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Outro dia, assistindo ao videocast do Encontro Marcado com Álvaro Esteves que apresentava uma entrevista com a autora Ana Cecília Carvalho, fiz uma releitura de seu intrigante livro Os Mesmos e os Outros - o livro dos ex. Já começa que o título é de uma atualidade impressionante, apesar do livro ter sido editado pela primeira vez em 2017. São 25 histórias, cada uma com um fim inesperado. É preciso dizer que a autora é também professora e psicóloga. Os textos são muito bem elaborados, uma escrita que flui com naturalidade, prende a atenção do leitor. E tem também o cão Fidel, que juntamente com os ex, aparece aqui e ali, inclusive na capa. E sempre presente está uma situação distópica, ao fundo, que pressupõe (pelo menos a este leitor) grupos armados em confronto. Nada mais atual. Os mesmos e os outros.

Carlos G. Vieira (8 de maio de 2026)

A literatura latinoamericana tem nos dado belos livros de realismo fantástico. Só para citar os mais conhecidos, Jorge Luis Borges, Julio Cortázar e Gabriel Garcia Márquez. Agora, temos um novo nome nessa lista, Álvaro Esteves (morador de Austin, Texas), que nos brinda, mais uma vez, com histórias fantásticas. A começar dos títulos intrigantes. Por exemplo: Era de Aquário, Brad Pitt on the Rocks, Lulas à Stanley Jordan, Além do Arco Íris.

E cada conto (são apenas sete) é precedido de uma seleção de letras de músicas, a começar por Quem vem pra beira do mar, de Dorival Caymmi. E a encerrar com Lança Perfume, de Rita Lee. O autor se revela, também, um amante da música popular brasileira.

Eu fico com o último conto, onde o personagem volta a encontrar uma antiga conhecida. "Mas tinha uma coisa que sempre me acompanhou, aqueles anos todos: o seu olhar." E continua, mais adiante: "E eu insistindo em desvendar que ser humano delicado, vivo, era aquele, escondido, que me passava às vezes a sensação de ser alguém de outro tempo." Eu, leitor, acho que deveria ser alguém de outro tempo mesmo, sei não.

(Mutantes incidentais e outros seres inesperados, Álvaro Esteves, 2021, capa de Flávio Brick)

(7 de fevereiro de 2022)

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 ERA UMA ÉPOCA EM QUE AS MULHERES levavam cestas enormes, cheias de roupas, para lavar na beira do rio. Ninguém falava que aquilo poderia poluir as águas rio abaixo, e penso que nenhum peixe deixou de existir por causa daquele sabão feito em casa, em grandes tachos de cobre, com sebo recolhido no matadouro.

Havia entre elas uma que era considerada de segunda categoria, porque a cesta que levava era sempre abarrotada de roupas e ela passava horas ajoelhada nas pedras até muito tempo depois que as outras se retiravam, as mãos enrugadas pela água fria, não cantava, não falava mal da vizinhança, nem do marido. Quase não falava. Monossilábica, se me entendem. Atividade diária incessante. Era preciso faturar algum para a comida, porque além da roupa da casa, lavava para fora, como se dizia antigamente. Dizem que a clientela era enorme. Tinha até lista de espera. Além de lavar muito bem lavado, ainda passava a roupa com grande esmero.

Enquanto as lavadeiras atendiam por nomes comuns, como Maria, Conceição e Tereza, talvez até alguns prosaicos como Albertina, Mirinda e Ordália, ela chamava-se simplesmente Fernanda. Fernanda de quê? Costumavam indagar, e ela respondia apenas “Fernanda de Jesus.”

Pois estava um dia nossa Fernanda enxaguando as suas roupas nas águas do Rio das Velhas, como sempre fez desde os treze anos de idade, quando percebeu que alguma coisa brilhava por entre as pedrinhas da margem. Catou com jeito e era uma pedra dourada. Calculou pelo peso na mão que fosse coisa de umas 200 gramas. Guardou no bolso do casaco para olhar melhor depois, com calma, e antes de chamar a atenção daquele povo.

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  ERA UM SONHO. Só podia ser um sonho, ou, então, um destes universos paralelos de que falam os entendidos. De repente, eu me vi numa casa de fazenda muito antiga. Daquelas fazendas coloniais que existem em Minas, São Paulo e Rio de Janeiro. Casa enorme. Eu subi por uma pequena escada de pedra, que dava diretamente na varanda frontal. Havia um banco de madeira encostado à parede, e uma proteção também de madeira, com umas volutas.

  Uma única porta dava acesso a uma sala, deveria ser a sala de visitas ou uma sala de entrada, não sei. Havia uma porta do lado esquerdo, que dava para uma outra sala ampla, com janelas que se abriam para o curral em frente e para o lado, de onde se avistava os pastos, e um paiol de milho logo embaixo. Agora me lembro melhor, pela disposição das cadeiras de palhinha, esta deveria ser a sala de visitas. Quem será que chega até aqui, aparentemente tão longe de outras casas, para visitar?

  Estou em outra época, só pode ser isso. Numa fazenda de café. Percebo isso, porque logo abaixo da casa existe um terreiro enorme, onde o café fica secando ao sol. Continuo andando cautelosamente pela casa, como se pudessem me ouvir ou como se fosse surpreender alguém. Ao longo de um corredor largo, existem quartos. Um pequeno escritório, com livros e canetas, muitos papeis espalhados, revelam que o senhor faz daqui as suas contas, recebe os empregados e faz pagamentos. Sei disso, porque existe um cofre enorme junto à parede.

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“Digam de mim o que quiserem (pois não ignoro como a Loucura é difamada todos os dias, mesmo pelos que são os mais loucos), sou eu, no entanto, somente eu, por minhas influências divinas, que espalho a alegria sobre os deuses e sobre os homens.”

(Erasmo de Roterdã, “O Elogio da Loucura”)


PRIMEIRO CHEGARAM DOIS HOMENS, depois mais três, e logo somaram uns vinte com aspecto claramente indígena, chapéu na cabeça e sandália, alguns adereços. Fizeram um círculo bem na Plaza de la Constitución, mais conhecida como Zócalo, onde tremula uma enorme bandeira mexicana, viraram-se de costas para uma pequena multidão de curiosos, turistas em sua maioria, e abaixaram as calças, deixando ver a derrière esbranquiçada e lisa. Um protesto silencioso. Nada foi dito.

Ouviram-se vários “Oh, my God” das americanas, que correram a fotografar aquela cena insólita. Alguns guardas em uniforme azul-marinho vieram lá do lado da Catedral, outros do Monte de Piedad, parecia a todos que eles iriam impedir aquela cena, mas, solidários, limitaram-se a manter a pequena multidão afastada, porque já tinha gente querendo ver mais de perto, e os manifestantes estavam com cara de poucos amigos.

A qualquer momento, deveriam chegar as equipes de televisão e fotógrafos de jornais. A praça começou a encher. Veio gente de dentro da Catedral, veio gente que visitava as ruínas, veio gente da Avenida Francisco Madero, veio gente dos escritórios e, mesmo não sendo hora de almuerzo, veio gente dos restaurantes. A curiosidade era enorme. Vinte homens de bunda de fora. Isto dava chamada até na CNN. Em dado momento, passou uma pequena banda tocando Las Mañanitas, e os homens impassíveis, um pouco curvados, para que todos pudessem ver, sem distinção, e de qualquer ângulo, o que desejavam mostrar. Nenhum cartaz, nenhum discurso inflamado, nenhuma faixa. A multidão foi aumentando e os poucos guardas de azul-marinho pediram reforços. Alguém chegou a pensar no exército. Uma senhora veio e estendeu um lenço vermelho no chão, sugerindo alguma revolta de uma ala da esquerda contra o PRI. Mas os homens pareciam indiferentes, camponeses, gente do interior, trabalhadores da terra. Não pareciam interessados nas coisas da política.

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