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Nunca me esquecerei daquele Domingo de Páscoa em São Pedro do Estoril, Portugal, quando o doutor Juvenal Salada, que me contava sobre seus anos de clínica em Salvaterra de Magos, levantou-se subitamente, foi até um cofre enorme que mantinha na sala da casa onde estávamos conversando, retirou dos guardados um cartão com esta figura aí ao lado (que suponho ele tenha conservado por uns vinte anos) e me entregou dizendo "isto é para si". Esta é uma reprodução da famosa última corrida de touros em Salvaterra de Magos, no reinado de D. José I, e que mostra o Marquês de Marialva matando o touro que acabara de matar seu filho. De certa forma uma premonição, porque eu também perderia meu único filho poucos anos depois, em circunstâncias trágicas. Guardo este cartão comigo até hoje, passados quase trinta anos. Aquela foi a última corrida de touros em Salvaterra, porque imediatamente o Marquês de Pombal interferiu junto a El-Rei para que nunca mais houvesse outra ali. Existe um famoso conto do escritor português Rebelo da Silva que descreve com cores fortes todo o drama daquele dia. (20 de abril de 2014)

Em 1803 foram encontrados em um mosteiro da Alta Baviera alguns manuscritos datados do século XIII que continham diversos poemas satíricos, em sua maioria, mas também eróticos e naturalistas, compondo um cancioneiro de diversas origens, mas com músicas muito difíceis de serem interpretadas. O mosteiro chama-se Kloster Benediktbeuern, hoje uma abadia salesiana, perto de Munique. Em 1937 o maestro alemão Carl Orff escolheu um certo número destas canções e compôs a linha melódica, baseando-se nas tradições medievais e algo inspirado no Canto Gregoriano. Os poemas ou canções estavam escritos em latim na sua maioria, mas havia também alguns em francês antigo (língua frâncica) e alemão medieval. Esta obra recebeu o título de Carmina Burana (nome latino significando Canções de Bura), uma referência às canções do mosteiro de Beuern (Bura em latim). Virou uma das peças de música clássica mais executadas no mundo todo. Retiramos o seguinte trecho de uma das canções, exatamente a que fala da Fortuna (Destino).



"Ó fortuna
És como a Lua
Mutável,
Sempre aumentas
Ou diminuis;
A detestável vida
Ora oprime
E ora cura
Para brincar com a mente;
Miséria,
Poder,
Ela os funde como gelo."

Considero a Elvira Vigna um(a) dos(das) mais importantes escritores(as) brasileiros(as) contemporâneos(as) (e, de quebra, uma premiada ilustradora e uma ótima pintora). Mais uma vez, Super Elvira se supera. Sensacional, o seu ultimo trabalho, Vitória Valentina (Editora Lamparina) , também sua primeira graphic novel, que acabo de ler/”ver”. Como sempre, na obra da Elvira, aqui nada é óbvio, nada é banal, nada é gratuito, nada é xôxo, nesta trama contada por texto e imagens. Palavras, desenhos, formas e texturas que se integram e se locupletam para CRIAR uma linguagem narrativa muito original e sempre surpreendente. Que sequestrou minha atenção (mesmo com blocos carnavalescos passando há dois quarteirões daqui), contando uma história rascante, mas muito gostosa de seguir, nos seus meandros sinuosos.
(Álvaro Esteves)

Este livro, de autoria do professor José Arthur Rios, é repleto de magia. Em especial o capítulo "Encantos e Desencantos", com a explicação minuciosa do que seja o "encantamento", cujas experiências pessoais remontam à nossa infância. Segundo o autor, "Os contos, ditos infantis, constituem domínio próprio do maravilhoso. Neles não há propriamente milagres, intervenção do sobrenatural na vida terrena, não há presença de santos, mas de entes fantásticos, fadas, bruxos ou duendes que tanto encantam como desencantam, indiscriminadamente, os seres terrenos - sem levar em conta necessariamente a natureza moral de seus atos, vícios ou virtudes."
Eu conheço um menino, por nome Bento, que está nesta fase. E me lembro de que eu próprio vivi assim, como em um sonho.
O Prof. José Arthur Rios tem uma erudição que também encanta qualquer leitor. Cita com naturalidade Câmara Cascudo, Shakespeare, Gilberto Freire, Murilo Mendes, Fernando Pessoa, e muitos outros artífices da palavra escrita. Vale a pena lê-lo.
(Objetos não são Coisas, José Arthur Rios, 2013)

Lendo as "Antiqualhas" do Dr. José Vieira Fazenda, notável cronista das coisas do Rio de Janeiro na época do Império e começo da República, fiquei sabendo que ali no que chamamos de Cinelândia, entre as ruas Evaristo da Veiga e do Passeio, ficava o impressionante Convento da Ajuda, onde foi sepultada D. Maria I, Rainha de Portugal. Exatamente na Rua da Ajuda, que não existe mais (sobrou apenas um pequeno trecho, entre Rio Branco e Nilo Peçanha, e onde fica a Leiteria Mineira, que muito frequentei no passado). O convento foi terminado de construir em 1750, e demolido em 1911, porque não combinava com o novo estilo projetado por Pereira Passos para o centro do Rio de Janeiro. Na foto ao lado pode-se ver a nova Avenida Central, depois Avenida Rio Branco, e a Biblioteca Nacional em construção, em frente ao prédio do convento. No pátio interno havia um chafariz, chamado das Saracuras, projetado por Mestre Valentim, e que era utilizado pelas freiras também para lavagem de roupas. Com a demolição do prédio do convento, o chafariz foi transferido de local, e hoje pode ser visto na Praça General Osório, em Ipanema. Vão me dizer que sabiam disso tudo?
O livro "Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro", de José Vieira Fazenda, pode ser visto no site Rememorator.

O título original deste livro de enorme sucesso no mundo todo, de autoria do sueco Jonas Jonasson, fala de um senhor de 100 anos de idade. Não apenas um ancião, mas um em especial que antes da comemoração de seus 100 anos, em uma casa de repouso, com a presença do prefeito e da imprensa, resolve pular a janela e desaparecer no mundo. E aí ficamos sabendo de toda a vida pregressa, de seus encontros com Truman, Stalin, Franco, Mao Tse Tung, madame Chiang Kai-shek, Lyndon Johnson, De Gaulle, Kim II-sung, e outros. Das pessoas que conheço atualmente só uma seria capaz de todas estas proezas: meu amigo Washington, quando completar os 100 anos de idade. O livro é uma grande gozação. Uma fina crítica aos costumes suecos e a toda a história recente do mundo ocidental. Fez-me lembrar um livro que li na infância, "As aventuras do Barão de Münchhausen". E, no final, a gente conclui que viver cem anos não é tanto assim, que beber muita vodca faz bem, e que a vida passa rápida demais.

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