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Volto a falar aqui do grande escritor, intelectual, político e diplomata Afonso Arinos de Melo Franco. Dos Melo Franco lá de Paracatu, nascido em Belo Horizonte como eu, antigo morador de Copacabana e da Rua Dona Mariana. Já escrevi sobre as suas memórias, A Alma do Tempo, que pude ler integralmente na época da pandemia. Recentemente fiz uma releitura de seu livro Amor a Roma, publicado em 1982. Numa época de Giorgia Meloni e do Papa Leão XIV, ambos no início de suas trajetórias, o livro de Afonso Arinos nos oferece uma perspectiva histórica rara, a partir da qual acreditamos, verdadeiramente, que Roma é eterna.

Ele começa recordando o moço que ele foi, obrigado a uma temporada por motivos de saúde na Suiça, indo pela primeira vez a Roma e sendo ciceroneado pelo próprio embaixador brasileiro, a pedido do pai Afrânio. O que vem a seguir é um verdadeiro tratado sobre a cristandade. O papel de cada Papa, e dos antipapas, na história não apenas do Ocidente, mas do mundo como um todo. E o texto, muitas vezes, é interrompido para que Afonso Arinos discorra sobre nossas relações brasileiras com Roma, como é o caso, já cidado neste blog, da relação de admiração mútua do Padre Antônio Vieira com a Rainha Cristina da Suécia .

Mas Afonso Arinos também discorre longamente sobre a transformação, no tempo, a que Roma foi sendo submetida. Dos arredores do Castelo de Santo Ângelo até as construções nos séculos seguintes, em especial a Praça Navona e o Palácio Pamphili, onde fica a Embaixada do Brasil, que já foi ocupada por tantos diplomatas ilustres, como Flecha de Lima e a inesquecível Lúcia.

Penso que Afonso Arinos fez um esforço monumental de reconstituir toda a história de Roma, ao longo do tempo. Isso espalhado por quase 500 páginas de um alentado trabalho literário. E que tem como apresentação um rico texto de Alceu Amoroso Lima.

Carlos G. Vieira  (17 de janeiro de 2026)


Além de Roma, você também quer saber de outras histórias?

Anotações genealógicas sobre dois troncos mineiros.
Onde comprar?

Prefere um eBook? Também temos.

 

O autor independente Washington Luiz Bastos Conceição acaba de divulgar um catálogo de todos os seus livros, com indicação de onde encontrá-los. Livros impressos e eBook. 

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O leitor também tem acesso a alguns de seus livros em nossa Livraria Virtual.

 

 A escritora portuguesa Gisela Silva tem escrito excelentes livros sobre Eça de Queiroz. Eu não sou propriamente um queiroziano, longe de mim ter esta pretensão, mas considero Eça um dos meus escritores, digamos, de cabeceira. O livro Ora Eça, senhor Queiroz! começa contando o nascimento conturbado de Eça, que acabou sendo criado pelos avós. Quando foi se casar com Emilia de Castro, a mãe da noiva exigiu que ele tivesse o sobrenome da mãe dele, afinal a família da noiva não poderia aceitar alguém cuja mãe fosse ignorada. Coisas de Portugal daquela época. Gisela Silva tem se dedicado a um público mais jovem, mas nem por isso os mais velhos, como é meu caso, devam se sentir rejeitados. Ela tem razão. O público jovem tem que ser conquistado para as obras primas da literatura. Não pode ficar só à mercê de jogos eletrônicos e redes sociais.

Eça, certa vez em correspondência, disse que ele era apenas um pobre homem da Póvoa de Varzim. Eu também costumo dizer o mesmo, aqui no Rio de Janeiro, em mensagens para amigos. É uma forma de me desculpar por avaliações apressadas, ou preconceitos que afloram sem querer. Aqui neste blog já postamos sobre Emília de Castro,  A Tragédia da Rua das Flores, Queijadas de Sintra, Era Lisboa e chovia, Rua das Janelas Verdes, Histórias da Vila do Seixo e Alves & Cia.

Infelizmente para nós, os livros de Gisela Silva ainda não tiveram uma edição brasileira ou versões em eBook, o que facilitaria e simplificaria a nossa leitura. Mas, quem sabe, ainda podem ter.

Carlos G. Vieira (14 de julho de 2024, em homenagem a Lourdes Antakly)

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Foi a menina Diana, aquela mesma citada no livro A volta do Abominável, no trecho em que o personagem principal dá-lhe um conselho (para que trate de arrumar um emprego no TRE do Jardim Botânico, coisa que ela não fez), quem me deu de presente este livro admirável de José Saramago. Uma mistura de duas épocas, na verdade dois romances entrelaçados, em que se destaca a figura de Raimundo Silva, revisor de livros, e lá do século XII, D. Afonso Henriques, os bispos de Braga e Coimbra, e os mouros sitiados no Castelo (que viria a ser de São Jorge), na região de Santa Maria Maior, Lisboa.

Mas foram as personagens femininas, se me permitem, que conquistaram este leitor. A senhora doutora Maria Sara, como a ela se referia sempre a jovem telefonista Sara, e a pobre Ouroana, descrita como a barregã de um cruzado, e por quem o soldado Mogueime se apaixona. Tudo isso imaginado por Raimundo Silva, que se propõe, ele apenas um revisor, a reescrever a história do cerco de Lisboa. Olha que reescrever a história já era uma prática antiga, dos escribas do início da cristandade, e até antes disso, dos egípcios e aqueles da Babilônia.

E tem a diarista Maria, que me fez lembrar de uma outra personagem - Josefa Amélia - com olhares indagativos quando se depara com duas rosas brancas no apartamento de Raimundo Silva, e recebe telefonema de uma certa Maria Sara. A pergunta "Quer que troque os lençóis hoje?" deixa desconcertado nosso revisor, que teima em esconder seus sentimentos.

Há ainda um detalhe curioso, embora insignificante dentro do enredo, que é a rua onde morava o  revisor. Rua do Milagre de Santo Antônio, em Alfama. Maria Sara observa que, embora o nome venha no singular, são vários os milagres representados nos painéis de azulejos existentes na rua. Maria Sara, que declara ter rompido um relacionamento há apenas três meses, e por isso está vivendo em casa de um irmão, acaba muito interessada na história que Raimundo está escrevendo e quer ver de perto onde ele trabalha. Mais não conto.

E o leitor perguntará, e os mouros? Já sabemos há muito tempo que foram expulsos da Península Ibérica, mas deixaram marcas que permanecem até hoje. Inclusive no aspecto físico de muitos descendentes.

Carlos G. Vieira

(Livro História do cerco de Lisboa, José Saramago, 1989)

(29 de abril de 2023)

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    O primeiro livro que li de Roberto de Castro Neves foi publicado em 1983. Baleia Branca. Fui convidado para o lançamento, não pude ir, comprei depois o livro e pedi que ele autografasse. Recentemente ele me enviou cópia do meu bilhete de quase quarenta anos atrás. Fiquei surpreso que ele tivesse guardado por tanto tempo. Em seguida, enviei-lhe foto do livro, mostrando a dedicatória. Ele nem se lembrava mais. Baleia Branca é um livro extraordinário e mostrou todo o talento literário do autor, homem que fez sua carreira profissional, principalmente na empresa privada, com múltiplos interesses. Tenho aqui na estante vários livros dele. Escreveu mais de dez. Inclusive, um alentado manual sobre comunicação empresarial integrada.

    Em janeiro deste ano, recebi uma mensagem de sua editora, Lúcia Koury, confirmando meu endereço, porque Roberto queria me enviar o livro Etcétera,  publicado este ano.

    Há menos de um mês me ligou para comentar sobre um conto recente, que deve fazer parte do próximo livro. Conversamos sobre várias coisas, lembranças, literatura, e sobre as nossas idades. Falei de seu estilo, que me lembrava um pouco Nelson Rodrigues. Direto, realista, contundente. A última leitura que fiz de algum escrito dele, a seu pedido, foi do conto Vida que segue, inédito.  

    Ontem, fiquei sabendo que ele nos deixou, de repente. Fiquei chocado. Deixo aqui nesse blog, destinado a autores e leitores, a minha homenagem a um autor cuja escrita inconfundível vai fazer muita falta.

(11 de junho de 2021)

Eu conheci as famosas queijadas de Sintra através de meu amigo Abel Júlio, que, um dia, me levou a conhecê-las na não menos famosa Casa Piriquita (fundada em 1862). São realmente deliciosas. E, agora, volto a encontrá-las nesse maravilhoso livro sobre comidas e vinhos, citados nas obras de Eça de Queiroz. Corri logo a procurar, nos fornecedores daqui do Rio, um verde branco de Tormes, sugerido pelo expert Vasco Garcia, para acompanhar um Caldo de Galinha com Fígado e Moela, mencionado por Eça em A Cidade e as Serras, livro que ganhei de minha irmã aos quinze anos, com a recomendação de que nunca me esquecesse das serras de Minas.

Este livro devo à bibliófila Clarissa (mais um), que saiu garimpando nas livrarias mineiras, e me trouxe de presente nos idos de 2006. Vários pratos são citados que surgem, ao longo do texto, em Os Maias, por exemplo. É lá que aparecem as queijadas, levadas por João da Ega ao Ramalhete, e que ele deixa cair ao chão, quando se depara, pela primeira vez, com Maria Eduarda. Aqui no Brasil, temos também famosas queijadinhas, como as de Sergipe, Paracatu, São Vicente e quase todos os lugares. Dizem que as queijadinhas são a cara do Brasil. E sua origem está lá em Sintra, Portugal.

Gostei muito da receita de coelho guisado à moda da Porcalhota. Desafio meus leitores brasileiros a me dizerem onde fica a Porcalhota. Eu mesmo tive que recorrer ao Google. Está lá citada, também em Os Maias.
E, novamente, corri às listas para ver onde poderia encontrar um vinho Colares Chitas, recomendado por Vasco Garcia. Desisti, muito embora ele tenha dito, na introdução, que escolheu os vinhos que poderiam ser encontrados nos países de língua portuguesa.

E, para encerrar esta viagem gastronômica pelos livros de Eça, quero citar uma sobremesa apetitosa. Pêssegos aboborados em vinho, citada no livro A Ilustre Casa de Ramires. Vinho do Porto.

(Livro Comer e Beber com Eça de Queiroz, Beatriz Berrini e Vasco Penha Garcia, Ed. Index, 1995)
(20 de maio de 2020)

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Ele, que se chamava Adolfo Correia da Rocha, falecido em Coimbra, no mês de janeiro, há 25 anos. Um dos maiores escritores da Língua Portuguesa.

"Atravessou a sala cabisbaixo, longe da majestade trágica das outras vezes. Deixava atrás de si a vida, e a vida não lhe dava grandeza."
( Do conto "O Alma-Grande, livro "Novos Contos da Montanha", 1944)

30 de janeiro de 2020

  Por sugestão de minha terapeuta multidimensional, comprei e li o livro Autobiografia de um Iogue, do Paramahansa Yogananda, falecido em 1952, nos Estados Unidos. Devo ter sido a última pessoa no Ocidente a fazer isso. Todo mundo com quem comento minha descoberta, sorri com benevolência e diz "Ah, sim, o Yogananda", na maior intimidade. Eu confesso que nunca havia lido. E nossa autora Fátima Teles ainda me disse que este era o livro de cabeceira de Steve Jobs.

  Pois bem, o livro vale a pena ler. É fascinante. Somos apresentados aos gurus mais famosos da Índia, e termos estranhos em sânscrito, com revelações surpreendentes.

  Queria mencionar duas passagens apenas, para ilustrar. A primeira delas é a ressurreição do guru de Yogananda, algum tempo depois que ele próprio havia presidido a cerimônia de sepultamento de Yukteswar. Muito semelhante ao que aprendi nas aulas de catecismo. A segunda passagem é o encontro de Yogananda com Nirmala Devi, tida como santa e que ele não conhecia pessoalmente. Esta, ao vê-lo, desce do carro onde estava e diz: "Pai, o senhor veio." E depois, "Pai, estou me encontrando com o senhor nesta vida, depois de séculos! Por favor, não vá embora ainda."

  Suspeito que a senhora Helena Petrovna Blavatsky quando nos dizia dos segredos dos mestres indianos, que eu pensei em encontrar em seu livro Isis Sem Véu e não encontrei, estava se referindo a estes gurus como os veneráveis Babaji, Lahiri Mahasaya e Sri Yukteswar Giri.

  Depois disso, comecei uma fase mística, e a ler vorazmente livros de Kriya Yoga e auto conhecimento. Nunca é tarde para aprender. Devo tudo isso à minha terapeuta, que fez rapidamente as malas e partiu para a Inglaterra. Provavelmente antes que eu a perturbasse com muitas dúvidas ou entrasse em meditação profunda.

(22 de junho de 2019)


Penso que eu nunca havia lido este livro. Assisti ao filme há muitos anos, mas o livro acho que nunca cheguei a ler. Fazendo uma arrumação aqui em casa, de repente ele me apareceu entre outros e fui tomado pela curiosidade. De início fiquei chocado. Pareceu-me um verdadeiro manual do pedófilo, escrito há mais de 60 anos (a primeira edição é de 1955). Depois fui constatando a grande engenhosidade descritiva de Nabokov, e admirei a sua coragem por escrever uma obra destinada a ser sobretudo polêmica ao longo de décadas. Mas, primeiro, queria dizer que o livro é muito bem escrito. Qualquer um pode perceber. Depois, me espanta como um estrangeiro nascido de família abastada em São Petersburgo foi capaz de captar tão bem o espírito da classe média americana. Achei notável o diálogo de Humbert, melhor dizendo a reprodução do diálogo porque o livro é quase inteiramente na primeira pessoa, com a diretora da escola de Beardsley, a senhora Pratt. Dolores, a Lolita do personagem Humbert Humbert, é uma menina terrivelmente esperta e calculista, de treze ou quatorze anos. Ele um homem de meia idade, talvez ali pelos quarenta anos, obcecado com garotinhas. Chega a casar-se com a mãe dela, uma viúva, apenas para ter mais chance de proximidade com a garota. A mãe morre atropelada, e Humbert inicia uma longa viagem pela América com Lolita, hospedando-se nos mais variados motéis e pousadas.
O autor conta em nota ao final do livro (desta edição que tenho em mãos) que este foi inicialmente rejeitado por quatro diferentes editoras americanas. Acharam insuportável o tema, e alguns editores confessaram não terem sequer chegado ao final da leitura. Isto na década de 50 do século XX. Imagino que hoje o autor estaria encarcerado. A primeira edição aconteceu em Paris. O livro é considerado atualmente uma das 50 melhores obras da literatura universal. Não é pouca coisa.
Um último detalhe curioso. Vladimir Nabokov escreveu este livro em inglês, língua que aprendeu ainda em criança, antes de escrever e ler em russo.

(21 de maio de 2018, o mais cruel dos meses para mim)

Carlos G. Vieira

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Benedito Valadares foi interventor e governador de Minas Gerais. Natural de Pará de Minas, lá fez sua carreira política, sem maiores ambições. Quando faleceu o então governador do Estado de Minas (dizia-se Presidente do Estado) em 1933, Olegário Maciel, as forças políticas se movimentaram para que fosse indicado como interventor Virgílio de Melo Franco, irmão de Afonso Arinos. Era apoiado pelos gaúchos e pelos mineiros. Mas existiam outros fortes candidatos, como Gustavo Capanema, por exemplo. Ocorre que Benedito, então um desconhecido deputado federal (hoje seria algo como pertencente ao baixo clero), pediu uma audiência ao Presidente Getúlio Vargas, dizem que em busca de um emprego público, porque andava muito mal das finanças. Naquele tempo deputado podia ser pobre.

Contou Juscelino, em depoimento ao CPDOC da FGV (registrado no livro Getúlio uma história oral, coordenado por Valentina da Rocha Lima), que Getúlio depois de perguntar-lhe pelos políticos mineiros, indagou o que ele achava dele mesmo. Benedito resumiu dizendo que não era propriamente um homem culto, mas era leal aos amigos. Getúlio então disse-lhe, sem mais essa nem aquela, que iria nomeá-lo interventor, mas não contasse a ninguém, nem à sua mulher. Prossegue Juscelino no seu depoimento que Benedito ao chegar em casa foi logo dizendo à dona Odete que seria o novo interventor em Minas. Dona Odete teria lhe dito "Benedito, eu sempre lhe disse que você não deveria beber..." Pano rápido, como diria Millôr Fernandes.

Benedito Valadares foi interventor e governador de Minas Gerais de 1933 a 1945. Emprestou o nome à cidade mineira de Governador Valadares. Dizem, também, que ele gostava de tomar uma Providência (lá de Buenópolis, perto de  Bocaiuva, terra adotiva de meu saudoso irmão Lucílio).

Pois bem, não é que Benedito Valadares escreve um romance denso, agradabilíssimo, com capítulos curtos e uma linguagem muito acessível? As más línguas dizem que o verdadeiro autor do romance Esperidião (tenho aqui uma cópia autografada, edição de 1951) foi Cyro dos Anjos, aclamado escritor mineiro, autor do famoso livro O Amanuense Belmiro (de 1937), romance que exalta a cidade de Belo Horizonte. Eu não sei, só sei que o livro de Benedito é muito gostoso de se ler. Conta a história de um político mineiro dos bons tempos, matreiro. Em um dos últimos capítulos, a propósito de uma escultura projetada por um italiano para a prefeitura de Belo Horizonte, é sugerido que seja a estátua do mineiro nu, que deve simbolizar Minas, na sua pureza de intenções. Envolto, apenas, na bandeira nacional. Bons tempos...

(10 de maio de 2018)

Fui agraciado, por estes dias, com generosos presentes vindos de Lisboa. Trata-se da correspondência completa (pelo menos toda a conhecida até agora)  de Eça de Queiroz a seus amigos e parentes, em dois volumes, e outro que trata exclusivamente das cartas pessoais que trocaram Eça e sua mulher Emília ao longo de pouco mais de quinze anos de convivência. Organização e notas de A. Campos Matos. Meu amigo José Manuel Vieira de Sá não poderia ter me agradado mais.
A correspondência de Eça começou a ser publicada, aos poucos, desde 1916. São vários livros, ao longo do tempo, sempre a incluir cartas inéditas. É de se ressaltar o trabalho da professora Beatriz Berrini, da PUC de São Paulo, uma queiroziana de mão cheia, que participou ativamente da Fundação Eça de Queiroz, em Tormes (Santa Cruz do Douro), Portugal. Autora de muitos livros sobre Eça, a Profª. Beatriz também participou da elaboração de uma das mais completas edições das cartas conhecidas do escritor português, publicada no ano 2000 pela Editora Nova Aguilar, do Rio de Janeiro.
Meu primeiro contato com Eça foi pela estante de meu pai. Lá eu li, ainda no início da adolescência, as Cartas de Inglaterra, uma coleção de ensaios que revela outra faceta da atividade intelectual e profissional do escritor, aquela de analista político.
JM comentou, e eu não sabia, de um pormenor da vida de Eça. A mãe só se casou com o pai dele, este nascido no Brasil, quando Eça de Queiroz tinha cinco anos. E ele teve como mãe de leite uma senhora pernambucana, dona Ana Joaquina Leal de Barros. São, portanto, muitas as ligações dos brasileiros com o grande escritor português.

Aproveito para recomendar a leitura de outra postagem deste blog - Era Lisboa, e Chovia, título do livro do Embaixador Dário Moreira de Castro Alves, que é uma viagem sentimental pela Lisboa dos personagens de Eça de Queiroz.
(6 de fevereiro de 2018)

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Parece que um blog que se propõe a falar de livros e autores independentes não pode deixar de fazer referência a uma das personalidades mais marcantes e controvertidas da literatura do século XX. A realidade é que até hoje havia passado em branco por aqui. Pobre deste blog.
  Sylvia Beach, em seu livro, conta que o casal Pound foi um dos primeiros frequentadores de sua famosa livraria em Paris, lá pelos anos 20 do século passado. Ezra Pound e Dorothy Shakespear (sem o "e", ela fez questão de frisar) moravam em Londres nesta época. Ele americano e ela inglesa. Dorothy chegou a fazer um mapa para ser impresso no verso do anúncio da livraria, porque achou que seria muito difícil aos possíveis leitores a encontrarem. Ezra Pound é considerado um dos precursores do modernismo na poesia. Revolucionou tudo. E ainda por cima deu sugestões, acatadas, no famoso poema The Waste Land de T.S. Eliot. Incentivou, não apenas com palavras, mas até com apoio financeiro escritores de talento como James Joyce e Ernest Hemingway.
  Publicou seu primeiro livro, cuja tiragem foi de apenas 100 exemplares, quando morava na Itália. Mas sua obra prima foi o longo e complexo poema Os Cantos, que durou cerca de 40 anos para ser totalmente terminado. Vou dizer uma coisa para vocês. Não é de fácil leitura. É preciso pesquisar um pouco para captar exatamente o sentido dos Cantos, uma proposta de poema épico, que começa buscando inspiração na Odisseia de Homero e na Divina Comédia de Dante. Ele mudou totalmente a métrica tradicional, incluiu partes de poemas de outros poetas, buscou trechos da filosofia chinesa, citou acontecimentos históricos, fez, em resumo, um apanhado da cultura universal.

Nathaniel Hawthorne nasceu em Salem, Massachusetts,  lugar que ficou famoso na literatura e no cinema pela caça às bruxas em 1692. Dizem os pesquisadores que seu bisavô foi juiz de um processo de bruxaria naquela época e condenou uma mulher (evidentemente inocente). O marido desta lançou, então, uma maldição sobre a família Hawthorne. "Deus haveria de vingar o que os perseguidores de sua mulher haviam praticado." Parece que o peso desta tradição familiar motivou a história do livro. Segundo o próprio autor as famílias carregam os feitos e os malfeitos (para usar um termo corrente aqui no Brasil) de seus antepassados. Ele criou dois ramos familiares no romance: os Pyncheon e os Maule.

Certa época, quando passei uns dias em Lenox, Massachusetts, desfrutando dos cenários relaxantes das Montanhas Berkshire, fiquei sabendo que Hawthorne ali morou (the little red house) no meio do século XIX, já casado e com filhos, e foi exatamente lá onde escreveu The House of the Seven Gables, em poucos meses. O livro foi publicado, pela primeira vez, no início da primavera de 1851. Este livro foi também o primeiro clássico da literatura americana que li com grande dificuldade, ainda adolescente, no saudoso ICBEU da Praça Afonso Arinos, em Belo Horizonte. Trata-se de um perfeito exemplo da chamada literatura gótica, que fala de fantasmas, casarões sombrios, maldições, bruxas e feiticeiros.
(4 de agosto de 2017)

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O poema The Waste Land começa assim: Abril é o mais cruel dos meses, sob o título de "O Enterro dos Mortos". Não, houve um engano. O mais cruel dos meses é mesmo maio.

Thomas Stearns Eliot, chamado simplesmente de Tom pelos amigos, Prêmio Nobel de Literatura de 1948, escreveu The Waste Land ("A Terra Desolada 1922", na tradução de Ivan Junqueira) quando tinha 34 anos. Nasceu nos Estados Unidos, em Saint Louis - MO, de uma família da Nova Inglaterra, mas viveu a maior parte de sua vida em Londres, para onde partiu ao início da Primeira Grande Guerra.

Teve uma vida pessoal muito conturbada. Quando foi para a Inglaterra, deixou em Boston uma namorada, Hale, que se tornaria a eterna namorada até o final da vida dela. Mas, surpreendentemente, ele depois de algum tempo, anunciou que se casara com uma inglesa chamada Vivienne. Esta, com sérios problemas de saúde, tornaria sua vida um inferno. Recusou-se a dar a ele o divórcio quando foi solicitada, e ele passou a viver solitariamente, escondendo o endereço onde morava. Depois que ela foi internada com problemas mentais, e passou assim alguns anos, ele nunca a visitou. Ainda fez algumas tentativas de reatar com sua antiga namorada americana, com quem trocou vasta correspondência, mas a proibiu em testamento de publicar qualquer das cartas, praticamente enquanto fosse viva. Casou-se novamente aos 68 anos com outra inglesa, Valerie, e com ela viveu os últimos anos de sua vida.

Todos estes problemas pessoais, e mais uma profunda reflexão filosófica e religiosa, resultaram em alguns dos melhores poemas da língua inglesa.

No início do livro Armazém Colombo (em nossa livraria virtual), há esta citação:
"Abril é o mais cruel dos meses, germinando
Lilases da terra morta, misturando
Memória e desejo, avivando
Agônicas raízes com a chuva da primavera."

(T.S. Eliot, The Waste Land, 1922 - tradução de Ivan Junqueira)
(27 de maio de 2017)

Nascido em uma família cujos antepassados haviam sido donos de escravos, no Brasil dos séculos 18 e 19, felizmente as duas gerações que me antecederam eram francamente abolicionistas. Meu avô materno foi expulso da escola em Ouro Preto porque, quando fazia um virulento discurso abolicionista, deu um tapa na cara do bedel. Está lá descrito no Esta Brava e Estoica Gente das Gerais, em nossa Livraria Virtual.
E foi assim que quando eu era ainda um menino me foi dado de presente o livro de Harriet Beecher Stowe, A Cabana do Pai Tomás. A minha família era assim. Naquele tempo dava-se de presente às crianças livros que as marcassem para a vida toda, e ajudassem na formação de suas personalidades. Foi desta forma que recebi A Cidade e as Serras, de Eça, para que nunca me esquecesse das serras de Minas, uma dedicatória altamente premonitória. E também O Crime do Padre Amaro, porque meu pai era reconhecidamente anticlerical.

O livro de Harriet Stowe, uma habitante da Nova Inglaterra, vendeu algo como 300 mil exemplares apenas no ano em que foi publicado, isto em 1852. Disseram para a autora que o livro dela havia desencadeado a Guerra de Secessão americana. Um exagero. Depois de haver sido festejado em vários países, o movimento dos direitos civis nos Estados Unidos da década de 60 colocou-o sob suspeição. Pai Tomás seria um santo e não exatamente um herói, como seria Martin Luther King. Pai Tomás aceitava o seu destino de escravo e isto deveria ser esquecido.
O fato é que o livro de Harriet Stowe, que chegou a ser a escritora mais famosa do mundo no meio do século 19, despertou as consciências para a situação desumana em que viviam os escravos, sobretudo no sul dos Estados Unidos, e tornou-se um clássico.
(12 de fevereiro de 2017)

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Ela nasceu em 1988, para mim o ano que nunca acabou. Aos 23 anos, estudante de literatura, abandonou praticamente os estudos e dedicou-se a escrever uma saga. Hoje, ganha algo como 17 milhões de dólares por ano, com seus livros e os filmes decorrentes, um de 2014 e outro de 2016. Primeiro lugar em várias listas de best sellers.

De onde veio a inspiração para estes livros tão estranhos, um tipo de leitura chamada, agora, de distópica?
Para começar a entender precisamos ler o primeiro livro da série, intitulado de Divergente. Eu o li e, ao mesmo tempo, assisti ao filme, o que me facilitou de certa forma visualizar os personagens e o ambiente.

O texto é escrito na primeira pessoa, uma adolescente de 16 anos chamada Beatrice, numa Chicago do futuro, destruída em grande parte por guerras e conflitos, cercada por uma espécie de muro como na Idade Média.
Na época do livro, os cidadãos são divididos em facções, e todos os adolescentes devem optar aos 16 anos por permanecer na facção onde foram criados, ou mudar para outra, conforme a aptidão demonstrada em um teste. Se mudar, abandonará a sua família e será rejeitada pelos outros membros da facção, como uma traidora.

Mas uns poucos seres demonstram ter múltiplas tendências, e segundo o livro, tornam-se perigosos para o sistema. São chamados de divergentes. Por isso mesmo, devem esconder o resultado do teste, que teria sido inconclusivo. Eu próprio fiz uma reflexão e concluí que sou um divergente.

A autora merece o sucesso que tem. O primeiro livro da trilogia é intrigante e prende nossa atenção do começo ao fim, mesmo não sendo mais o leitor (como é o meu caso) um jovem, que seria o público-alvo. Depois deste livro, seguiram-se Insurgente e Convergente (títulos em português).

A grande curiosidade que tive ao final do livro, como autor de ficção, foi mesmo saber de onde uma jovem de apenas 23 anos tirou essa inspiração, que a levou a criar um mundo total e admiravelmente novo e desconhecido. Terá sido a visão, em sonho, de uma outra realidade?

(22 de janeiro de 2017)

Carlos G. Vieira

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Confesso, com algum constrangimento, que li este livro na sua primeira edição (passou da vigésima). Sinal de que já estou há um bom tempo nesta estrada. O livro andou comemorando 60 anos este ano. Levei um susto, porque eu era apenas um menino quando o li, e parece que foi outro dia. O autor Mário Palmério, cujo centenário de nascimento foi comemorado em março de 2016, enviou um exemplar de presente para meu irmão mais velho, e eu rapidamente tratei de devorar o livro antes de todo mundo. Nunca me esqueci do personagem Xixi Piriá.

Mário Palmério, que nasceu em Monte Carmelo e morreu em Uberaba, no Triângulo Mineiro, me parece ter sido uma pessoa extraordinária. Como escritor, de apenas dois livros publicados, foi sucesso absoluto já na estréia. Entrou para a Academia Brasileira de Letras exatamente para ocupar a cadeira de Guimarães Rosa, outro mineiro regionalista. Mas o que me chama mais atenção em sua trajetória de vida foi a criação de escolas. Em Uberaba lá está a universidade que deve a ele o seu início, além de hospital e colégios. Foi nosso embaixador junto ao Paraguai, no governo João Goulart. Foi deputado federal por três legislaturas. E, curiosamente, morou vários anos em um barco na Amazônia. Uma vida muito diferente das pessoas comuns.
Leia mais

Quando apareceu o primeiro número da icônica (para usar um termo das Olímpiadas Rio 2016) revista Senhor, em 1959, eu que ainda era um menino de uns quatorze ou quinze anos li um artigo de Carlos Lacerda com este mesmo título, e não me esqueci mais. O artigo falava apenas das rosas, ele que as cultivava em seu sítio de Petrópolis, e nada de política, como se sabe a matéria prima de sua personalidade. Não sabia eu naquela época que ele usara emprestado uma frase famosa de Gertrud Stein, repetida muitas vezes daí para frente, e que fez parte do poema Sacred Emily (1913). Dizem que originalmente a frase referia-se a uma certa Rose, mas depois se popularizou como uma expressão que quer dizer que as coisas são como elas são, e pronto. Minha mãe usava um outro ditado, talvez menos poético e mais mineiro, revelando a mesma sabedoria: "tudo é quanto pode ser". Na casa onde nasci, o jardim em formato trapezoide era ornado de roseiras, acompanhando a escadaria. Brotavam rosas rubras como esta aí em cima, brancas, amarelas e rosas rosas. Minha mãe as tratava como filhas.

Carlos Lacerda também publicou um livro com este mesmo título, reunindo diversos artigos, numa época muito conturbada de sua vida, ali no meio dos anos sessenta. E começa com aquele publicado originalmente na revista Senhor. Aliás, aproveito para prestar uma homenagem a meu primo Túlio Vieira da Costa, já falecido, que fez um trabalho notável de recuperar e preservar vários textos de autoria de Carlos Lacerda, inclusive uma vasta correspondência, transformados em muitos livros editados em conjunto pela Universidade de Brasília e a Fundamar, de Belo Horizonte.

Quem poderia supor que no finalzinho dos anos cinquenta uma equipe editorial do porte de Nahum Sirotsky, Paulo Francis, Luiz Lobo, Jaguar e Scliar pudesse colocar no primeiro número de uma revista destinada a revolucionar o mercado de publicações uma Clarice Lispector e um Carlos Lacerda? O Brasil já foi mais tolerante do que é hoje.

"Uma rosa é uma rosa. Nós é que temos de nos definir em relação a ela." (Carlos Lacerda)
(23 de agosto de 2016)



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Milano
Berlin

Devo confessar, sem pudores, que levei uns 45 anos para ler este livro-bomba, publicado pela primeira vez em 1969, o ano para mim que não terminou. Apenas porque, ignorante, não o conhecia. Já escrevi aqui neste blog, e me penitencio por isto, que a temática de Philip Roth tem pouco a ver com o leitor brasileiro. É preciso conhecer um pouco de New Jersey, New York, Poconos, e da baixa classe média americana, sobretudo nos anos 40 e 50, para perceber as muitas nuances de seus livros. Mas ele é um autor fantástico. Quando estava na metade da minha leitura, um pouco chocado dentro do meu provincianismo mineiro, ocorreu-me de pesquisar sobre qual teria sido a reação da comunidade judaica americana na época da publicação do livro. E encontrei que muita gente torceu o nariz, rabinos fizeram condenações públicas, o autor foi acusado de alimentar o antissemitismo com os estereótipos tão a gosto dos goyim, por ter um personagem judeu que repudia a sua religião e seus preceitos, e fala abertamente de sua relação problemática com os pais. O livro é um grande monólogo do personagem Alex Portnoy sobre os seus dramas íntimos e sua sexualidade, preocupado com o tamanho de seu nariz e atraído pelas louras shikses. Em muitos pontos chega a ser hilariante. Mas, sobretudo, mostrou ao mundo o potencial de artesão da palavra que é Philip Roth, mais tarde confirmado em muitos outros livros, como American Pastoral. Li na The New Yorker que aos 81 anos, finalmente, ele fez as pazes com a comunidade judaica ao receber um título honoris causa na Jewish Theological Seminary, New York, em 2014. Quem não leu este livro, ainda está em tempo.
(2 de novembro de 2015 - uma data para muitas lembranças)

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Uma cidade pouco conhecida dos brasileiros em geral, e paradoxalmente tão perto de nós, é Quito, capital do Equador. Esta que é uma das mais antigas cidades das Américas, patrimônio cultural da humanidade, chamada de Reino de Quito em 980 A.C. e que fez parte do império Inca, tem histórias e personagens comoventes.
Edgar Freire Rubio é um caso curioso de livreiro tornado escritor. Nascido em Quito em 1947, de  origem humilde e família de muitos filhos (seu pai era sapateiro), foi desde muito cedo trabalhar na Livraria Cima, esta mesma onde comprei há muitos anos o livro ao lado, em sua terceira edição. Lá, segundo depoimento dele próprio, aprendeu a amar os livros. Trabalhou nesta livraria por 35 anos, e depois mais dez na Libreria Española. Tornou-se, com o tempo, um escritor e historiador. O livro organizado por ele com o título de Quito - Tradiciones, Testimonio y Nostalgia mereceu muitas edições. Atraiu-me, inicialmente, a crônica "Hubo una vez un niño", texto de Susana Cordero. Depois, "O Enigma de Quito" de Benjamín Carrión, "Manuelita Saenz" de Germán Arciniegas e muitas outras histórias. O livro é uma coletânea de artigos, lendas e crônicas, de diversos autores, sobre a vida e os personagens de Quito. Segundo Edgar Freire uma tentativa de manter vivas, para as novas gerações, as tradições da cidade. Só um bibliófilo poderia fazê-lo. Por sua relevância para a vida cultural de Quito, Edgar Freire recebeu a alcunha de "librero de la ciudad". Merecidamente.
(23 de outubro de 2015)

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