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AS NOTÍCIAS QUE NOS CHEGAM PELO
 RÁDIO, vindas de Montevidéu, deixaram-nos muito preocupados. O Admiral Graf Spee atracou para reparos, e os navios ingleses ficaram ao largo, de tocaia, esperando a sua saída. Agora o encouraçado de bolso alemão, como o chamam os jornais, terá que romper seu caminho em nítida desvantagem. Nós todos passamos uma boa parte da noite ouvindo as rádios alemãs, mas parece que é isso mesmo. Eu considero o comandante Langsdorff um herói. Aqui, na Rua Azevedo Lima, não posso comentar com ninguém, meu pai proibiu. Somos e não somos alemães. Eu nasci no Brasil, mas sempre me considerei alemão. Não é assim mesmo que os meninos me chamavam na escola e na rua?

Nasci no bairro do Rio Comprido, perto da Rua Dona Cecília, no Frauenheim. Parteiras alemãs de mãos enormes, poucos sorrisos, mas eficientíssimas. Talvez por isso mesmo eu tenha nascido tão rápido, e tenha querido voltar subitamente para o útero materno, ao perceber o novo e hostil mundo que me esperava. Contaram-me, depois, que berrei como louco, e as alemãs sorriram em aprovação. Minha mãe, que fazia parte da Deutscher Frauenverein, sentia-se como que em casa. Eu não. 


Meus pais escolheram para mim um nome tipicamente alemão: Hans-Jörg Botte, registrado no Consulado. Homenagem a um tio-avô do meu pai, lá na velha Prússia. Em criança fui Hans, porque era mais fácil para todo mundo entender. Mas desde muito cedo fui chamado pela vizinhança apenas de Alemão e sempre me conformei com isso.

“Deixa de ser um menino bobo”, me dizia Anna, quando a conheci.

“Eu, bobo? Não sei por quê.” E corria atrás dela, ela dando uns gritinhos.

“Você não me pega, menino bobo.”

Aqueles seios, redondos e empinados, pareciam dar-lhe asas e me fascinavam. Ela sempre conseguia atravessar a Avenida Paulo de Frontin antes de mim e se perdia em algum canto. Uma vez, me disse: “Alemão, você já foi visitar a Alemanha? Dizem que é um país muito bonito.” Eu pensei: “Levanta a saia, Anna, e deixa eu ver suas pernas.” Não queria saber de Alemanha, queria saber era de Anna, esta sim, para mim um país bonito, muito bonito. Cheio de vales, florestas negras e mistérios.

Minha mãe passa o dia agarrada ao rádio. É a Rádio Nacional o tempo todo. Meu pai, em ondas curtas, uma rádio alemã. Continuamos querendo saber o que vai acontecer com o Graf Spee. Eu aposto que o capitão Langsdorff vai abrir fogo direto na saída do porto de Montevidéu. Eu faria isso. Logo pegando o Ajax pela proa. “Hans, presta atençón, meu filho. São três navios de guerra ingleses. O Graf Spee não vai ter chance nenhuma. Vai morrer todo mundo.” Isto me deixa muito triste. É claro que na minha casa todos estamos torcendo pelos alemães. Eu acho que ele pode romper o cerco lutando.

O Graf Spee é um encouraçado ligeiro, dizem de bolso, muito ágil. É o produto da criatividade e da engenharia da nova Alemanha. Meu pai sempre me diz que nós, os alemães, somos engenheiros. Nada de ficar pensando em poesia. Eu vou estudar engenharia, ele já determinou, quem sabe lá na Alemanha. Se for assim, quero ser um novo Werner Heisenberg, Prêmio Nobel de 1932.

“Você trate primeiro de estudar”, diz minha mãe. “E o Prêmio Nobel dele foi de Física, pela contribuição para a Física Quântica. Você vai ser engenheiro, projetar e construir grandes máquinas, automóveis, aviões. Vai ficar muito famoso e talvez nem mais se lembre do Rio Comprido.”

Minha mãe é muito culta, vive lendo algum livro. E também recebe revistas alemãs pelo correio, está sempre bem informada. Eu, imediatamente, pensei que jamais poderia me esquecer de Anna, aquela menina travessa que passei a conhecer e que vivia saltitando pelo Largo, me deixando excitado. Mas seria bom mesmo estudar na Alemanha, aquela que havia deixado para trás a pobreza e a fome, depois da Guerra de 1914 a 1918, e que fizeram meus pais emigrarem. Sim, a nossa terra é a Alemanha. Deutschland Über Alles.

Os ingleses são uns chatos. Parecem todos donos do mundo.

“São nossos primos, Hans”, diz meu pai.

“Sabia que o Kaiser era o neto mais velho da Rainha Vitória?” Eu nem sabia disso. Para mim o Kaiser é alemão, não sabia que era inglês. Deus me livre.

“Ele é alemão, mas a mãe dele era inglesa”, responde meu pai.

“Você precisa conhecer mais da nossa História. Nós seremos agora os novos senhores do mundo, não os ingleses.” Eu só quero ser dono da Anna, o mundo pode ficar para quem quiser, até para os ingleses do Ajax, Achilles e Exeter, estes navios persistentes que teimam em pegar o capitão Langsdorff. Ela poderia muito bem viver na Alemanha comigo, algum dia. Eu prefiro viver na região da Pomerânia, onde naceram meus pais, avós, tios e bisavós. Meu pai, só para me contrariar, diz que eu devo ir para Berlim, onde a universidade é muito conceituada. Eu não sei como. Meu pai vive trabalhando para sustentar a casa e pagar as contas. Imagino que seja caro viver na Alemanha, apesar de todo o progresso dos últimos anos que escuto meus pais falarem.

Eu pensei que fôssemos ter um Natal de paz. Mas agora esta história do Graf Spee veio perturbar a minha festa. As notícias da Europa, com a Alemanha invadindo a Polônia, e a declaração de guerra da Inglaterra e França, já azedaram o clima na minha casa. Meus pais estão muito apreensivos, principalmente pela nossa família na Alemanha. Estou de férias, mas é como se não estivesse. Todo dia me mandam fazer alguma coisa.

“Vai lá na Rua Costa Ferraz buscar uma bacia de carambola”, comanda minha mãe. Bacia de carambola para quê, meu Deus?

“Para enfeitar a salada e fazer suco.” Ela parece ler meus pensamentos.

Vou, mas antes passo na casa do Alexandrino. Eles são italianos, e se dão bem com os alemães. Nem comentam muito sobre o Duce, mas estão também apreensivos com esta história que ele inventou de conquistar a Abissínia. Já teve a Líbia, a Albânia. Depois virá o Egito? Eu não entendo nada disso, mas o que tem a África de tão interessante para o Duce? Diz o meu pai que ele deve ter arranjado uma amante em Trípoli. Eu o chamo de Mussolini, mas eles dizem, com grande respeito, Il Duce.

Acho uma grande confusão esta história de fascismo e nazismo. Alexandrino me disse, outro dia, que o fascismo nasceu na Itália, e que o Führer só copiou os italianos. Eu acho que disse isso só para me provocar. Agora todo mundo acompanha o que se passa na Europa, e os alemães estão na ordem do dia.

A casa da Costa Ferraz é enorme, com um grande espaço nos fundos, onde tem um galinheiro. O pé de carambola fica ao lado da cozinha. Quando chego, uma das meninas já está com a bacia quase cheia, e me diz: “Estão ótimas este ano, experimenta uma.” Eu agradeço, digo que minha mãe vai precisar de todas, mas finalmente cedo aos apelos, e como a que me parece a mais madura. A menina me olha. Pede para pegar no meu cabelo louro, e eu sorrio. Estas meninas ficam muito presas aqui nessa casa enorme, cheia de mulheres. Ela passa suavemente a mão pelos meus cabelos, enquanto eu termino de comer a carambola. Outra menina mais velha chega na porta e olha para ela com um ar de reprovação.

“Termina logo de encher a bacia.” Ela se assusta um pouco, recolhe rápido a mão da minha cabeça e retoma a tarefa de apanhar carambolas. Eu me divirto. Esta casa é muito grande, muito maior do que a que moramos lá na Azevedo Lima. Eles não são alemães, parecem mais portugueses, mas meu pai conhece alguém de origem alemã que frequenta esta casa, foi assim que conhecemos a família.

“Não quer entrar um pouco, antes de subir a rua?”, me pergunta a menina. Faço um aceno de cabeça, concordando. Entro pela cozinha, e chego até a sala de almoço, no centro da casa, para a qual dão os quartos e a sala de visitas. A mãe, uma senhora de baixa estatura e cara enérgica, me cumprimenta com simpatia e pergunta pelos meus pais. Está de avental, sinal de que a atividade da casa vai a meio caminho.

“Oferece a ele um pedaço de bolo.”

“Não senhora, obrigado, acabei de comer carambola.”

“Não pode comer muito, cuidado, ataca os rins.”

A menina me pega pelas mãos e me leva para uma varanda lateral e me convida para sentar, enquanto as outras vão chegando, curiosas. A nossa conversa, primeiro, é sobre bobagens, mas elas querem saber mesmo é da Alemanha. A mais velha é muito incisiva comigo.

“Afinal de contas, onde a Alemanha quer chegar?”

Eu não sei. Os jornais só falam nisso. Parece que um navio brasileiro foi afundado recentemente, e elas não entendem. Eu também não. Todas estão acompanhando a história do Graf Spee, que para elas é pouco menos que o demônio. Lembram que a mãe sempre conta a história do bombardeio iminente na Rua do Resende, onde morava, e da mudança da família, por precaução, para o Alto da Boa Vista. Era a Revolta da Armada, da qual não tenho a menor ideia, deve ter sido há muito tempo. Eu só escuto, estou um pouco incomodado com esta conversa.

“Os ingleses vão acabar com os alemães, você vai ver só”, diz uma delas.

“O Uruguai declarou a sua neutralidade, mas não pode ficar indiferente ao pedido dos ingleses para que façam o encouraçado deixar o porto. Afinal, os ingleses sempre estiveram do lado dos países do Rio da Prata!”

“Será mesmo?” respondo. “Os ingleses, assim como os franceses, são espertos e colonialistas. O resto do mundo existe só para abastecer a Europa, não foi sempre assim?” arrisco um palpite. Elas ficaram apopléticas. Então era dessa forma, a Alemanha toda pensa igual? Elas começaram a discutir entre elas, a falar alto, e eu percebi que a situação mundial, vista aqui de longe, de um Rio Comprido tão pacífico, não era muito fácil de ser resolvida.

Resolvi mudar de assunto. Perguntei: “Alguém aqui é torcedora do América?” Pronto, chegamos a uma convergência, e a conversa mudou de figura. O America (sem acento, por favor) é também o meu time de futebol do coração. Eu não sei como escolhi este clube, acho que foi por influência de uns vizinhos, torcedores fanáticos, que propuseram me levar para o campo de futebol, só se eu concordasse em torcer para o América. Devia ter aí uns sete ou oito anos. Concordei na hora. Meu pai não se interessava absolutamente pelo esporte. Dizia que era coisa dos ingleses. Quando íamos ao Clube Alemão, lá no alto da Rua Santa Alexandrina, meu pai gostava de fazer ginástica, em enormes rodas de metal. Como fazia, quando era jovem, na Alemanha. E jogar boliche com uma turma de amigos. Mas futebol, definitivamente, nunca o atraiu. Eu gosto muito de ir ao campo da Rua Campos Sales, na Tijuca, assistir aos treinos. E vou sempre a pé.

Mas a trégua que as meninas me deram durou pouco. A mais nova, interessada por teatro, voltou à carga.

“O que os alemães estão fazendo com a Polônia é muito feio. A pretexto de retomar o Corredor Polonês, que seria habitado por alemães, eles invadiram militarmente o país todo. Sou contra o militarismo e contra a guerra. Sou contra o Getúlio também, se quer saber. Sou contra qualquer tipo de ditador.”

Fiquei assustado. Elas são mais velhas que eu, conhecem as coisas, acompanham tudo pelos jornais. Eu não. Ouço o rádio e torço pelos alemães. Assim como torço pelo América. As coisas que meus pais contam que foram feitas na Alemanha, depois da Guerra de 1914, também foram uma vergonha. Ninguém vê isso? Os franceses e ingleses impuseram duras penas ao povo alemão, que ficou na miséria. O Kaiser e a família foram morar na Holanda, certamente com conforto, mas o povo da Alemanha comeu o pão que o diabo amassou. Foi humilhado. Tudo isso eu pensava naquela hora, enquanto apenas olhava para as meninas falarem comigo e entre si. O que eu poderia dizer? Sou brasileiro, como elas.

“Gente, a conversa está boa, mas tenho que levar estas carambolas até lá em cima na Azevedo Lima. Qualquer dia a gente volta a falar da Alemanha, está bem? Auf Wiedersehen.”

“Você amarelou, Hans. Não quer conversar conosco sobre assunto sério”, me disse uma delas, em voz baixa e tom de queixa. Fui saindo, com um sorrisinho, agradecendo as carambolas, desci as escadas e passei pelo portão, quase correndo. Ainda pude ouvir as risadas das meninas. Meu Deus, eu ainda sou muito novo, não entendo nada, só acompanho o que dizem lá em casa.


(Imagem de Zhu Bing por Pixabay)

(Um folhetim em quatro partes, extraído do livro Maria Pia et cetera, em nossa livraria virtual)

(9 de novembro de 2020)

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