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Volto a falar de "Os Maias" de Eça de Queiroz. Aproveitei um tempo livre e reli, de enfiada como se diz, este delicioso romance. Para mim, uma fina crítica aos costumes da alta burguesia portuguesa do século XIX. As mulheres casadas eram disputadas a tapa, e correspondiam aos galanteios dos jovens frequentadores do Grêmio Literário, fundado em 1846, e da Casa Havaneza, no Chiado.

Carlos da Maia, formado em medicina, nunca aparece para exercer a profissão, exceto quando foi atender à Miss Sarah, e fica apaixonado por Maria Eduarda, que se dizia casada com o brasileiro Gomes. Para desespero de seu amigo Dâmaso, que se julgava com prioridades neste assédio.

Outro amigo de Carlos, o Ega, que mora por uns tempos no Ramalhete, na Rua de São Francisco de Paula, é fascinado por Raquel, mulher do Cohen.

A mulher de um ministro, a Gouvarinho, é desesperadamente louca pelo Carlos, que faz uma opção pela linda Maria Eduarda. E Miss Sarah, a inglesa pudica preceptora de Rosa, filha de Maria Eduarda, é flagrada aos gritinhos no jardim tendo uma relação com alguém da vizinhança nos Olivais.

A mãe de Carlos, Maria Monforte, em tempos anteriores à história do livro abandonou o marido Pedro da Maia, e o filho pequeno, e se mandou para Paris com um amante.

O livro é fascinante. Espero que me perdoem os queirosianos fanáticos, por estes comentários tão rasteiros. E me esqueci de mencionar o avô de Carlinhos, o senhor Afonso da Maia, respeitável representante da classe mais rica e nobre de Portugal, que tem um fim trágico nos jardins do Ramalhete.

Repito aqui aquela frase inscrita no monumento a Eça de Queiroz, no Largo do Barão de Quintela, em Lisboa.
"Sobre a nudez forte da Verdade o manto diáfano da fantasia"

(1 de agosto de 2018)

Veja também aqui no blog:
Era Lisboa, e chovia
Cheira bem, cheira a Lisboa
A Tragédia da Rua das Flores

O nosso estimado Professor Amadeu Marques avisa a seus amigos que estará ausente do almoço da Confraria por um motivo justo. Vai estar no dia 3 de agosto na Bienal em São Paulo para o lançamento de seu livro  A felicidade, o que é?, edição da Chiado Books. (Ah, o Chiado de tantas lembranças, aproveite e veja aqui no blog umas dicas de Lisboa). E no dia 18 lá mesmo em Lisboa, para o lançamento deste livro.
Amadeu é um infatigável professor de inglês, alfacinha que veio para o Brasil aos treze anos de idade e autor de muitos livros, inclusive de um excelente dicionário que mantenho sempre ao alcance da mão. Este livro ao lado (ou acima) foi escrito para jovens, como ele mesmo explica, dos 8 aos 80 anos.
Mas o que é a felicidade? Retiramos da sinopse do livro:
Faça essa pergunta a uma dúzia de pessoas, receberá uma dúzia de respostas diferentes. Aos olhos de muita gente, ser feliz é sinônimo de estar bem de vida. Para outras, certamente mais sábias, é estar de bem com a vida. É assim que pensa Tico, o personagem em destaque nesta história. Aos olhos de Tico, um jovem não exatamente como outro qualquer, há uma resposta simples e ao alcance de todos. Qual será?
(29 de julho de 2018)

Os autores dizem que não gostam de ler seus próprios livros. Eu entendo perfeitamente. Depois de algum tempo sem voltar ao livro "Maria Pia et cetera", peguei por acaso um exemplar na estante e comecei a reler. Claro, faria muitas modificações. Mas notei algumas coisas interessantes, como se não tivesse nada a ver com aquilo. O livro fala, principalmente, das mulheres. A começar pelo título, inspirado por Corina. Diz a chamada da contracapa:

"Maria Pia era menina-moça na Vila Real de Nossa Senhora da Conceição do Sabará, em pleno século XVIII. Alice andava pelo País das Maravilhas. Anna saltitava pelo bairro do Rio Comprido, no Rio de Janeiro, para desespero de Hans. Maria da Glória foi rainha aos sete anos de idade. Camila pensou em morar em Lisboa na Rua das Janelas Verdes. Isolda chorava por Tristão. Amalita era amada por Guignard e parece que nunca soube disso. Catarina dizia, e ninguém acreditava, que ela tinha caído no valão de Bonsucesso."

E quais histórias me agradaram mais (são 47 ao todo)? Acho que me emociono ainda hoje com o "O menino que gostava de cavalos" e com "Zócalo". É preciso dizer que, com relação a esta última, presenciei, de passagem e há muitos anos, uma manifestação com nádegas de fora em pleno Paseo de la Reforma, na Cidade do México. É onde a ficção encontra-se com a realidade.

Este livro participa da promoção da Smashwords durante todo o mês de julho de 2018, na versão eBook. Download gratuito. Aproveite.

(16 de julho de 2018)

Penso que eu nunca havia lido este livro. Assisti ao filme há muitos anos, mas o livro acho que nunca cheguei a ler. Fazendo uma arrumação aqui em casa, de repente ele me apareceu entre outros e fui tomado pela curiosidade. De início fiquei chocado. Pareceu-me um verdadeiro manual do pedófilo, escrito há mais de 60 anos (a primeira edição é de 1955). Depois fui constatando a grande engenhosidade descritiva de Nabokov, e admirei a sua coragem por escrever uma obra destinada a ser sobretudo polêmica ao longo de décadas. Mas, primeiro, queria dizer que o livro é muito bem escrito. Qualquer um pode perceber. Depois, me espanta como um estrangeiro nascido de família abastada em São Petersburgo foi capaz de captar tão bem o espírito da classe média americana. Achei notável o diálogo de Humbert, melhor dizendo a reprodução do diálogo porque o livro é quase inteiramente na primeira pessoa, com a diretora da escola de Beardsley, a senhora Pratt. Dolores, a Lolita do personagem Humbert Humbert, é uma menina terrivelmente esperta e calculista, de treze ou quatorze anos. Ele um homem de meia idade, talvez ali pelos quarenta anos, obcecado com garotinhas. Chega a casar-se com a mãe dela, uma viúva, apenas para ter mais chance de proximidade com a garota. A mãe morre atropelada, e Humbert inicia uma longa viagem pela América com Lolita, hospedando-se nos mais variados motéis e pousadas.
O autor conta em nota ao final do livro (desta edição que tenho em mãos) que este foi inicialmente rejeitado por quatro diferentes editoras americanas. Acharam insuportável o tema, e alguns editores confessaram não terem sequer chegado ao final da leitura. Isto na década de 50 do século XX. Imagino que hoje o autor estaria encarcerado. A primeira edição aconteceu em Paris. O livro é considerado atualmente uma das 50 melhores obras da literatura universal. Não é pouca coisa.
Um último detalhe curioso. Vladimir Nabokov escreveu este livro em inglês, língua que aprendeu ainda em criança, antes de escrever e ler em russo.

(21 de maio de 2018, o mais cruel dos meses para mim)

Benedito Valadares foi interventor e governador de Minas Gerais. Natural de Pará de Minas, lá fez sua carreira política, sem maiores ambições. Quando faleceu o então governador do Estado de Minas (dizia-se Presidente do Estado) em 1933, Olegário Maciel, as forças políticas se movimentaram para que fosse indicado como interventor Virgílio de Melo Franco, irmão de Afonso Arinos. Era apoiado pelos gaúchos e pelos mineiros. Mas existiam outros fortes candidatos, como Gustavo Capanema, por exemplo. Ocorre que Benedito, então um desconhecido deputado federal (hoje seria algo como pertencente ao baixo clero), pediu uma audiência ao Presidente Getúlio Vargas, dizem que em busca de um emprego público, porque andava muito mal das finanças. Naquele tempo deputado podia ser pobre.

Contou Juscelino, em depoimento ao CPDOC da FGV (registrado no livro Getúlio uma história oral, coordenado por Valentina da Rocha Lima), que Getúlio depois de perguntar-lhe pelos políticos mineiros, indagou o que ele achava dele mesmo. Benedito resumiu dizendo que não era propriamente um homem culto, mas era leal aos amigos. Getúlio então disse-lhe, sem mais essa nem aquela, que iria nomeá-lo interventor, mas não contasse a ninguém, nem à sua mulher. Prossegue Juscelino no seu depoimento que Benedito ao chegar em casa foi logo dizendo à dona Odete que seria o novo interventor em Minas. Dona Odete teria lhe dito "Benedito, eu sempre lhe disse que você não deveria beber..." Pano rápido, como diria Millôr Fernandes.

Benedito Valadares foi interventor e governador de Minas Gerais de 1933 a 1945. Emprestou o nome à cidade mineira de Governador Valadares. Dizem, também, que ele gostava de tomar uma Providência (lá de Buenópolis, perto de  Bocaiuva, terra adotiva de meu saudoso irmão Lucílio).

Pois bem, não é que Benedito Valadares escreve um romance denso, agradabilíssimo, com capítulos curtos e uma linguagem muito acessível? As más línguas dizem que o verdadeiro autor do romance Esperidião (tenho aqui uma cópia autografada, edição de 1951) foi Cyro dos Anjos, aclamado escritor mineiro, autor do famoso livro O Amanuense Belmiro (de 1937), romance que exalta a cidade de Belo Horizonte. Eu não sei, só sei que o livro de Benedito é muito gostoso de se ler. Conta a história de um político mineiro dos bons tempos, matreiro. Em um dos últimos capítulos, a propósito de uma escultura projetada por um italiano para a prefeitura de Belo Horizonte, é sugerido que seja a estátua do mineiro nu, que deve simbolizar Minas, na sua pureza de intenções. Envolto, apenas, na bandeira nacional. Bons tempos...

(10 de maio de 2018)

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