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Eu faço pão em casa. Não é propriamente para concorrer com o pão do Zona Sul ou do Talho Capixaba, excelentes. É para ter o prazer, antiquíssimo, de amassar o  pão com as próprias mãos, colocar temperos e sabores inusitados, vê-lo crescer lentamente e, depois, sentir aquele cheirinho de pão sendo assado encher a casa onde moro. Uso a mesma técnica do Sourdough de San Francisco, que me leva ao famoso Boudin de Fisherman's Wharf. Sourdough é uma massa com fermento natural, que leva semanas para ficar no ponto. Segundo Fabi, amiga da Diana, eu virei "Carlos, le boulanger". Pode haver maior elogio?

Hoje, quando minha filha me perguntou que nome completo eu escolheria para a Lívia que vai nascer, fui buscar o excelente livro de Isabel Stilwell e recitei todos os nomes e sobrenomes de D. Maria II: Maria da Glória Joana Carlota Leopoldina da Cruz Francisca Xavier de Paula Isidora Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança.
Dona Maria da Glória, brasileira nascida no Paço de São Cristóvão, tornada rainha de Portugal aos sete anos de idade, era a filha mais velha do imperador D. Pedro I (D. Pedro IV de Portugal), e segundo a narrativa de Stilwell viu-se bem cedo envolvida nas trapalhadas do pai, e no sofrimento da mãe austríaca, sempre cercada de leais damas que ajudaram na sua formação. Ficou amiga de Vitória, a jovem herdeira do trono inglês, e as duas casaram-se com dois primos da casa de Saxe-Coburgo-Gota.
Como dizem meus amigos portugueses, eu gostei imenso deste livro. Isabel Stilwell, autora cujos livros vim a conhecer pelas mãos de Maria Fernanda, tem uma escrita deliciosa e cheia de pormenores. Fiquei com muita pena daquela menina rainha, que só aos 14 anos finalmente chegou a Lisboa, depois de uma luta tremenda. E, diz o livro, que ao chegar ao Tejo depois de passar pela França e pela Inglaterra, subitamente deu-lhe uma grande nostalgia da cidade do Rio de Janeiro. Morreu aos 34 anos.
(D. Maria II, Isabel Stilwell, ed. A esfera dos livros, 2012)

Álvaro Esteves

É curioso. Uma das produções mais premiadas este ano por seus efeitos visuais - inclusive o Oscar - não tem o ritmo frenético dos filmes de ação ou ficção, que costumam usar e abusar desses recursos.
O tempo custa a passar para o jovem Pi, o personagem central da trama. Náufrago, perdido no Oceano Pacífico na companhia de seus medos e de um tigre, Pi tem que fazer um esforço às vezes sobre-humano para fazer o tempo passar. É uma luta contra a monotonia, só quebrada pelos embates no interior do bote, nos inevitáveis enfrentamentos com o Richard Parker, o felino de nome tão desconcertante. Aí, o "bicho pega" (literalmente) e as cenas são de fato de arrepiar.
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Aharon Appelfeld escreveu este angustiante livro de memórias, publicado em Israel em 1999 e nos Estados Unidos há dez anos, como um verdadeiro resgate de sua luta pela vida. Ele fala de como um menino, de repente, ficou sozinho numa floresta da Romênia, vivendo como bicho assustado por dois anos, escondido dos nazistas que mataram sua mãe e levaram seu pai para um campo de extermínio.
Eu me lembrei dele novamente ao ver um menino de nove anos discorrendo com sabedoria sobre a vida e o universo em vídeo do Youtube. Uma coisa espantosa. Como sempre achei que esta é uma idade mágica, e disse isso ao início do livro Armazém Colombo, fui novamente constatar que esta era a idade de Appelfeld em 1941, quando se viu envolvido em uma guerra da qual não fazia nem ideia.
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Washington Conceição

Tenho a honra de ser vizinho de bairro do Sr. João Ubaldo Ribeiro. Sim, falo do imortal e o bairro é o Leblon, no Rio. Cumprimentamo-nos quando nos vemos na Dias Ferreira, rua simpática em cujos bares e restaurantes se encontram as pessoas do bairro, cariocas em geral (nativos ou adotivos) e turistas.
As crônicas do Ubaldo são, para mim, a maior atração dos jornais de domingo. Elas me agradam muito. Sempre me interessam e mostram sua competência como escritor; em especial, sua forma de encaminhar os assuntos. Divirto-me com os personagens de Itaparica, através dos quais ele discute assuntos sérios com a ironia que lhe é habitual, bem como com os diálogos no boteco do Leblon que tratam de assuntos atuais de nossa sociedade. Impressiona-me sua ironia fina, que beira ao sarcasmo quando comenta os malfeitos dos políticos e governos em geral. Contudo, mantém clara sua posição de cidadão que se preocupa com o que ocorre no Brasil.
Outra razão forte de eu gostar de ler suas crônicas é que, coincidentemente, os fatos que ele crítica também me desagradam. Sua maneira de ver as coisas é muito semelhante à minha e – acredito – a de muitas pessoas deste País. Ou seja, sinto-me brilhantemente representado nessas críticas.
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Comprei este livro há muitos anos, antes mesmo do chavismo, lá em Caracas. Gabriel García Márquez em sua obra de ficção antecipou a realidade. Os resultados das eleições venezuelanas divulgados ainda nesta madrugada, com uma vitória apertadíssima da situação, mostra um outro Bolívar em sua decadência física, mas com enorme reserva de força moral. O sonho bolivariano deveria se tornar realidade. Os povos andinos, nossos vizinhos com mais de 130 milhões de habitantes, merecem uma longa fase de paz e progresso. Esperemos para ver.

“Examinó el aposento con la clarividencia de sus vísperas, y por primera vez vio la verdad: la última cama prestada, el tocador de lástima cuyo turbio espejo de paciencia no lo volverá a repetir, el aguamanil de porcelana descarchada con el agua y la toalla y el jabón para otras manos, la prisa sin corazón del reloj octogonal desbocado hacia la cita ineluctable del 17 de diciembre a la una y siete minutos de su tarde final. Entonces cruzó los brazos contra el pecho y empezó a oír las voces radiantes de los esclavos cantando la salve de las seis en los trapiches, y vio por la ventana el diamante de Venus en el cielo que se iba para siempre, las nieves eternas, la enredadera nueva cuyas campánulas amarillas no vería florecer el sábado siguiente en la casa cerrada por el duelo, los últimos fulgores de la vida que nunca más, por los siglos de los siglos, volvería a repetirse”. (Gabriel García Márques, "El General en su laberinto")

O Colégio Arnaldo, de Belo Horizonte, comemorou cem anos em 2012. Passei em frente outro dia, descendo a avenida Brasil, e fiquei admirando o prédio restaurado e imediatamente comentei com quem estava ao lado como era possível construirmos estes autênticos monumentos que resistem ao tempo há cem anos, e hoje (em 2013) temos um estádio como o Engenhão, no Rio, interditado apenas cinco anos após inaugurado.
O Colégio Arnaldo não é apenas um ícone de Belo Horizonte, e por onde andaram personalidades do livro como Carlos Drummond de Andrade e Guimarães Rosa. Marcou toda uma geração de belorizontinos. Foi ali naquela capela neogótica que eu ia à missa aos domingos, ainda de calças curtas, e foi onde mandamos celebrar em 1988 uma outra missa muito dolorosa para nós. Este livro aí ao lado "Colégio Arnaldo - uma escola nos trópicos", de José Maria Cançado (que também escreveu uma biografia do poeta Drummond), foi editado por C/Arte, e conta muitas histórias do velho Colégio, desde o seu início. Eu me lembro muito bem das que os amigos contavam naquela época sobre o padre "Coqueiro" (padre Guilherme Gross), um implacável disciplinador. Paulo Mendes Campos cita em um de seus poemas o "imenso dedo do padre Coqueiro".
O Colégio Arnaldo lá está, ocupando todo um quarteirão, oficialmente na praça Doutor Lucas Machado (a quem conheci pessoalmente, sempre impecável). Ao lado daquelas mangueiras, para mim centenárias, da avenida Carandaí.

A Livraria Lello & Irmão está localizada na Rua das Carmelitas 144, cidade do Porto, Portugal. É uma das mais bonitas livrarias do mundo, em cuja lista deveríamos também incluir a Livraria da Vila, em São Paulo, e a El Ateneo, em Buenos Aires.
A Lello atual teve seu início por iniciativa de um francês, Ernesto Chardron, em 1869. Depois foi adquirida por José Pinto de Sousa Lello em 1881 e deu início à famosa Lello & Irmão, como é conhecida desde 1919. A Livraria é uma parada obrigatória para todos os que visitam o Porto (assim como tomar um café no Majestic e dar uma passada pelas Caves do Vinho do Porto, acrescento eu). A arquitetura e o interior da Livraria são esplêndidos, muito embora pareça um estreito edifício pelo lado de fora. São destaques os vitrais e a Ponte do Encanto, como se vê ao lado. Quem gosta de livros e livrarias tradicionais e nunca foi lá tem que conhecer.

Se não fosse o jovem governante da Coreia do Norte nos lembrar de que nunca houve um acordo formal para o fim da Guerra da Coreia (1950-1953) nós não saberíamos deste atual "estado de guerra".
O General Douglas MacArthur foi o comandante supremo das tropas da ONU em 1950 que tentaram acabar com esta divisão da Coreia entre uma Coreia comunista e outra não, em plena guerra fria. Quando MacArthur pediu permissão para atacar a China, que já então apoiava a Coreia do Norte, o Presidente Truman o destituiu do comando e encerrou uma das mais fascinantes e discutidas carreiras militares do século XX. Segundo uma velha canção do Exército americano, "old soldiers never die, they just fade away", citada por ele em sua despedida em West Point. O livro ao lado, de autoria de Geoffrey Perret, conta a história do controvertido MacArthur.

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