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“Digam de mim o que quiserem (pois não ignoro como a Loucura é difamada todos os dias, mesmo pelos que são os mais loucos), sou eu, no entanto, somente eu, por minhas influências divinas, que espalho a alegria sobre os deuses e sobre os homens.”
(Erasmo de Roterdã, “O Elogio da Loucura”)
PRIMEIRO CHEGARAM DOIS HOMENS, depois mais três, e logo somaram uns vinte com aspecto claramente indígena, chapéu na cabeça e sandália, alguns adereços. Fizeram um círculo bem na Plaza de la Constitución, mais conhecida como Zócalo, onde tremula uma enorme bandeira mexicana, viraram-se de costas para uma pequena multidão de curiosos, turistas em sua maioria, e abaixaram as calças, deixando ver a derrière esbranquiçada e lisa. Um protesto silencioso. Nada foi dito.
Ouviram-se vários “Oh, my God” das americanas, que correram a fotografar aquela cena insólita. Alguns guardas em uniforme azul-marinho vieram lá do lado da Catedral, outros do Monte de Piedad, parecia a todos que eles iriam impedir aquela cena, mas, solidários, limitaram-se a manter a pequena multidão afastada, porque já tinha gente querendo ver mais de perto, e os manifestantes estavam com cara de poucos amigos.
A qualquer momento, deveriam chegar as equipes de televisão e fotógrafos de jornais. A praça começou a encher. Veio gente de dentro da Catedral, veio gente que visitava as ruínas, veio gente da Avenida Francisco Madero, veio gente dos escritórios e, mesmo não sendo hora de almuerzo, veio gente dos restaurantes. A curiosidade era enorme. Vinte homens de bunda de fora. Isto dava chamada até na CNN. Em dado momento, passou uma pequena banda tocando Las Mañanitas, e os homens impassíveis, um pouco curvados, para que todos pudessem ver, sem distinção, e de qualquer ângulo, o que desejavam mostrar. Nenhum cartaz, nenhum discurso inflamado, nenhuma faixa. A multidão foi aumentando e os poucos guardas de azul-marinho pediram reforços. Alguém chegou a pensar no exército. Uma senhora veio e estendeu um lenço vermelho no chão, sugerindo alguma revolta de uma ala da esquerda contra o PRI. Mas os homens pareciam indiferentes, camponeses, gente do interior, trabalhadores da terra. Não pareciam interessados nas coisas da política.
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Edgar Freire Rubio é um caso curioso de livreiro tornado escritor. Nascido em Quito em 1947, de origem humilde e família de muitos filhos (seu pai era sapateiro), foi desde muito cedo trabalhar na Livraria Cima, esta mesma onde comprei há muitos anos o livro ao lado, em sua terceira edição. Lá, segundo depoimento dele próprio, aprendeu a amar os livros. Trabalhou nesta livraria por 35 anos, e depois mais dez na Libreria Española. Tornou-se, com o tempo, um escritor e historiador. O livro organizado por ele com o título de Quito - Tradiciones, Testimonio y Nostalgia mereceu muitas edições. Atraiu-me, inicialmente, a crônica "Hubo una vez un niño", texto de Susana Cordero. Depois, "O Enigma de Quito" de Benjamín Carrión, "Manuelita Saenz" de Germán Arciniegas e muitas outras histórias. O livro é uma coletânea de artigos, lendas e crônicas, de diversos autores, sobre a vida e os personagens de Quito. Segundo Edgar Freire uma tentativa de manter vivas, para as novas gerações, as tradições da cidade. Só um bibliófilo poderia fazê-lo. Por sua relevância para a vida cultural de Quito, Edgar Freire recebeu a alcunha de "librero de la ciudad". Merecidamente.
(23 de outubro de 2015)
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“Examinó el aposento con la clarividencia de sus vísperas, y por primera vez vio la verdad: la última cama prestada, el tocador de lástima cuyo turbio espejo de paciencia no lo volverá a repetir, el aguamanil de porcelana descarchada con el agua y la toalla y el jabón para otras manos, la prisa sin corazón del reloj octogonal desbocado hacia la cita ineluctable del 17 de diciembre a la una y siete minutos de su tarde final. Entonces cruzó los brazos contra el pecho y empezó a oír las voces radiantes de los esclavos cantando la salve de las seis en los trapiches, y vio por la ventana el diamante de Venus en el cielo que se iba para siempre, las nieves eternas, la enredadera nueva cuyas campánulas amarillas no vería florecer el sábado siguiente en la casa cerrada por el duelo, los últimos fulgores de la vida que nunca más, por los siglos de los siglos, volvería a repetirse”. (Gabriel García Márques, "El General en su laberinto")
(15 de abril de 2013)
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