)

Estamos comemorando cinquenta anos da primeira edição deste livro fantástico de Julio Cortázar, cujo título no Brasil é O Jogo da Amarelinha. Quem me lembrou disso foi meu amigo Paulo Roberto S. Nicolau, que andou comprando um exemplar para dar de presente a uma certa Gabriela. Logo depois que comecei a ler, entro para comprar um vinho e dou de cara com o chileno Rayuela. Coincidências não existem. O autor sugere que o leitor escolha uma entre várias formas de se ler o livro, todas elas igualmente válidas. O personagem principal, que segundo o próprio autor tem muito dele mesmo, recebeu o improvável nome, para um argentino, de Horácio Oliveira. O que nos faz pensar em algum brasileiro perdido em Paris nos anos 50. Aliás, o livro cita o Brasil, coisa que não me lembro de que Borges (a quem Cortázar é comparado) tenha feito alguma vez. Borges sempre manteve um solene desconhecimento da literatura brasileira, e mesmo de outros países da América do Sul, exceto o Uruguai. O livro não tem propriamente um roteiro. São os personagens, em suas ambiguidades, que dão o tom. Como Berthe Trépat, por exemplo. Tive dificuldade em identificar tantos nomes de escritores e artistas mencionados, dos quais nunca ouvi falar (pobre de mim).  São duas histórias paralelas. Uma em Paris e outra em Buenos Aires. Fala-nos de um círculo de amigos, quase todos em falta de dinheiro, e suas especulações metafísicas (Oliveira sempre fala dos rios metafísicos), filosóficas, psicanalíticas e artísticas. Durante a leitura, tive muita pena do pequeno Rocamadour, que já fora Carlos Francisco no Uruguai. Ele é filho da outra personagem principal, chamada Maga, que também já foi Lucía. Um clássico, não há a menor dúvida.
(Livro Rayuela, ou O Jogo da Amarelinha, ou O Jogo do Mundo, Julio Cortázar)
(9 de setembro de 2014)

"Como dizia o meu amigo Credidio Rosa, falecido no dia 6 de agosto, com aquele típico sotaque paulistano, vinho tem que ser bão. Eu acho que aprendi esta lição muito cedo, como se verá a seguir. Lá pelos anos cinquenta, em Minas, vinho era coisa para ocasiões muito especiais. Natal, batizados e aniversários dos donos da casa. Meu pai era filho de um português nascido às margens do Douro (possivelmente Cinfães), que aportou no Brasil aos dezesseis anos e acabou se radicando em Machado, Sul de Minas. Acho que ele deve ter transmitido alguma coisa da cultura vinícola ao filho, e este a nós.
Mas meu pai não ficou famoso na família propriamente pelo vinho que tomava só de vez em quando, mas porque se meteu a fabricar cerveja em casa. Sim senhor, mestre cervejeiro e professor. Cerveja artesanal como aquela feita pelos monges trapistas de Westvleteren na Bélgica, considerada uma das melhores do mundo. Eu não sei exatamente porque ou quem colocou esta ideia na cabeça dele, quando era tão mais fácil comprar a própria no Bar do Plínio. Ele reuniu apetrechos, levedos e fórmulas para a dita fabricação caseira, rolhas para arrolhar as garrafas, e arame para segurar o bicho. Já se vê que havia uma certa expectativa de grande fermentação. Talvez não apenas uma, mas duas ou três. Às vezes, quando penso nisso, cogito se ele não errou de página, como a (minha irmã) Verinha fez com um certo quibe, e andou lendo a receita seguinte que devia ser de como se fazer um bom espumante.
Elaborada a bebida, com grande ciência, e acompanhamento de toda a família, as garrafas eram cuidadosamente colocadas numa pequena adega que existia em minha casa, debaixo da escada para o segundo andar. Era o que bastava para que elas virassem rojões. Saía rolha, arame, garrafa, tudo pelos ares, como uma bomba. A vizinhança talvez pensasse que havia estourado mais uma revolução, daquelas em que o 12 RI ameaçava bombardear a cidade. Não, meu pai não era um anarquista, como o da Zelia Gattai. Era um intelectual, professor de línguas, que tinha apenas uma boa intenção de se tornar um mestre cervejeiro. O teto da copa lá de casa vivia manchado de jatos de cerveja.

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