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    Aqui a Igreja refere-se às igrejas de Minas, aquelas muito antigas, do século XVIII em diante. Livro publicado este ano, de autoria de Mauro Monteiro. Começo pela Igrejinha (o autor chama de Capela) de Nossa Senhora do Ó, um dos cenários do livro Sabará 18, aqui em nossa Livraria Virtual. E, também, da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, ambas em Sabará. O autor nos ensina que a Igreja de Nossa Senhora da Conceição é uma das mais importantes do período 1700-1730, e constitui um belo exemplo de retábulo no estilo Nacional Português, com toques do estilo joanino.

    Uma vez, estando em quarto de hotel em Portugal, vejo um programa na TV falando da Igreja do Colégio dos Jesuítas nos Açores (Ponta Delgada), e o narrador explicava que o estilo adotado nas pinturas só existia ali e em Sabará. Levei um susto. Referia-se, naturalmente, à Igrejinha do Ó. Mas também se aplica à Igreja Matriz. Explica Mauro Monteiro, com relação à Igrejinha, que "O arco do cruzeiro é decorado com estampas com motivos orientais, as chinesices." 

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 Foi meu amigo José Roberto Moura quem teve a gentileza de me doar, em 2018, este livro. E na dedicatória, desejou "boa usagem". O livro tem organização do Prof. Wladimir Alves de Souza, prefácio de Tancredo Neves, e é fartamente ilustrado a bico de pena. 
   Começo, naturalmente, por Belo Horizonte. Destaco a casa da sede da antiga fazenda do Leitão, conservada como museu dos primeiros tempos do Arraial de Curral-del-Rey, hoje no bairro de Cidade Jardim. Continuo pelo prédio do antigo Senado, na avenida João Pinheiro, hoje Museu Mineiro, que só recentemente tive oportunidade de conhecer por dentro. Chego até o antigo necrotério do Cemitério do Bonfim, que conheço tão bem. E termino no Palácio da Liberdade, não mais a sede do executivo mineiro, mas um prédio extraordinário, símbolo da resistência do povo de Minas a todas as formas de arbítrio, e onde fui recebido, um dia, pelo então Governador Magalhães Pinto.
    Tenho que ir, em seguida, a Sabará, onde José Roberto testemunhou meu casamento há muitos anos, e Otávio o registrou, com grande empenho, em fotos coloridas. Começo pelo Solar do Padre Corrêa, atualmente sede da prefeitura, e que aparece algumas vezes em meu livro Sabará 18. Passo pelo Chafariz do Caquende, tão querido por Clarissa. Termino, naturalmente, na Igrejinha de Nossa Senhora do Ó, de 1720.
    E, entre tantas coisas bonitas que dizem ao meu coração, como em Ouro Preto, Mariana, Tiradentes, Santa Bárbara, na Paracatu dos Melo Franco, e muitas outras, quero encerrar este curto texto no Serro. Aquela velha cidade, cujos queijos são tão apreciados por meu amigo Sarmento. Começo pela Igreja do Bom Jesus de Matosinhos, esta antiga devoção portuguesa, também existente (talvez a mais famosa delas) em Congonhas do Campo. Sigo com a Casa dos Ottoni, e termino, como não poderia deixar de ser, com a Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Não está no livro, mas quero mencionar, também, a minha preferida: a Chácara do Barão do Serro.

(28 de janeiro de 2021, Ano II da Covid-19)



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Pronto. Agora tocou fundo no meu coração. As fazendas do Sul de Minas estão muito ligadas à minha infância, e à história da família. Quanta saudade da Chacrinha de Edgard da Veiga Lion, das Fazendas Santa Inês e Riviera de Feliciano Vieira da Silva, ou da Santa Fé da minha avó. Todas em Machado, Minas Gerais. Ou das muitas histórias que escutei da Fazenda da Capoeirinha, do avô Flávio de Salles Dias, onde meus pais se casaram, em terras de Alfenas.

Cícero Ferraz Cruz, arquiteto natural de Varginha com mestrado na Escola de Engenharia de São Carlos (USP), fez um estudo muito interessante da arquitetura das casas das fazendas mineiras do século XVIII e XIX, tomando o Sul de Minas como amostra. Este estudo virou dissertação de mestrado e um lindo livro publicado pelo IPHAN.

Quando observamos as casas sede das fazendas antigas notamos que há uma grande semelhança no processo construtivo e na disposição de cômodos, locais de acesso livre, sociais e privativos. Era comum, por exemplo, encontrar-se as "alcovas", quartos interiores sem janelas, destinados aos viajantes que pernoitavam nas fazendas, e que ficavam meio segregados da parte social da família, principalmente afastados das donzelas. Quando eu vi, há alguns anos, uma foto da Fazenda Engenho Velho, de José Gonçalves Leite em Paraguaçu-MG (foto de 4/11/1909, no livro de José Hermano Prado) eu tive certeza de que era a Fazenda da Capoeirinha em Alfenas, que eu mesmo havia fotografado em 1972. As fotos eram quase iguais. Depois, observando pequenos detalhes, vi que não eram as mesmas casas. Mas possivelmente havia sido usada a mesma planta, e na mesma situação de terreno.



Cícero traçou um plano ambicioso demais, segundo confessa o próprio autor, que depois tornou-se impossível de ser alcançado. Eram muitas as fazendas coloniais a serem estudadas, e muitas outras foram surgindo. Foi pena, por exemplo, que ele não tenha conseguido estudar a Fazenda do Centro, em Machado, conforme era a expectativa de seu proprietário na época, João Magno Coutinho de Souza Dias. A Fazenda do Centro, que pertenceu ao Capitão-mor Custódio José Dias, e depois a seu filho Dr. Roque Souza Dias e seus descendentes, é uma fazenda emblemática daquela região. Assim como também a Fazenda do Extremo, de meus primos Jorge e Layza.

Comparando a arquitetura das fazendas paulistas com as mineiras, o autor conclui que elas têm pouca coisa em comum. As mineiras nos remetem mais ao estilo português, com suas varandas e com uma característica muito própria, como dizia minha mãe. O curral geralmente fica bem próximo da casa da fazenda. Mesmo não correspondendo ao plano original, as fazendas estudadas são muitas. Gostei particularmente daquelas de Cruzília. Este oratório na foto maravilhosa logo acima é da Fazenda do Mato, em Três Pontas. Chamaram minha atenção também a Fazenda Pedra Negra (Carmo da Cachoeira) e  Fazenda Cachoeira (Conceição dos Ouros).

Mas, confesso, meus amigos, a minha visão não é a do arquiteto. É a do coração.

(Livro Fazendas do Sul de Minas Gerais, Cícero Ferraz Cruz, IPHAN, 2010)
(19 de maio de 2015)


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Passei quase dez anos da minha vida assistindo, com tristeza, ao desmonte progressivo de uma vila-quadra, na rua Lopes Quintas, depois de o corretor que me vendeu um apartamento ter me assegurado que aquilo jamais aconteceria. E, ao longo desta vida, conheci muitas vilas aqui no Rio, uma característica interessante da urbanização da cidade a partir do século XIX, e que resiste bravamente à verticalização. Por exemplo, cito a rua Leblon, que na realidade é uma vila privilegiada entre Delfim Moreira e General San Martin, e a vila onde morou meu amigo Gilberto, na rua Barão de Mesquita. E outras no Jardim Botânico, Botafogo, Copacabana, Tijuca, Catete, e no Lins de Vasconcelos (casa de Heckel). Hoje em dia passo regularmente por uma pequena vila, primorosamente mantida, na Gávea.

A vila residencial é o nome que se dá aqui a um conjunto delimitado de casas independentes, com um único endereço e quase sempre um único acesso, cujos moradores compartilham uma mesma área comum e repartem os custos de manutenção, em geral mais baixos que os de um condomínio tradicional.

O livro do arquiteto Alfredo Luz, lançado em dezembro, é quase um roteiro lírico e sentimental da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, tal como se referiu uma vez Vinicius de Moraes. Com a vantagem que o livro organiza nossa visão meio desordenada das vilas, algumas que só conseguimos ver através das grades de entrada, como diz o autor. Ficamos sabendo agora que, do ponto de vista do urbanista, existem a vila-corredor, a vila-através, a vila semiencerrada, além da vila-quadra, como mencionado acima. Uma vez fui visitar meu tio que se hospedava numa vila da rua Tonelero e tive uma experiência inusitada. Quase entrei na sala pela janela escancarada, que dava diretamente para a área de circulação da vila. Acho que este teria sido um mau exemplo de acesso híbrido.

O livro é fartamente ilustrado e colorido. As fotos das casas, das ruas e das vilas nos trazem, inevitavelmente, uma grande nostalgia. Podemos imaginar um Rio de Janeiro totalmente diferente do que é hoje, sem correria e sem sobressaltos. A Vila do Largo, em Laranjeiras, nos traz esperança. Segundo o texto, esta foi salva da especulação imobiliária. A Vila Tijuca, restaurada e com espaços de convivência para os moradores, é um exemplo de boa vizinhança. O Bairro Neusa, em Vila Isabel, é surpreendente.

Alfredo Luz, arquiteto e professor de Arquitetura, com este projeto que deu origem ao livro traz uma enorme contribuição para o entendimento do nosso espaço urbano e para a preservação destas verdadeiras relíquias da cidade  do Rio de Janeiro.
( Livro "Vilas cariocas", Alfredo Luz, editado em 2014)
(3 de janeiro de 2015)

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