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A vida nacional, neste início de setembro, anda tão esquisita que resolvi reler o primeiro livro do Ciclo Vargas de Helio Silva. O Presidente Epitácio Pessoa defrontou-se com uma revolta iniciada no Forte de Copacabana, seguida pela adesão da Escola Militar do Realengo, em torno da figura carismática do Marechal Hermes da Fonseca, ex-Presidente da República. Esta era uma época em que se apontavam os poderosos canhões do Forte em direção ao centro da cidade e abria-se fogo mesmo. Tudo começou com uma profunda insatisfação do Clube Militar pela divulgação de duas cartas, supostamente escritas pelo presidente Artur Bernardes, de Minas Gerais, criticando os militares. Artur Bernardes era um assumido candidato a ocupar o Palácio do Catete, o que realmente aconteceu. Estas cartas foram analisadas por uma comissão e julgadas autênticas. Mas eram falsas, como confessou muito depois, arrependido, o autor da façanha. Isto foi o estopim para uma mocidade militar insatisfeita com os rumos da República naqueles anos 20. Os chamados 18 do Forte, que não eram 18, marcharam pela Avenida Atlântica e foram recebidos à bala pelas forças legalistas, na altura da hoje Rua Siqueira Campos, onde existe uma bela estátua comemorativa. Alguns tombaram mortalmente feridos, outros sobreviveram, como foi o caso de Eduardo Gomes e Siqueira Campos. Entre os que morreram ali estava um civil, Otávio Correia, que aderiu (de terno e chapéu) quando os moços começaram a caminhada. Outros tempos, quando a República motivava gestos extremos na defesa de princípios e crenças.
(1 de setembro de 2015)

Este livro, publicado pela primeira vez na França em 1958 e nos Estados Unidos em 1986, com o subtítulo Uma introdução aos manuscritos gnósticos coptas descobertos em Chenoboskion, é considerado até hoje a obra mais importante já escrita sobre os textos gnósticos dos primeiros séculos da era cristã. O autor, Jean Doresse, foi um historiador e profundo conhecedor da língua copta, falada e escrita no Egito principalmente nos séculos III e IV. Hoje ela é praticamente uma língua morta, apenas encontrada em textos litúrgicos da Igreja Ortodoxa Copta.
As chamadas seitas gnósticas foram conhecidas até o século XX quase que apenas pelas referências feitas a elas pelos autores da contestação das heresias reunida na Philosophumena, atribuída a alguns dos Padres da Igreja como Hipólito, Orígenes, Irineu e Eusébio, entre outros. Eram conhecidos também alguns poucos códices e fragmentos de pergaminhos, e algumas idéias, consideradas exóticas (ou heréticas) que versavam principalmente sobre a cosmogonia, os descendentes de Seth (o terceiro filho de Adão e Eva), o dilúvio, e a oposição de duas divindades: a de luz (a do mundo não corpóreo) e da escuridão (do mundo material).
A descoberta em 1945, quase por acaso, de um conjunto de obras deste período, transcritas possivelmente do grego para a língua copta, enterradas perto da aldeia egípcia de Nag Hammadi (conhecida na antiguidade como Chenoboskian), permitiu aos estudiosos ter contato, pela primeira vez, com textos completos de obras apenas conhecidas por citações e condenações. Jean Doresse participou ativamente da identificação e tradução dos textos. Estes mostraram que o gnosticismo, antes considerado apenas uma heresia cristã, tinha raízes mais antigas, principalmente no zoroastrismo persa e no hermetismo. Na realidade alguns gnósticos incorporaram imagens cristãs e judaicas às visões já existentes muito antes do nascimento de Jesus.
O livro de Jean Doresse faz um detalhado comentário dos textos encontrados, e nos ajuda a situar o pensamento gnóstico dentro das controvérsias dos primeiros séculos do cristianismo. Não é um livro religioso. É uma obra quase acadêmica sobre os textos, escrita num linguajar acessível, muito embora as idéias gnósticas, estas sim, nos pareçam de difícil entendimento. Para a leitura integral da biblioteca de Nag Hammadi será preciso buscar outras fontes. Pela sua importância apenas um texto é reproduzido totalmente no anexo: o Evangelho de Tomé (apócrifo).
(17 de agosto de 2015)

Alphonse Daudet, autor deste livro, viveu no século XIX e nos legou este extraordinário Cartas do Meu Moinho, com adaptação para o português do Brasil de Paulo Mendes Campos (na edição da editora Scipione). Aliás, ao lermos a frase "quentando ao sol", referindo-se a um gato magro, nota-se que alguém aqui nasceu em Minas e não foi Daudet. Este livro é uma preciosidade que todos os jovens e velhos deveriam ler, porque ajuda-nos a enfrentar com estoicismo a agoniada travessia de 2015 neste país em que vivemos. É pura poesia. Faz bem para a alma, como um bom vinho. Segundo meu amigo Bruno Bianchi, nascido e criado em Marseille,  o livro todo transpira o cheiro da Provence. Eu o li pela primeira vez, há muitos anos, na biblioteca da Ilha de Villegagnon, no Rio de Janeiro (como dizia o Otávio "dos píncaros augustos da Mantiqueira para a não menos famosa Villegagnon"). O cheiro era do mar.

Na introdução, contando que comprou um velho moinho de vento desativado há mais de vinte anos, o autor (ou personagem) diz "Dobrei e guardei o documento, sorrindo de pura satisfação pelo bom negócio, para espanto de outros passageiros. Certamente me tomaram por louco ou poeta..."
São histórias, pequenos contos e crônicas, que falam da vida simples do campo, e dos personagens que fazem parte deste cenário. Os moleiros, as cabras, o elixir do padre Canhoto, a mula do Papa. Como se sabe, em certa época da cristandade, o Papa morava em Avignon, e não em Roma. E Avignon fica na Provence. Seriam relatos escritos para os amigos em Paris, dando conta da vida tão diferente que o autor estaria experimentando. Talvez, a seu tempo, algo como tem feito nosso amigo Washington Conceição. Pena que esta edição brasileira seja apenas um apanhado, não contemplando a totalidade do original. Mas em contrapartida podemos nos deleitar com a adaptação feita por um Paulo Mendes Campos.
Hoje em dia é possível até visitar este moinho fictício, sim porque dizem que o autor nunca morou em moinho algum, em Saint-Alban-Auriolles. É o Museé Alphonse Daudet, montado na propriedade que pertenceu aos avós dele.
(1 de agosto de 2015)

Mês de julho é mês de muita festa em Campos do Jordão. Pois foi em um destes julhos, com direito a Festival de Inverno (este ano já na 46ª edição) e longas tardes no Baden Baden, que ficamos hospedados no hotel Leão da Montanha, na boa companhia de Lin e Ísis.  E foi lá que comprei o livro do senhor Arie Yaari, falecido em agosto de 2010, em Taubaté. Este livro faz parte da literatura do holocausto. Conta a saga de um jovem, nascido na Polônia em 1922, que passou por onze campos de trabalho forçado durante a Segunda Guerra Mundial, e acabou imigrando para o Brasil, depois de lutar nas guerras da Palestina. É o depoimento impressionante da luta pela vida, assim como também li, emocionado, o livro de Aharon Applefeld, um menino de nove anos que vagou sozinho por dois anos nas florestas da Romênia fugindo dos nazistas.
Arie Yaari, que teve muitas atividades profissionais em São Paulo, acabou construindo o Hotel Leão da Montanha há trinta e cinco anos. Mais tarde foi morar em Taubaté.
Tudo isso me veio à memória, depois que acabei de ler ontem o livro de Amós Oz, "A caixa-preta". Uma coisa puxa a outra. O livro de Yaari foi impresso em 2005, e de Oz em 2007 (as edições que possuo).
(16 de julho de 2015)

Lendo o último e excelente livro de Washington Conceição, A Califórnia e Nós, em que o autor dá prosseguimento às suas memórias, lembrei-me com certa nostalgia do Norman Rockwell country, na Costa Leste dos Estados Unidos, que conheci de perto em certa época. Lembrei-me de que eu era ainda um menino e corria para ler na biblioteca Thomas Jefferson o último exemplar do Saturday Evening Post, cujas capas eram sempre produzidas por Norman Rockwell, para mim a quintessência do artista e ilustrador americano. Lá em Stockbridge, Massachusetts, numa concessão ao menino que fui um dia, visitei o Museu Norman Rockwell, ainda instalado na casa de esquina da Main Street onde penso que morou e trabalhou o artista. Hoje o museu mudou de lugar, para instalações modernas, permitindo que o acervo possa ser visto de forma mais amigável, digamos assim, pelo visitante. Ali perto, caminhando, passei pela The Red Lion Inn, uma das mais antigas pousadas em operação ininterrupta nos Estados Unidos (mais de 200 anos), retratada magistralmente por ele.
Norman Rockwell nasceu em New York, morou em New Rochelle, NY, mas um dia mudou-se para Stockbridge, e de lá produziu suas obras durante 25 anos.
Quem quiser poderá ver aqui alguns trabalhos do artista Norman Rockwell.
(30 de junho de 2015)

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